quarta-feira, 1 de outubro de 2014

João = Baba O'Riley

O nome do cara é escrito "Neuton". Mas ele disse que a pronúncia é "Níuton", como no inglês "Newton". Tá certo, não gostamos de regras na linguagem, isso é coisa antiquada, inútil, coisa pra um cara como Newton ver - queremos tirar o H mudo, o U dentre o Q e o E e o Q e o I, o Ç etc.. Então meu filho vai se chamar João. João, mesmo, simples (vou manter o til, pra não parecer revolucionário demais). O nome vai ser João, mas a pronúncia vai ser "Baba O'Riley". Baba O'Riley, não interessa! Meu filho vai ter que exigir que a pronúncia certa seja "Baba O'Riley"! Serão muitas vezes? Não! Serão todas! Fui eu, pai do João (leia-se "Baba O'Riley"), que decidi a pronúncia do seu nome.

Dizem que a linguagem é feita pelas pessoas, por quem a fala. Só receio o momento em que a fala for-nos entregue por completo, e a confusão que vai ser quando "melda" for entendido como "mel"...

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Dialética de um Libriano

Às segundas-feiras
Te odeio,
Quero tua varíola

Às sextas-feiras,
Não que te ame,
Mas quero tua cura

Poderá Deus 
Absolver-me no Juízo,
Pela síntese das quartas?

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O Princípio de Vlamik

E ia nascendo um demônio em Vlamik; um monstro lamentável para quem já o tinha visto áureo como homem; para quem já vira em seu rosto um sorriso vivo - um riso de quem vivia!, e amava a vida; sofria-se um melancólico pesar pela escuridão e fumaça negra em que se dirigia seu espírito, enquanto outrora sua essência resplandecera tal a imagem dos deuses nas ideias do homens. Mas de tanto amor que crescera no peito de Vlamik, e de tanta indiferença - ou ignorância - que a isso sucedeu-se, um negrume e amargor lhe poluíram o espectro, ao ponto de homens e mulheres o desprezarem ou temerem-no. Pois Vlamik se deparou com o Amor, certa hora, e ficou-lhe tão próximo - como só poucos o podem - que a Loucura lho tentou, e não só isso, lho agarrou, levando ao jovem sardento o gosto suave do leite antes de o mesmo azedar. Então o Amor, sustentáculo da Praga, fez de Vlamik agente do que é terrível e cômico, e o rapaz de mantos pretos, e branco como um fantasma, passou a rir, com um olhar insano, do caos; e da demência da humanidade, aproveitou-se, criando dentes pontiagudos e sugando a vida das pessoas pelo sangue e pelas palavras. E sua vida não tinha mais fim. Enquanto pudesse secar a outrem, era sempre vivo, mesmo que já podre. E os séculos, ímpios, passavam; sua pele, argenta, mantinha-se firme como sua juventude, mas era antigo como os alicerces do mundo, ao ponto de saber mexer os ventos e fazer subir os enxofres do Inferno. Encantava pássaros, cobras, e vespas, e acariciava sapos e doenças, e então nem paladino nem guardião, da raça que fosse, fazia-lhe frente. Só quem lhe lembrava a humanidade e a delicadeza eram alguns druidas e sacerdotisas milenares do Erin... Mas a maioria dos Sábios lho chamavam desalmado... Quanto a isso, Vlamik, mais uma vez (louco) ria...

sábado, 23 de agosto de 2014

Quimera dos Tempos

Trinta graus no inverno
A vida é a estação do inferno
Está na hora de o mundo acabar

A cabeça emerge do peito
Um coração tem na coxa o leito
Na língua, o escalpo no mar

O sol nasce, a coruja pia
A lua em pináculo, um galo, então, mia!
Orgias de células em gema âmbar

Sobre pirâmides, cruzes
Sob o lodo dos pântanos, luzes
Vida e morte trocando de lar

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Simão Preocupado

Simão, invejoso, leu um poema de um amigo, e achou-o tão bonito e bem escrito, tão distante das superfícies e ao mesmo tempo não tão gelado quanto a profundeza, que, não sorvendo sua amargura, correu a ler um dos seus para se sentir melhor. Mas se conseguiu, Simão nunca disse...

domingo, 17 de agosto de 2014

Lógica da Prevenção

Rindo dos capitalistas, Ramão considerou que fosse lógico que Stalin e Mao construíssem estátuas de si próprios; se não fizessem, quem faria? 

Romances Anarquistas

O espertalhão do Nuno, revoltado, rebelde, amante dos ideais utópicos anarquistas, disse que vai votar no Eduardo Jorge, porque tem absoluta certeza de que este não vai engrenar na Máquina...

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

A opinião de Procópio vale nada...

