quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Se Enxerga


O cara é imprestável, vagabundo, 
bêbado, chato,
ranzinza, mal humorado,
medroso, vadio, 
parasita, grosseiro... 

Mas tem uma coisa no cara, 
que é muito importante e rara
(quem dera a tivessem mais uns)

O cara se enxerga...

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Terremotos e Incêndios


Quando houve o terremoto no Haiti, em 2010, um bispo, ou cardeal (um desses velhos de dentaduras de ouro), afirmou que a catástrofe ocorreu por conta de uma represália divina às feitiçarias cometidas por aquele povo, quando da colonização francesa na ilha. 2010! Estamos falando do ano de 2010! Não é uma referência aos séculos XIX, XVIII, XVII, e cada vez mais pra trás. É no fim da primeira década do século XXI. Então estamos nos referindo a um decrépito caduco bem cara-de-pau, que determinou o desapontamento de "Deus" e como foi a "Sua" maneira de expressar "Sua" decepção.

Me perguntei o que teriam feito aquelas pessoas mortas no incêndio de Santa Maria. Talvez pactos escabrosos com o demônio; sodomias e "gomorrias"; sexo com animais; baseados enrolados com folhas da Bíblia; falta de pagamento do IPTU... 

Um carinha deu a resposta em rede social - um desses crentes, títeres de pastores: interpelou que quantos desses tiveram convites para ir à igreja na mesma data da tragédia, mas preferiram "se divertir". Sim, assim mesmo, entre aspas... "se divertir". E como quem já tivesse avisado, deu de ombros e anteviu a chegada de muitas dessas almas ao inferno, onde realmente iriam queimar.

Cara, esse "Deus" me dá medo. Mas eu me borro de medo! Embora eu espere pela "Sua" inexistência, isso não significa que o "Magrão" não esteja lá, esfregando as mãos, levemente curvado em seu trono, esperando para me aplicar uma e me olhar chorando como um nenê na lava satânica. Ora, eu não vou à igreja. Não vou mesmo. Muito menos sustento cretinos em altares e púlpitos, comprando indulgências. Sim, porque esse "Deus" vende indulgências. Durante a Renascença, homens - veja bem, homens - questionaram, se rebelaram, foram excomungados, queimados, aconteceu o diabo a quatro com essa gente, por se mostrarem contrários ao comércio de religião. Só que no final das contas, esses heróis de batina se tornaram astutos homens de negócios. E suas religiões rebeldes viraram máquinas de fazer dinheiro, arrecadadoras de dízimos fartos e perdões a juros altos. Pois onde há igreja, há mercado. E "Deus" continua nessas igrejas e, de acordo com seus emissários, condenando quem não frequenta "Sua" casa.

Em Porto Príncipe, os haitianos eram feiticeiros malignos, evocadores de espíritos sombrios, crias de Satã, amantes dos diabos... pelo menos segundo aquele cardeal. Por esse motivo, foram castigados com um terremoto enviado por esse "Deus" ciumento. Mas não paro de me perguntar: que sacrilégio teriam cometido esses duzentos e tantos jovens, mortos em Santa Maria? Alguns espíritos bondosos que habitam esse planetoide rezam pra que esse mesmo "Deus" conforte as famílias pesarosas. Mas que eles não comentem isso com nenhum representante "Dele"... Algum pode se sentir ofendido em "Seu" nome...

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Perdoa-me

Eu te chamei de gentalha
Estava de cabeça quente
Não é o que penso

Pois é certo que
Sou consciente
Da tua condição de...

...Gentinha

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Luta de Gaudérios


A argumentação mais imbecil que li sobre não proibir os rodeios gaúchos foi que eles não são feitos por diversão, mas por tradição. Qual é o sentido disso? Que coisa tão sem pé nem cabeça. Tradição é algo obrigatório? Pelo contrário, tradições e costumes são marcas de um determinado tempo - longo, é possível, mas findável. As tradições terminam, perdem o sentido com o mudar das coisas, passam a existir apenas na lembrança.

