terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Um Questionamento aos Papa-folhas

Não somos nós amantes da Natureza? Não queremos nós, pessoas alternativas, viver da forma mais poeticamente natural nossas vidas decadentemente industriais? Ora, vamos caçar! Sortudo o boi, que morre abatido pela marreta. Do contrário, morreria nas bocas dos lobos, que o devorariam ainda vivo... A leoa não questiona a dor e o medo da zebra, ela a estrangula... Ah, numa hora dessas, é feio ser natural, é feio ser da Natureza... Numa hora dessas, daí, todos nós que contestamos "Deus" e sua existência externa, deixamos de ser nativos, pelo dever de sermos divinos e irmos embora espiritualmente da Natureza...

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O Pastor Iradinho e a Realidade Ultrajada

Andou um pastor de não sei qual igreja, norte-americano (pelo que eu lembro), brabo, sapateando, grunhindo, babando porque soube que numa livraria encontrava-se a Bíblia na seção de ficção. Tudo bem que essa minha informação não tem lá muita credibilidade acadêmico-científica (eu simplesmente não lembro da igreja do cara, não tenho certeza de sua nacionalidade, nem do nome da livraria - se é que isso teria a mínima importância), mas em todo caso, imaginemos a situação, já que ela é totalmente plausível. Recordo que a reportagem em que li sobre, dizia que o homem ficou possesso (que ironia) e parece que (saudades da memória) foi protestar (tenho quase certeza que era protestante, mesmo) quanto ao absurdo daquele estabelecimento profano.

Falando sério, agora, (se é que é possível), vamos ponderar: um livro em que já breve em seu início tem uma mulher que nasce da costela de um homem (esse, em seu particular, germinado do barro); essa mulher, logo depois, tem argumentações com uma cobra (e o réptil é argumentador dos bons); lá pelas tantas, o mundo sofre uma catástrofe terrível e é totalmente inundado, salvando-se somente os passageiros e os tripulantes de um imenso baú flutuante que contém meia-dúzia de pessoas, e nada mais nada menos que um casal de TODAS AS ESPÉCIES DE ANIMAIS E PLANTAS TERRESTRES DO PLA-NE-TA!!!; em seguida, o Mar Vermelho se abre ao meio, permitindo que algumas milhares de pessoas o atravessem de um lado a outro sobre seu leito; um homem vive dentro de uma baleia; um outro sai voando numa carruagem "Star Trek" e nunca mais aparece; e mais coisas vão acontecendo; um cidadão dialoga com sua jumenta que se mostra mais inteligente e ética do que ele; e assim por diante, até que, na parte principal da história, uma virgem dá à luz um filho que, por sua vez, cresce e lá pelos 30 sai a caminhar sobre a água, transformar água em bebida alcoólica, ressuscitar mortos, e ele próprio, depois de executado, levanta da tumba e se manda!; e esse pastor queria que esse livro estivesse em qual seção que não a de ficção?! 

...

Talvez na de comédia...

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Balduíno Fornicaria na Igreja

Os pensamentos são assombrações que simplesmente vêm... 

Há tempos Balduíno não ia à missa (não era católico, nem gostava de religião), mas naquele domingo, a convite de sua avó - a qual não tinha contato por dois anos -, resolveu fazer o agrado à velha e levantou cedo, já que ocasionalmente não estava de ressaca. 

A igreja era enorme e isso fazia-a parecer com pouco público. Os sons ecoavam e ele notou que o teto estava rachado, proporcionando a Balduíno a imaginação daquele mármore (ou seja lá do que fosse feito aquele teto) desabando em todas as cabeças - por via das dúvidas, imaginava também uma retirada rápida e estratégica para de baixo do banco em que estava sentado (sentado, de pé, de joelhos, sentado de novo, sinal da cruz, sentado...)...

