segunda-feira, 27 de maio de 2013

Amor do Ódio - Ódio do Amor

- O ódio já tomou conta de mim.
- Pois eu acho que não. Ao contrário, tu és puro amor. Total anseio por amor. O ódio ama o amor, e o amor odeia o ódio. Todo o teu ódio, é amor sufocado. É amor preso revoltado. Há coisa rebelde que não o amor? O ódio, filho seu, o rebento desprezado, excluído, diminuído. O ódio é medo. E quem é que sente medo, senão o fraco; o agredido, o acovardado? Se fosses tu tomado de amor, gerarias tu, então, o ódio. Não no teu ventre, mas no peito de outrem. Porque o amor é limitado, quase cego. O ódio toma conta de ti? E a lamentação que sentes pelos que nunca foram amados? É tu, odiento como dizes, quem se compadece com a dor daqueles a quem o amor abandona, ou esnoba. Então, não é teu ódio fruto de amor? Sem saberes, não é ódio que te ocupa, mas o amor é que te falta. O amor é egoísmo requintado. Na existência não há plenitude, pelo que vemos. O amor, tão bonito, cantado nos poemas mais vibrantes, encenado pelas peças que em si criam vida para poderem exaltá-lo, o amor gera insegurança, ciúme, inveja, paranoia, ódio. Porque o amor é isso mesmo: êxtase do prazer, regozijo, bonança, dança, embalo, paixão... O que querem os amantes que façam os não-amantes? Que observem tudo com alegria pela alegria alheia? Acho que o ódio não tomou conta de ti. Talvez tu sejas apenas o corpo físico da existência... Consegues entender o que digo?

terça-feira, 7 de maio de 2013

Fugere Fratris

Às vezes, tudo o que precisamos é nos afastar, sumir da vida daqueles que conhecem nossas fraquezas, daqueles a quem exibimos nossos medos; aqueles com quem temos tanta intimidade que não é mais nem possível enganá-los que somos poderosos, pois dessa maneira parecemos ainda mais patéticos, mostrando que somos apenas uma farsa. E esses são os que julgamos mais necessários em nossa vida... Depois, a gente reaparece, com um novo brilho no olho, sem ter receio de sentir vergonha por todo um fingimento da nossa parte e da parte desses, que nos magoam tentando nos privar da mágoa, numa tentativa de reerguer-nos da fossa, mas nos afogando ainda mais. "Fugere urbem", "fugere fratris", temos que sair e nos procurar. Quando essas pessoas, tão importantes, lamentam demais por nós, é porque sua esperança na gente está se esvaindo, aí preocupam-se com eles mesmos e temem por sua própria felicidade. Então antes de virarmos seus problemas, é melhor sair, dar uma bela volta, e retornar novamente como sua solução...

quinta-feira, 2 de maio de 2013

"Você"


Eu tenho implicância com "você"
"Você" me soa tão vulgar
É um tanto alienígena, "você"

Só de pensar em "você"...
Trisneto de "vossa mercê"
Esse, tão velho, e esquecido
Tão nem mais usado

Descendente de "vossemecê", o impopular
Então genitor de "vosmecê"
(Alcunhado e esculachado por "vassuncê") 
Eis "você"

A mim, "você" não serve
Eu pouco uso "você"
Com um pai que nem "vancê"
Só podia sair "você"

"Tu"?
Mais familiar
Popular do outro lado do Atlântico
E aqui, confuso

"Tuas" ações ditas corretamente
Parecem metidas à besta (ainda que tão bonitas)
E faladas tal qual "você"
Tão banais quanto "você"

Nesse pandemônio trivial
Que me tira o sono quando escrevo e falo
"Vocês" são apenas coadjuvantes 
Que brilham no espetáculo do que mais me intriga:
"Eu"...