sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Luta de Gaudérios


A argumentação mais imbecil que li sobre não proibir os rodeios gaúchos foi que eles não são feitos por diversão, mas por tradição. Qual é o sentido disso? Que coisa tão sem pé nem cabeça. Tradição é algo obrigatório? Pelo contrário, tradições e costumes são marcas de um determinado tempo - longo, é possível, mas findável. As tradições terminam, perdem o sentido com o mudar das coisas, passam a existir apenas na lembrança.

Não sei se os rodeios daqui são tão violentos quanto dizem ser os rodeios paulistas, mas que não são nada delicadinhos, não são. Até porque é bem comum a gauderiada vangloriar-se de ser bronca com tudo. Só a doma equina no Rio Grande já é bem feia de se ver. O domador se utiliza do método do "quebra-queixo" ("morde a 'oreia'"). Já vi, através da televisão, os ingleses, por exemplo, adestrando um cavalo. E é uma atividade que beira uma espécie de arte, de tão leve e sutil, em comparação a um gaúcho montado e puxando as rédeas do bicho de forma tão bruta ao ponto de várias vezes machucar a boca do animal. E na Inglaterra, os cavalos não são mais chucros que os daqui.

Os defensores do mantenimento dessa tradição usam como exemplo de brutalidade um esporte que vem se tornando cada vez mais popular no mundo todo, inclusive aqui por essas bandas: o MMA, ou Luta Livre. Na verdade, eu não sei muito sobre essa competição, pois não me apetece, dada a peculiaridade de sua violência. Porém, não se pode sequer comparar as duas coisas. No MMA, são dois homens - ou duas mulheres (parece já ter a versão feminina do combate) - que, minimamente controladores de si, enfrentam-se por vontade própria, estão ali porque querem, entendem o que está acontecendo, sem contar que são muito bem recompensados para subirem num ringue e espancarem-se mutuamente. Mas ninguém pergunta ao pangaré magro e ainda selvagem - por assim dizer - se quer ele ter uma trança de couro presa fortemente às virilhas, com um homem no lombo lhe fincando esporas, batendo-lhe com um mango - ou chibata - em todas as partes alcançáveis de seu corpo - inclusive a cara - no centro de uma espécie de arena (o tal "rodeio"), ocupada, muitas vezes, por milhares de pessoas gritando, e um locutor igualmente berrando ao microfone como uma matraca incansável. Não adianta perguntar. Será que não sabemos disso? Será que não é possível imaginar a aflição das criaturas? De certo pensar assim é "frescura" ou "boiolagem".

Eu proponho o seguinte: "Luta de Gaudérios". Entram dois guapos no ringue (que não é ringue, é o lugar mencionado acima), pilchados como manda o CTG, faca na guaiaca (só como enfeite, lógico), bombacha, lenço, chapéu de aba larga e barbicacho, chiripá, bota, espora, (bunda de fora... brincadeira), e se estapeiam até que um caia podre e o outro vibre com a glória de vencer um bicho que é quase invencível, um gaúcho! Pode-se até utilizar da história do Rio Grande: um Chimango contra um Maragato! É possível também a versão feminina, prenda contra prenda - não há discriminações... Pensei em várias outras coisas além, do tipo "Tiro de Laço em Xiru", "Tiro de Laço em Xiru Parado", " Corrida de Queras", "Gineteada em Macanudo", "Montaria em Chinoca" etc.

Diferente dos rodeios paulistas e estadunidenses, e das hediondas touradas ibéricas, não é comum ver um gaúcho enfrentando um touro imenso e feroz como o que acontece nos locais recém ditos. O máximo que sucede é uma vaca magra solta à correria, perseguida por pessoas montadas em cavalos de tamanho e força evidentes - a consagrada Raça Crioula - e que muitas vezes é prensada entre dois equinos montados, dessa mesma raça...

Passei boa parte da vida frequentando esses eventos tradicionalistas, principalmente na infância. Fui até dançador de Maçanico do Banhado. Adoro andar a cavalo - apesar de sempre ter sido um medrosão -, adorava percorrer o campo, em montaria, para buscar o gado em época de vacinação, amava ser um gaúcho... e ainda amo, mesmo que seja completamente avesso a patriotismos, nacionalismos e até mesmo regionalismos. Mas do Rio Grande do Sul se pode absorver esse espírito perseverante, impassivo, inconformado, inquieto, e até bravo, mas ao mesmo tempo romântico e doce, culto, erudito, fausto. A beleza e o orgulho do gaúcho estão na sua negação em servir, em jamais se deixar ser lacaio, em gritar na hora necessária, em pelear, como a gente diz. A grandeza do gaúcho está na honestidade como identificação comum, ainda que nós nos entendamos como humanos naturalmente comuns, não obstante as brincadeiras salgadas que fazemos. Entretanto, muitas vezes é a grossura e a truculência que é enaltecida, e esses que cantam a honra do gaúcho rudimentar e violento, de "faca na bota", são menos gaúchos que os mesmos Cavalos Crioulos em que cavalgam...

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