Não prestava atenção numa única palavra balbuciada pelo padre (com aquele sotaque estranho que todos os padres têm, mesmo sendo todos eles daqui), ao contrário, ficava ali olhando para o chão sem nem perceber, ou para uma parte do banco da frente, um fiapo solto do paletó de um fiel, um vitral... Balduíno estava longe, contudo entediava-se até com sua capacidade de estar distraído. Foi num momento de um bocejo - sua avó sentada ao seu lado direito, roncando ainda que acordada - que percebeu uma moça mais à frente, o casaco discretamente pousado entre ela e um menino, lendo um folhetim de versículos da Bíblia, e exibindo, por causa da ausência do casaco, a alvura láctea da pele, que transmitia uma sensação de textura prazerosa de mordiscar.

O espectro obscuro de sua perversão, antes exclusivo de seu despertar ao meio-dia, agora rondava inescrupulosamente a cabeça de Balduíno. Estava mesmo pensando em chegar, ali, e pôr a boca naquela mulher, cheirá-la com o nariz grudado em seu couro, amassá-la? "Coisa feia", pensava. Poderia utilizar o momento para refletir, meditar, de repente ouvir o que dizia o clérigo, orar... Que ele teve um sentimento de culpa, não pode se negar. No dia-a-dia, desprezava todo aquele aparato de leis, regras e fundamentos definidores do certo e do errado, da Existência e de Deus... Mas estava ali, na suposta casa do suposto Cara, e teve medo e vergonha. Por isso Balduíno fez força, obstinou-se, sacrificou-se para manter afastadas as inquietações do espírito. Porém o pensamento é um demônio sem dono. Não é como olhar uma bela bunda, e ter o controle de não apalpá-la; não é como sentir coceira na própria bela bunda, e não meter-lhe a unha. Talvez se fosse um monge a viver num monastério no Tibete... Mas então, o devaneio revelou-se, e Balduíno deixou a quimera fluir. Queria fazer um sexo louco com aquela mulher, lá mesmo, na igreja, em algum cantinho, com muito silêncio, no confessionário, atrás duma porta... Como subterfúgio, usou Deus para bode expiatório: Deus o criou, portanto, criou seu pensamento, ou seja, não tinha culpa de nada.

"Beata safada", diria à moça. Taparia-lhe a boca com tanta força, que qualquer gemido morreria abafado em sua mão. Sua avó, agora cabeceando para todos os lados em uma letargia engraçada e nojenta ao mesmo tempo, nem perceberia sua ausência, não fosse a missa acabar naquele instante ("minha vó nem comeu a hóstia", pensou Balduíno), e a velha acordar naquele susto em que um olho se apruma primeiro que o outro na órbita. À medida que as pessoas levantavam-se e se dirigiam à saída, Balduíno aproximou-se da moça (e de seu provável marido) que agora não parecia tão arrebatadoramente apetitosa, e já no pátio, pensou que tudo o que sucedera com ele na igreja, naquela manhã, não passasse de, sabe-se lá, um tesão eclesiástico. 

No caminho de casa, foi sabendo que se os padres estivessem certos, iria direto ao inferno... "Tudo bem", refletiu. Tudo valera a pena, e o pensamento simplesmente aparece. Porém, valeria a pena mesmo, depois de chegar em casa e se trancar no banheiro...

domingo, 3 de novembro de 2013

Poeminha Revelador

Aquele poema, tão simples
Sempre lembro de ti
Por que? 
Porque gostas tanto dele
Por que? 
Não sei
Às vezes o cultor lê 
Aquilo que o poeta não percebe
Em si

domingo, 20 de outubro de 2013

Costa e Silva - Herzog

Não que eu considere Vladimir Herzog um incontestável herói martirizado pelo Regime Militar, mas a ideia de trocar o nome da ponte Costa e Silva, popularmente conhecida por Ponte Rio-Niterói, pelo nome do jornalista torturado e morto pelos carrascos da ditadura brasileira, me parece o menos incoerente possível quanto a nomes de vias públicas como homenagens. Vladimir Herzog fazia parte do Partido Comunista - militância essa, que eu não tenho a mínima admiração pela qual (assim como qualquer coisa que arrebanhe e crie séquitos) -, que, por sua vez, era (é) admirador e idólatra de déspotas como Stalin, Mao e Castro (mas qualquer informação negativa acerca desses senhores é manipulação da "Direita Capitalista" - lógico...)... Então já me brilha aos olhos uma imagem dele de ovelha adestrada: o que enxergo como tremenda cretinice (mas os comunistas podem: eles "têm uma causa")... 

