quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O Princípio de Vlamik

E ia nascendo um demônio em Vlamik; um monstro lamentável para quem já o tinha visto áureo como homem; para quem já vira em seu rosto um sorriso vivo - um riso de quem vivia!, e amava a vida; sofria-se um melancólico pesar pela escuridão e fumaça negra em que se dirigia seu espírito, enquanto outrora sua essência resplandecera tal a imagem dos deuses nas ideias do homens. Mas de tanto amor que crescera no peito de Vlamik, e de tanta indiferença - ou ignorância - que a isso sucedeu-se, um negrume e amargor lhe poluíram o espectro, ao ponto de homens e mulheres o desprezarem ou temerem-no. Pois Vlamik se deparou com o Amor, certa hora, e ficou-lhe tão próximo - como só poucos o podem - que a Loucura lho tentou, e não só isso, lho agarrou, levando ao jovem sardento o gosto suave do leite antes de o mesmo azedar. Então o Amor, sustentáculo da Praga, fez de Vlamik agente do que é terrível e cômico, e o rapaz de mantos pretos, e branco como um fantasma, passou a rir, com um olhar insano, do caos; e da demência da humanidade, aproveitou-se, criando dentes pontiagudos e sugando a vida das pessoas pelo sangue e pelas palavras. E sua vida não tinha mais fim. Enquanto pudesse secar a outrem, era sempre vivo, mesmo que já podre. E os séculos, ímpios, passavam; sua pele, argenta, mantinha-se firme como sua juventude, mas era antigo como os alicerces do mundo, ao ponto de saber mexer os ventos e fazer subir os enxofres do Inferno. Encantava pássaros, cobras, e vespas, e acariciava sapos e doenças, e então nem paladino nem guardião, da raça que fosse, fazia-lhe frente. Só quem lhe lembrava a humanidade e a delicadeza eram alguns druidas e sacerdotisas milenares do Erin... Mas a maioria dos Sábios lho chamavam desalmado... Quanto a isso, Vlamik, mais uma vez (louco) ria...

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