quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Agora Ainda

Não consigo me aquietar com lembranças, fotografias de verões, canções que recordam momentos, conversas sobre o passado que não volta mais... Não consigo me conformar com nostalgia, com momentos isolados, férias, não consigo ficar com os sorrisos apenas na memória... Não consigo... Não consigo estar alegre com saudades, deixar no passado o que ficou de bom, ou esperar que se repita só no futuro... Quase não consigo conter as lágrimas por não mais vivenciar ou ter de esperar viver ainda, e nada de viver agora - e não viver agora o tempo todo. Não consigo ser feliz a trilhas sonoras de ocasiões, sempre dolorosas ainda que remontem a gargalhadas - ou até por isso mesmo. Gosto da sonoplastia da vida, do ruído do Presente, do eco do agora. Não consigo morrer com o que passou, só o que me agrada é viver... Aquele eu de antes ainda está aqui, o antes é que sempre me abandona...

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Bom mesmo deve ser ser louco


Bom mesmo deve ser ser louco
Ficar por aí, num quarto, numa sala 
Na mente
Poder transformar um corredor de hospício
Numa estação de trem
Tornar uma enfermeira em prostituta
Ou em vovó
Ver um médico virar garçom 
Um psiquiatra, um palhaço
Um psicólogo, um palhaço
A seringa se metamorfoseando em canudinho
Os coquetéis químicos, gostosas champanhas
As baratas, gatinhos
As ratazanas, cães de guarda
Lavagens intestinais a ser massagens internas
E os choques elétricos como montanhas russas
Assim como os quartos acolchoados
Parques de diversão
E então, vai-se ao pátio
E vê-se a Europa, ou a Índia
Interagir com os companheiros de insanidade
Mestres oradores, heróis, paladinos, Napoleões, vilões
Vilões admiráveis, vilões detestáveis
Vilões ameaçadoramente geniais... Neros
E quando da lobotomia, revoluções homéricas
"Comadres" e penicos sendo elmos reluzentes
Grécias repelidas, Helenas conquistadas
Deuses de um lado, homens de outro
Mulheres em baixo, mulheres em cima, de lado
Almofadas viram mulheres
Colchões desposados como noivas
E a morfina que rende o corpo
Lá num canto inatingível da mente
Liberta o espírito
Tudo é loucura, mas tudo é sentido
É vivido
É... Bom mesmo deve ser ser louco

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Poema não Escrito


Há dias não escrevo um poema
Que se há de fazer, então?
Simplesmente escrever?
A caneta na mão, o Aurélio na mesa
Palavras complicadas (só para aparecer)
Jargões diversos...

Sentido? Dispensáveis
Alguma coisa tem que ter concordância
Mas dane-se o que a coisa quer dizer
Qualquer filosofia é profunda
E qualquer profundidade é maluquice

E se eu mandasse um 
"Morena branca, do peito ardente
Que a mão em garra, arranha a nuca
Morde o lábio, as coxas quentes
Doidivanas, puta, gata maluca"

Não, não estou inspirado
Deve ser porque ando meio feliz
Não tão funesto como de costume
Também não tão radiante 
Só relaxado, vadio

Alguma coisa tem que estar doendo em mim
Se eu quiser produzir algo que preste
Ou só o que faltava 
Ficar à mercê de alguma iluminação etérea
Alguma musa...

Não, é sem escrever essa noite
Vou fumar e deitar e talvez leia um pouco
Seriam os mais belos poemas
Aqueles que ficaram calados?
Uns não saíram ao além-boca
Porque eram simplesmente indizíveis...

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Sem Raízes


Eu não tenho raízes
Não sou planta
Não sou dente
Não sou quadrado

Tenho origens
Ou uma origem

De alguma forma
Fui originado
Mas acho mesmo
É que me originei

O que tem raízes
Fica estaqueado
Fincado
Obediente às intempéries
Sem escolha

Se dali tirado
Morre 

Nunca sou tirado
Eu saio
Ou entro

O que tem raízes
É vegetal
O vegetal vegeta
Só muda de terra
Se a mão 
Ou o bico de alguém 
O fizer

Eu não tenho raízes
Não acomodo
Tenho origem
Início, meio...

Porta Fechada


Deixo a porta aberta
pra que não pensem que estou-me masturbando?
Fecho a porta na certa
e que pensem que estou ejaculando...