Mas não é nesse mérito que quero entrar... Prefiro, sim, o nome de Vladimir Herzog no lugar; o nome dele como homem a ser homenageado em contraponto ao de um crápula sacripanta (esse nosso idioma nos prega cada peça...), Costa e Silva, que deveria ser lembrado apenas nas páginas amargas dos livros de História como exemplo a jamais ser seguido. Nesse caso, pouco me importa o partidarismo de Vladimir Herzog. Aquilo que o dramaturgo via como o ideal de uma sociedade não vingara por essas bandas. O professor Herzog jamais ameaçaria o país com seus Ches e Lenins. Talvez fosse amante daquele sonho etéreo, como também foi Marx. No entanto, só o que conseguiria - e conseguiu - fazer foi tentar, na melhor das hipóteses, exigir e cobrar a democracia; não admitir tiranos no exercício de sua usurpação.

Não é a primeira vez que brado contra tributos a ditadores. Quando um homem tenta dominar, governar a outro(s), ele se torna inglório. Como é cafona senhores, amos, donos... Como é vulgar. Como é patético manter monumentos em glória, que foram erigidos pelos próprios feitores, de pé. Vladimir Herzog não foi manda-chuva de ninguém. Foi, como tantos outros, um subversivo contra uma monarquia sem título. No caso brasileiro, sua doutrina ideológica nem fazia diferença, porque naquela ocasião, só havia um objetivo comum: o não-domínio. Portanto, a meu ver, Herzog é, claro, digno de substituir Costa e Silva em deferência nacional. Mas, o Vladimir Herzog, pois reverenciar Stalin e Hitler, dá no mesmo...

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Azares de Uma Vida Chuvosa

Azares de uma vida chuvosa
O guarda-chuva arregaçado por aquele vendaval
que vem de todos os lados
Um frio de apavorar russo
E só acontece com você
(com o seu gurda-chuva)
Com seu corpo, o mais frágil do mundo
O mundo odeia você
Você odeia o mundo
Você odeia seus pensamentos
Sua memória cretina
A imundície lamacenta de suas lembranças
das dívidas nos botecos
E os guarda-chuvas dos outros 
não ficam do avesso com o vento
É só o seu
Que ódio deles!
Suas indiferenças, e uns não podem conter o riso
E quando um mendigo vos pede um cigarro
V. Ex.ª nega, dizendo que não tem outro
senão aquele que carrega entre os dedos
Lho refusa porque não quer parar
(mas você tem cigarro [acabou de comprar]),
temendo os borbotões de lufadas multidirecionais
Temendo o engrossar da chuva
Que engrosse mesmo!
Aí seria algo grandioso a temer
(não esse chuvisqueiro criança sádica
que lhe cutuca e atormenta e dá sorrisos malvados)

...

Você chega em casa, casaco ornado de brincos d'água 
Não tem café, não tem alívio
E a saraivada líquida debochando de você pela janela
"Você não está de férias..."

sábado, 24 de agosto de 2013

Para Jú(Ju)lia

Um acento nesse teu nome
E um movimento da minha mão
É artístico como uma habilidade de uma esgrima
(Seria artístico...)

Ora um nome tão "Júlio" quanto o teu
Vindo do César 
Escrito sob o idioma português
(A mais bela das falas gráficas e faladas)
Não pode ser "Julia", sem acento

"Júlia", tem que ter acento
Pra que meu pincel pedale 
Com o requinte que outrora
Os lusos cantaram César e sua glória
E eu pinte em meu muro
Teu nome na grafia de Camões...

