terça-feira, 22 de julho de 2014

Heleno, ela, a coragem e a imaginação

"Vai lá, fala com ela; puxa uma conversa; convida ela para tomar um café..." era o que Heleno ouvia das várias vozes que davam palpites dentro de seu próprio pensamento. Mas o que iria falar? Que assunto? Heleno simplesmente não sabia o que dizer para aquela garota.  “Dizer o quê?” martelava em sua cabeça. Falar sobre si mesmo não estava em voga – seria assunto para mais tarde – , e aí não queria lhe fazer perguntas idiotas quanto a seus gostos, o que fazia da vida, quais músicas gostava. Não queria demonstrar assim, de cara, que falava com ela porque gostava dela.
                
Por que gostava dela, tampouco sabia. Passou a perceber sua existência num por acaso, nunca tinha ouvido falar, de repente seu nome aparecia relacionado ao dele nas atividades do Facebook, deu pouca bola, demorou um tanto até conhecer seu rosto. Coisas que jamais fariam Heleno imaginar nem que fosse por imaginar – já que Heleno era especialista em imaginação – qualquer proximidade com aquela moça.  Mas eventos que jamais aconteceriam às vezes acontecem.  Volta e meia ela fazia aparições inesperadas em sua mente e cada vez mais em seu perfil na rede social, da qual andava frequentador diário.  Via-a e gostava-a, aos poucos, sem quase perceber. De uma hora para outra a frequência com que lhe lembrava aquela menina o levou a fantasiar seu aconchego, devanear sua vibração, seu beijo.
              
Heleno achava careta, ultrapassado, achava ridículo, burro mesmo, aquele papinho novelesco de “amor à primeira vista” – até então. O rapaz não era burro, ao contrário, era um cara bem sabidinho, até. Talvez por isso mesmo era avesso a crendices românticas, apesar de achar-se um carinha de certo lirismo. E também foi por isso impelido a se perguntar por que diabos ela lhe causava tanta curiosidade. Não encontrou a resposta, e foi bom, pois esfriou de manso e esqueceu a garota por algum tempo.
                
Quando ela entrou no café em que se achava lendo uma filipeta grosseira, numa tarde bonita de um outono frio, Heleno a seguiu com os olhos e ficou novamente intrigado. Espantou-se apenas com a sua reação calma e sem formigamentos. Voltou os olhos ao volante e leu sem muita atenção o conteúdo. “Ela tem te olhado, chama ela para tomarem café juntos” falava ansioso um sussurro psíquico. Ele ergueu a visão, ela o mirou, ficaram ali, nessa, se encarando e sem reação até que ela levantou e se aproximou, com uma taça de suco de laranja em uma das mãos. Ela o conhecia, o Facebook lhes apresentara. Deram-se um alô amigável, se sentaram e trocaram figurinhas durante uma excelente hora e meia.
                
Essa história de Heleno começa depois de os dois se encontrarem. Porque é o tormento dele. Estava apaixonado? “Não é possível!”. Não se rendeu. Gostava de pensar nela, mas não estava apaixonado. “Não!”. Usava a memória da tal para vencer a insônia, e de ímpeto, namorava aquela guria nos seus sonhos dia e noite, entre os amigos, entre as bebidas, aproveitava a imagem dela como um holograma que o analisava o comportamento, obrigando-o deliciosamente a ter a postura que queria ter diante dela, sentindo-se melhor e mais bem-sucedido. Em suas fantasias, dormiam juntos, se enroscavam sob as cobertas, suavam, esquentavam-se, esfriavam-se, saíam juntos, bebiam juntos, comiam juntos, comiam-se. “Imagina na prática, imagina isso acontecendo realmente!”, aquele gelinho lhe percorria a barriga e só cessava quando “tinha que convidar ela para tomar um café”. Eram amigos no Face, Heleno via suas postagens; de quando em quando abria a janela de bate-papo para ver se ela estava on – e quando estava, passava o mouse por cima do seu link, na intenção de se derreter vendo a foto dela (o cara estava virado num abobado – era paixão, Deus?!). Mas não havia coragem. “Dá um oi”, mas titubeava. Heleno era frouxo. Acreditava que não tinha a única coragem que realmente vale a pena ter: a de conquistar uma mulher.  Por certo chegava a se considerar caminhãozinho demais para a areia toda dela. Um complexo de inferioridade se assentava sobre aquele sonho. Contudo, tentava chamar atenção postando aquilo que imaginava que lha atrairia, baseado no papo que tiveram no café. Por momentos era agraciado por um “curtir” modesto dela. Outras vezes, via as publicações dela e arriscava, em seu âmago arisco, serem para ele, como indiretas, ao mesmo tempo em que suspeitava-se um tremendo imbecil pretensioso em sua ingenuidade. Chegou um ponto em que já se achava ridículo de tanto que postava coisas desesperadas e inseguras só para sugar a percepção daquela garota adorável. Em certas ocasiões, rolando o scroll (a rodinha do mouse), ficava apreensivo com a possibilidade de dar de olhos com aquela informação costumeira do Facebook: “... em um relacionamento sério com...”. Era algo que causava calafrios em Heleno. E ele era demorado, não tinha uma atitude, ficava esperando pelo acaso. Sabia que ela estava solteira, e a qualquer hora alguém  com um artifício muito melhor do que convidá-la para tomar café poderia tomar a dianteira e, quem sabe, por que não, roubar-lhe, nem que por um tempo, o coração. Às vezes, Heleno tinha medo de acessar o Face... Mas, se vivesse na pele tudo o que alucinava com aquela garota... Não teria o mau gosto de engastar na internet “em um relacionamento sério com...”. Achava a coisa sisuda, metálica, gelada. Parecia mesmo lápide e epitáfio. Em sua loucura, Heleno e ela tinham nada de sério, nada de severo, nada de rígido. Jamais condenaria seu relacionamento ao claustro da seriedade, ao grilhão do compromisso tal disciplina. Queria-a sorrindo na suavidade, vociferando no êxtase, suspirando na sutileza, soluçando no nervosismo, mas nunca na friagem sepulcral de um relacionamento sério. Almejava um relacionamento com parceria – com  contrariedades, sim – e com camaradagem, mas acima de tudo, com respeito e admiração. 

Agora já estava rendido, gostava daquela mulher. Mal a conhecia, mas a queria bem perto. Admitia inevitavelmente para si querer desfrutar dela, e também dar a ela o gozo de desfrutar dele. Desejava exibir tudo o que de melhor tinha nele. O que lhe havia de podre também se evidenciaria com o tempo, contudo, tinha esperança de que fosse remediado. Naquele trololó, a primeira vista foi um passo importante para a segunda, a terceira, a quarta, e aí sim, o primordial para um amor. Num rompante, Heleno pôs fim àquele namoro etéreo quando um dia um “blim blim” anunciou a janelinha de bate-papo do Face se abrindo e nem era no computador dele. Ela se aproximou da tela para ler melhor: 
– Oi, quer sair para tomar um café?

Nenhum comentário:

Postar um comentário