Procópio não gostava de falar de beleza, mas destacou a Lília Cabral, que tem os olhos bonitos, a boca bonita, o nariz bonito, as bochechas, as maçãs do rosto bonitas, os dentes bonitos, só que é feia...

terça-feira, 22 de julho de 2014

Heleno, ela, a coragem e a imaginação

"Vai lá, fala com ela; puxa uma conversa; convida ela para tomar um café..." era o que Heleno ouvia das várias vozes que davam palpites dentro de seu próprio pensamento. Mas o que iria falar? Que assunto? Heleno simplesmente não sabia o que dizer para aquela garota.  “Dizer o quê?” martelava em sua cabeça. Falar sobre si mesmo não estava em voga – seria assunto para mais tarde – , e aí não queria lhe fazer perguntas idiotas quanto a seus gostos, o que fazia da vida, quais músicas gostava. Não queria demonstrar assim, de cara, que falava com ela porque gostava dela.
                
Por que gostava dela, tampouco sabia. Passou a perceber sua existência num por acaso, nunca tinha ouvido falar, de repente seu nome aparecia relacionado ao dele nas atividades do Facebook, deu pouca bola, demorou um tanto até conhecer seu rosto. Coisas que jamais fariam Heleno imaginar nem que fosse por imaginar – já que Heleno era especialista em imaginação – qualquer proximidade com aquela moça.  Mas eventos que jamais aconteceriam às vezes acontecem.  Volta e meia ela fazia aparições inesperadas em sua mente e cada vez mais em seu perfil na rede social, da qual andava frequentador diário.  Via-a e gostava-a, aos poucos, sem quase perceber. De uma hora para outra a frequência com que lhe lembrava aquela menina o levou a fantasiar seu aconchego, devanear sua vibração, seu beijo.
              
Heleno achava careta, ultrapassado, achava ridículo, burro mesmo, aquele papinho novelesco de “amor à primeira vista” – até então. O rapaz não era burro, ao contrário, era um cara bem sabidinho, até. Talvez por isso mesmo era avesso a crendices românticas, apesar de achar-se um carinha de certo lirismo. E também foi por isso impelido a se perguntar por que diabos ela lhe causava tanta curiosidade. Não encontrou a resposta, e foi bom, pois esfriou de manso e esqueceu a garota por algum tempo.
                
Quando ela entrou no café em que se achava lendo uma filipeta grosseira, numa tarde bonita de um outono frio, Heleno a seguiu com os olhos e ficou novamente intrigado. Espantou-se apenas com a sua reação calma e sem formigamentos. Voltou os olhos ao volante e leu sem muita atenção o conteúdo. “Ela tem te olhado, chama ela para tomarem café juntos” falava ansioso um sussurro psíquico. Ele ergueu a visão, ela o mirou, ficaram ali, nessa, se encarando e sem reação até que ela levantou e se aproximou, com uma taça de suco de laranja em uma das mãos. Ela o conhecia, o Facebook lhes apresentara. Deram-se um alô amigável, se sentaram e trocaram figurinhas durante uma excelente hora e meia.
                