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Considerações Sobre Um Paranoico

O paranoico é aquele que leva em consideração o pior que pode acontecer. Mas ele não é um pessimista, necessariamente, ou um agourento mal-humorado. Pelo contrário, deveria ser chamado de "o esperto", "o mais esperto". Assim ele já fica preparado. Então o paranoico é na verdade um sábio prudente, um ardiloso e bem-sucedido covarde que sabe o que fazer, pois todas as possibilidades lhe passam pelo arisco pensamento. E o que faz esse indivíduo ser levado à paranoia? O prazer e a bonança. É preciso primeiro cogitar o regozijo, pois não há por que se preocupar quando não se tem nada de bom a perder. E nessa situação, o paranoico não carece fugir ou se esconder, uma vez que conhece a ardilosa e sofisticada habilidade de evitar. E ainda que deveras ridicularizado, é o paranoico quem tem as maiores chances de manter a cabeça por sobre o pescoço, ora, em sua condição, ele bem sabe da arte de manter os olhos abertos, os ouvidos atentos, e a língua atrás dos dentes...

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Parábola Divina

A maldade e aquilo que é natural se distinguem no momento em que o sapo abocanha a abelha e essa lhe aferroa a língua, mas mesmo assim - e sabendo de sua morte iminente - ainda ela se submete como alimento para seu penoso algoz... 

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Quero as Portas Abertas

Eu não quero dinheiro, embora - ainda que um símbolo - ele seja uma das principais bases de tudo. Eu quero a experiência. Sem experimentação não se transcende. O objetivo é conhecer, para poder ser livre. Meu desejo é obter um entendimento mútuo entre mim e o que acontece no universo. Pois uma vez que não haja verba, mas a possibilidade da sensação existir, o dinheiro é só um símbolo efêmero. Então minha meta passa a ser o sentimento. Instigar meus sentidos é o compromisso que firmei comigo para que minha razão possa balancear o que ocorre no exterior de mim. O que quero dizer é que, o importante é as portas estarem/serem abertas... As chaves são apenas apetrechos de utilidade...

quarta-feira, 3 de julho de 2013

O que se passa na cabeça de um gato?

O que se passa na cabeça de um gato
É o que buscam os humanos, sem saber
Pois um gato, ali, suspenso, sensato
Calmo, em sossego, insiste em ser

Quem nunca viu gato olhar a parede
Em letargia, em torpor, em direção ao nada
De forma sucinta expressando uma sede 
Em vir, para o Cosmo, porta e escada?

Trás um gato, em si, noturna divindade
Não de livros, sacerdotes, e pura malvadeza
Sai um gato, astuto, à noite em liberdade

Sendo esse invejado por toda a Natureza
E os homens, que se afogam na lama da vaidade
Clamam enciumados felinas paz e destreza

domingo, 16 de junho de 2013

Sobre os Cães do Estado

Esses policiais são cachorros, cachorros adestrados. Mas eles são mais decadentes que os cachorros. Os cães, para se tornarem bons obedientes, precisam receber uma boa recompensa. Esses policiais são vira-latas acuados que nem boa ração recebem. O cão, quando ameaçado, agredido, humilhado, se torna acovardado ou se rebela e morde o próprio dono. Esses homens e mulheres, com suas fardas e cassetetes, protegem e se submetem aos seus maiores inimigos pessoais. Salários ridículos, porcas condições de trabalho, e a vida (sua e dos seus) sempre ameaçada por um tiro que venha de qualquer lugar, e esses senhores agridem a quem está numa mesma situação que a sua. Eles não percebem, esses policiais, que, ao reprimirem violentamente a população quando essa se manifesta, estão mordendo o próprio rabo. Essa polícia é a matilha que recebe lavagem para comer, e ainda ataca os gatos que lambem as espinhas de peixe das lixeiras de seus amos. Eles não enxergam que protegem os próprios carrascos? É como que, com o pescoço na enforcadora, dentassem àqueles que se aproximam do condutor da carrocinha. Não, isso é deprimente. Isso é patético. Esses policiais causam, além de indignação, uma vergonha alheia a quem quer que esteja olhando de fora. Se não podem usar sua inteligência, usem seus instintos, suas intuições - os cachorros fazem... Esses policiais podem, sim, enxergar e sentir a coleira apertada que lhes é imposta. Ora, são cães guiáveis por cegos? Nem sempre aquele que lhes alimenta preocupa-se com sua saúde. Nesses casos, a carne de sua refeição não passa de fétida carniça. Esses policiais são cachorros, que precisam urgentemente transformarem-se em humanos, antes que seu destino sejam canis, ou passem a poder andar por aí somente sob o uso de focinheira. Em muitas ocasiões, esses policiais viraram sabão...

