sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Balduíno Fornicaria na Igreja

Os pensamentos são assombrações que simplesmente vêm... 

Há tempos Balduíno não ia à missa (não era católico, nem gostava de religião), mas naquele domingo, a convite de sua avó - a qual não tinha contato por dois anos -, resolveu fazer o agrado à velha e levantou cedo, já que ocasionalmente não estava de ressaca. 

A igreja era enorme e isso fazia-a parecer com pouco público. Os sons ecoavam e ele notou que o teto estava rachado, proporcionando a Balduíno a imaginação daquele mármore (ou seja lá do que fosse feito aquele teto) desabando em todas as cabeças - por via das dúvidas, imaginava também uma retirada rápida e estratégica para de baixo do banco em que estava sentado (sentado, de pé, de joelhos, sentado de novo, sinal da cruz, sentado...)...

Não prestava atenção numa única palavra balbuciada pelo padre (com aquele sotaque estranho que todos os padres têm, mesmo sendo todos eles daqui), ao contrário, ficava ali olhando para o chão sem nem perceber, ou para uma parte do banco da frente, um fiapo solto do paletó de um fiel, um vitral... Balduíno estava longe, contudo entediava-se até com sua capacidade de estar distraído. Foi num momento de um bocejo - sua avó sentada ao seu lado direito, roncando ainda que acordada - que percebeu uma moça mais à frente, o casaco discretamente pousado entre ela e um menino, lendo um folhetim de versículos da Bíblia, e exibindo, por causa da ausência do casaco, a alvura láctea da pele, que transmitia uma sensação de textura prazerosa de mordiscar.

O espectro obscuro de sua perversão, antes exclusivo de seu despertar ao meio-dia, agora rondava inescrupulosamente a cabeça de Balduíno. Estava mesmo pensando em chegar, ali, e pôr a boca naquela mulher, cheirá-la com o nariz grudado em seu couro, amassá-la? "Coisa feia", pensava. Poderia utilizar o momento para refletir, meditar, de repente ouvir o que dizia o clérigo, orar... Que ele teve um sentimento de culpa, não pode se negar. No dia-a-dia, desprezava todo aquele aparato de leis, regras e fundamentos definidores do certo e do errado, da Existência e de Deus... Mas estava ali, na suposta casa do suposto Cara, e teve medo e vergonha. Por isso Balduíno fez força, obstinou-se, sacrificou-se para manter afastadas as inquietações do espírito. Porém o pensamento é um demônio sem dono. Não é como olhar uma bela bunda, e ter o controle de não apalpá-la; não é como sentir coceira na própria bela bunda, e não meter-lhe a unha. Talvez se fosse um monge a viver num monastério no Tibete... Mas então, o devaneio revelou-se, e Balduíno deixou a quimera fluir. Queria fazer um sexo louco com aquela mulher, lá mesmo, na igreja, em algum cantinho, com muito silêncio, no confessionário, atrás duma porta... Como subterfúgio, usou Deus para bode expiatório: Deus o criou, portanto, criou seu pensamento, ou seja, não tinha culpa de nada.

"Beata safada", diria à moça. Taparia-lhe a boca com tanta força, que qualquer gemido morreria abafado em sua mão. Sua avó, agora cabeceando para todos os lados em uma letargia engraçada e nojenta ao mesmo tempo, nem perceberia sua ausência, não fosse a missa acabar naquele instante ("minha vó nem comeu a hóstia", pensou Balduíno), e a velha acordar naquele susto em que um olho se apruma primeiro que o outro na órbita. À medida que as pessoas levantavam-se e se dirigiam à saída, Balduíno aproximou-se da moça (e de seu provável marido) que agora não parecia tão arrebatadoramente apetitosa, e já no pátio, pensou que tudo o que sucedera com ele na igreja, naquela manhã, não passasse de, sabe-se lá, um tesão eclesiástico. 

No caminho de casa, foi sabendo que se os padres estivessem certos, iria direto ao inferno... "Tudo bem", refletiu. Tudo valera a pena, e o pensamento simplesmente aparece. Porém, valeria a pena mesmo, depois de chegar em casa e se trancar no banheiro...

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