Essa história de Heleno começa depois de os dois se encontrarem. Porque é o tormento dele. Estava apaixonado? “Não é possível!”. Não se rendeu. Gostava de pensar nela, mas não estava apaixonado. “Não!”. Usava a memória da tal para vencer a insônia, e de ímpeto, namorava aquela guria nos seus sonhos dia e noite, entre os amigos, entre as bebidas, aproveitava a imagem dela como um holograma que o analisava o comportamento, obrigando-o deliciosamente a ter a postura que queria ter diante dela, sentindo-se melhor e mais bem-sucedido. Em suas fantasias, dormiam juntos, se enroscavam sob as cobertas, suavam, esquentavam-se, esfriavam-se, saíam juntos, bebiam juntos, comiam juntos, comiam-se. “Imagina na prática, imagina isso acontecendo realmente!”, aquele gelinho lhe percorria a barriga e só cessava quando “tinha que convidar ela para tomar um café”. Eram amigos no Face, Heleno via suas postagens; de quando em quando abria a janela de bate-papo para ver se ela estava on – e quando estava, passava o mouse por cima do seu link, na intenção de se derreter vendo a foto dela (o cara estava virado num abobado – era paixão, Deus?!). Mas não havia coragem. “Dá um oi”, mas titubeava. Heleno era frouxo. Acreditava que não tinha a única coragem que realmente vale a pena ter: a de conquistar uma mulher.  Por certo chegava a se considerar caminhãozinho demais para a areia toda dela. Um complexo de inferioridade se assentava sobre aquele sonho. Contudo, tentava chamar atenção postando aquilo que imaginava que lha atrairia, baseado no papo que tiveram no café. Por momentos era agraciado por um “curtir” modesto dela. Outras vezes, via as publicações dela e arriscava, em seu âmago arisco, serem para ele, como indiretas, ao mesmo tempo em que suspeitava-se um tremendo imbecil pretensioso em sua ingenuidade. Chegou um ponto em que já se achava ridículo de tanto que postava coisas desesperadas e inseguras só para sugar a percepção daquela garota adorável. Em certas ocasiões, rolando o scroll (a rodinha do mouse), ficava apreensivo com a possibilidade de dar de olhos com aquela informação costumeira do Facebook: “... em um relacionamento sério com...”. Era algo que causava calafrios em Heleno. E ele era demorado, não tinha uma atitude, ficava esperando pelo acaso. Sabia que ela estava solteira, e a qualquer hora alguém  com um artifício muito melhor do que convidá-la para tomar café poderia tomar a dianteira e, quem sabe, por que não, roubar-lhe, nem que por um tempo, o coração. Às vezes, Heleno tinha medo de acessar o Face... Mas, se vivesse na pele tudo o que alucinava com aquela garota... Não teria o mau gosto de engastar na internet “em um relacionamento sério com...”. Achava a coisa sisuda, metálica, gelada. Parecia mesmo lápide e epitáfio. Em sua loucura, Heleno e ela tinham nada de sério, nada de severo, nada de rígido. Jamais condenaria seu relacionamento ao claustro da seriedade, ao grilhão do compromisso tal disciplina. Queria-a sorrindo na suavidade, vociferando no êxtase, suspirando na sutileza, soluçando no nervosismo, mas nunca na friagem sepulcral de um relacionamento sério. Almejava um relacionamento com parceria – com  contrariedades, sim – e com camaradagem, mas acima de tudo, com respeito e admiração. 

Agora já estava rendido, gostava daquela mulher. Mal a conhecia, mas a queria bem perto. Admitia inevitavelmente para si querer desfrutar dela, e também dar a ela o gozo de desfrutar dele. Desejava exibir tudo o que de melhor tinha nele. O que lhe havia de podre também se evidenciaria com o tempo, contudo, tinha esperança de que fosse remediado. Naquele trololó, a primeira vista foi um passo importante para a segunda, a terceira, a quarta, e aí sim, o primordial para um amor. Num rompante, Heleno pôs fim àquele namoro etéreo quando um dia um “blim blim” anunciou a janelinha de bate-papo do Face se abrindo e nem era no computador dele. Ela se aproximou da tela para ler melhor: 
– Oi, quer sair para tomar um café?

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Nunca?

Nunca viu alguém diferente?
Nunca viu alguém mais diferente 
do que o diferente que você já viu?
Nunca viu um singular mais singular
do que singulares no plural que você conhece?

Muito prazer...

segunda-feira, 16 de junho de 2014

A Presidenta

A presidenta Dilma é nossa grande representanta. Mulher decenta, foi desde cedo militanta do Socialismo. Em suas aparições públicas, mostra-se uma mulher muito eleganta. Na juventude, ainda estudanta, lutou contra as serpentas da Ditadura, sempre crenta em um Brasil melhor. Senhora de seriedade, diz que não está no Planalto para ser comedianta. Mas também não chega a ser arroganta. Como tantas celebridades significantas, a presidenta Dilma sofre com as grosserias deveras exageradas de pessoas ignorantas. Por vezes não disfarça incômodo com as perguntas irritantas de alguns repórteres bestalhões. Além de tudo, sofre com as declarações impertinentas proferidas pelo seu colega Lula. Em relação aos Black Blocs, diz não poder ser toleranta, apesar de ser amanta das revoluções. Mas é uma pessoa tranquila, a presidenta. Uma mulher com uma carreira política brilhanta, que mantém a menta limpa e segue à frenta do país, com sua dentição protuberanta e sua cabeleira possanta, provando a cada dia que passa que podem lhe acusar de tudo, menos, porém, de santa e de anta...

quarta-feira, 11 de junho de 2014

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Heavy Metal

Quatro caras
Um carro apertado
Cerveja no chão
Pouca conversa
Sorrisos, menos
Escuro
Cerveja nos bancos
Jaquetas pretas
Velocidade baixa
Tatuagens 
Um pigarro atrás 
Fungada
Um escarro à frente 
Fumaceira disso
Fumaceira daquilo
Óculos escuros
Som ao fundo
Adele...

terça-feira, 27 de maio de 2014

Um retrato meu por Basil Hallward

Se eu tivesse um retrato meu
Pintado por Basil Hallward 
Certamente subiria
Todo dia
Até o sótão
Para me admirar
E me aterrorizar
Não pela beleza, não
Mas pela juventude
Mas pelo meu pecado
Mas por qualquer virtude