Não sei se os rodeios daqui são tão violentos quanto dizem ser os rodeios paulistas, mas que não são nada delicadinhos, não são. Até porque é bem comum a gauderiada vangloriar-se de ser bronca com tudo. Só a doma equina no Rio Grande já é bem feia de se ver. O domador se utiliza do método do "quebra-queixo" ("morde a 'oreia'"). Já vi, através da televisão, os ingleses, por exemplo, adestrando um cavalo. E é uma atividade que beira uma espécie de arte, de tão leve e sutil, em comparação a um gaúcho montado e puxando as rédeas do bicho de forma tão bruta ao ponto de várias vezes machucar a boca do animal. E na Inglaterra, os cavalos não são mais chucros que os daqui.

Os defensores do mantenimento dessa tradição usam como exemplo de brutalidade um esporte que vem se tornando cada vez mais popular no mundo todo, inclusive aqui por essas bandas: o MMA, ou Luta Livre. Na verdade, eu não sei muito sobre essa competição, pois não me apetece, dada a peculiaridade de sua violência. Porém, não se pode sequer comparar as duas coisas. No MMA, são dois homens - ou duas mulheres (parece já ter a versão feminina do combate) - que, minimamente controladores de si, enfrentam-se por vontade própria, estão ali porque querem, entendem o que está acontecendo, sem contar que são muito bem recompensados para subirem num ringue e espancarem-se mutuamente. Mas ninguém pergunta ao pangaré magro e ainda selvagem - por assim dizer - se quer ele ter uma trança de couro presa fortemente às virilhas, com um homem no lombo lhe fincando esporas, batendo-lhe com um mango - ou chibata - em todas as partes alcançáveis de seu corpo - inclusive a cara - no centro de uma espécie de arena (o tal "rodeio"), ocupada, muitas vezes, por milhares de pessoas gritando, e um locutor igualmente berrando ao microfone como uma matraca incansável. Não adianta perguntar. Será que não sabemos disso? Será que não é possível imaginar a aflição das criaturas? De certo pensar assim é "frescura" ou "boiolagem".

Eu proponho o seguinte: "Luta de Gaudérios". Entram dois guapos no ringue (que não é ringue, é o lugar mencionado acima), pilchados como manda o CTG, faca na guaiaca (só como enfeite, lógico), bombacha, lenço, chapéu de aba larga e barbicacho, chiripá, bota, espora, (bunda de fora... brincadeira), e se estapeiam até que um caia podre e o outro vibre com a glória de vencer um bicho que é quase invencível, um gaúcho! Pode-se até utilizar da história do Rio Grande: um Chimango contra um Maragato! É possível também a versão feminina, prenda contra prenda - não há discriminações... Pensei em várias outras coisas além, do tipo "Tiro de Laço em Xiru", "Tiro de Laço em Xiru Parado", " Corrida de Queras", "Gineteada em Macanudo", "Montaria em Chinoca" etc.

Diferente dos rodeios paulistas e estadunidenses, e das hediondas touradas ibéricas, não é comum ver um gaúcho enfrentando um touro imenso e feroz como o que acontece nos locais recém ditos. O máximo que sucede é uma vaca magra solta à correria, perseguida por pessoas montadas em cavalos de tamanho e força evidentes - a consagrada Raça Crioula - e que muitas vezes é prensada entre dois equinos montados, dessa mesma raça...

Passei boa parte da vida frequentando esses eventos tradicionalistas, principalmente na infância. Fui até dançador de Maçanico do Banhado. Adoro andar a cavalo - apesar de sempre ter sido um medrosão -, adorava percorrer o campo, em montaria, para buscar o gado em época de vacinação, amava ser um gaúcho... e ainda amo, mesmo que seja completamente avesso a patriotismos, nacionalismos e até mesmo regionalismos. Mas do Rio Grande do Sul se pode absorver esse espírito perseverante, impassivo, inconformado, inquieto, e até bravo, mas ao mesmo tempo romântico e doce, culto, erudito, fausto. A beleza e o orgulho do gaúcho estão na sua negação em servir, em jamais se deixar ser lacaio, em gritar na hora necessária, em pelear, como a gente diz. A grandeza do gaúcho está na honestidade como identificação comum, ainda que nós nos entendamos como humanos naturalmente comuns, não obstante as brincadeiras salgadas que fazemos. Entretanto, muitas vezes é a grossura e a truculência que é enaltecida, e esses que cantam a honra do gaúcho rudimentar e violento, de "faca na bota", são menos gaúchos que os mesmos Cavalos Crioulos em que cavalgam...