Do Amor

O amor
É o que há de mais ridículo
Somos fadados ao escárnio

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Ponderando (sem brabeza) Sobre Política

A mim parece que a diferencinha entre PSDB e PT é que o primeiro puxa no saco do povo durante o período eleitoral e, se eleito, deixa cair ou tira de própria vontade a máscara, mostrando então a cara opaca de pó de arroz, enquanto que o PT, por sua vez, bajula os eleitores durante a campanha e continua a adulá-los mesmo depois de vencedor...
Uma observaçãozinha: antes de ganhar, o PT não se preocupava com qualquer outra coisa que não o PSDB...
...

Já me questionaram que eu meto o pau em situação e oposição, e que só o que faço é descer o sarrafo no sistema político-partidário do país. O desafio que me propõem é então que solução eu daria... Não, não tenho solução, mas não é por não encontrar outra alternativa, que tenho que continuar enfiando o braço num balde de merda...
...

Eu sou aquele garoto que ia mudar o mundo (mudar o mundo), porém não assisto a tudo em cima do muro (em cima do muro), porque em cima do muro, por metido a poético (ou lunático, retardado mesmo) que sou, durante o dia, devaneio às formas das nuvens, e à noite, admiro as estrelas...

quinta-feira, 6 de março de 2014

A cicatriz de Tenório e as feridas que as mulheres cultivam...

Quando perguntado sobre uma cicatriz que carregava no rosto, Tenório respondeu que a havia contraído de uma vez em que foi defender de um cafajeste, pilantra, ordinário, uma dama que chorava, e tomou uma facada: - "O patife até foi fácil de 'botar pra dormir'; o complicado foi com ela, que tinha a faca na mão...".

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

O Festeiro Machão (O Proxeneta)

O Festeiro Machão é macho já do olhar
Uma olhada fulminante e é como um tapa
Peitinho estufado, uma pedância
Mede um metro e meio, meio quilo
Mas cada braço é mais meio metro - o que já é suficiente pra esbofetear jogador de basquete

A mulherada se atucana quando vê o Festeiro Machão
Também, o homem exala testosterona
O cara fede a masculinidade
"É como deve ser um homem", já diz o Festeiro com a mão próxima à virilha 
É tão galo, tão bagual, que a mulherada nem se aproxima, assustada com a própria libido

O Festeiro Machão gosta da noite, da esbórnia
Com ele não tem erro: convidou pra festa?
Vai ter que ter festa
Assíduo frequentador de bar, boteco, birosca...
Tudo aquilo que hoje chamam de "pub" (pâbi)
Já chega entrando
E já vem um molóide lhe apertar a mão 
Aqueles que não têm noção do perigo
"Puxa-saco"

Se um cara é sabido é o Festeiro Machão
Só anda com mulher bem resolvida no financeiro
Certo que é por isso que só é visto sozinho
Seleciona
Então se a "china" tem uns ferrinhos na niqueleira
Não lhe falta cigarro naqueles beiços

O Festeiro Machão, também conhecido como "O Proxeneta"
É tão macho, que sua banda preferida é o Motörhead 
E seu músico predileto é o John Bonham 
Mas, dentre o chinaredo, escancara um Queen 
Em singela homenagem ao putedo, pessoal não menos digno de mimos

O Festeiro Machão, o cara
Não é eu, não é você
Os papa-hóstias não gostam dele
Os fatiotinhas, também não
As carolas, só à noite, no fogo dos lençóis
Mas quem vai impedir o aquecimento global?
Quem vai erradicar a fome no mundo?
Quem vai frear a corrupção?
Quem pode evitar a guerra nuclear?
Ninguém sabe...
O Festeiro Machão tá cagando pra tudo isso

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O Poeta não vive o amor

O Poeta não vive o amor
Habita, pois, os amantes
Seus risos bestas radiantes
Penetra almas e alcovas
Mas deita, em fria e turva cova
À fronha amargos diamantes

E sente ao peito o calor
O abraço, o beijo, a euforia
A causar-lhe sôfrega agonia
Estaca que o espírito sente
Perfura os tecidos da mente
Mas o corpo, demente, não sacia

No arranhar da pena ao papel
Exerce ele o mais lindo amor
Trovões, carícias, gritos, vapor!
Paixões de arquétipos tantos
P'ra depois da explosão, acalantos
Suspiros de alívio ao ardor

A mão sua brandindo o pincel
Triste punhal que liberta o afônico
Exibe o real ao Poeta, platônico
Que o amor não se lhe pertence
Restando-lhe a reger os romances
De longe, distante, num choro atônico