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Cidade Túmulo

Minha cidade é um túmulo
Onde as múmias jazem ainda vivas
E morrem elas dia a dia 
Nesse esquife empoeirado e sufocante
Convencidas e condicionadas
De que descansam confortáveis
Num sarcófago de ouro 

Ah, múmias cantantes
Ambulantes só por bálsamo
Ainda trovam aos quatro cantos
Que em privilégio de donatários
Aconchegam-se em pirâmides

Por sorte, não deparam com esfinge
Pois não decifram mesmo a si

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Amor do Ódio - Ódio do Amor

- O ódio já tomou conta de mim.
- Pois eu acho que não. Ao contrário, tu és puro amor. Total anseio por amor. O ódio ama o amor, e o amor odeia o ódio. Todo o teu ódio, é amor sufocado. É amor preso revoltado. Há coisa rebelde que não o amor? O ódio, filho seu, o rebento desprezado, excluído, diminuído. O ódio é medo. E quem é que sente medo, senão o fraco; o agredido, o acovardado? Se fosses tu tomado de amor, gerarias tu, então, o ódio. Não no teu ventre, mas no peito de outrem. Porque o amor é limitado, quase cego. O ódio toma conta de ti? E a lamentação que sentes pelos que nunca foram amados? É tu, odiento como dizes, quem se compadece com a dor daqueles a quem o amor abandona, ou esnoba. Então, não é teu ódio fruto de amor? Sem saberes, não é ódio que te ocupa, mas o amor é que te falta. O amor é egoísmo requintado. Na existência não há plenitude, pelo que vemos. O amor, tão bonito, cantado nos poemas mais vibrantes, encenado pelas peças que em si criam vida para poderem exaltá-lo, o amor gera insegurança, ciúme, inveja, paranoia, ódio. Porque o amor é isso mesmo: êxtase do prazer, regozijo, bonança, dança, embalo, paixão... O que querem os amantes que façam os não-amantes? Que observem tudo com alegria pela alegria alheia? Acho que o ódio não tomou conta de ti. Talvez tu sejas apenas o corpo físico da existência... Consegues entender o que digo?

terça-feira, 7 de maio de 2013

Fugere Fratris

Às vezes, tudo o que precisamos é nos afastar, sumir da vida daqueles que conhecem nossas fraquezas, daqueles a quem exibimos nossos medos; aqueles com quem temos tanta intimidade que não é mais nem possível enganá-los que somos poderosos, pois dessa maneira parecemos ainda mais patéticos, mostrando que somos apenas uma farsa. E esses são os que julgamos mais necessários em nossa vida... Depois, a gente reaparece, com um novo brilho no olho, sem ter receio de sentir vergonha por todo um fingimento da nossa parte e da parte desses, que nos magoam tentando nos privar da mágoa, numa tentativa de reerguer-nos da fossa, mas nos afogando ainda mais. "Fugere urbem", "fugere fratris", temos que sair e nos procurar. Quando essas pessoas, tão importantes, lamentam demais por nós, é porque sua esperança na gente está se esvaindo, aí preocupam-se com eles mesmos e temem por sua própria felicidade. Então antes de virarmos seus problemas, é melhor sair, dar uma bela volta, e retornar novamente como sua solução...

quinta-feira, 2 de maio de 2013

"Você"


Eu tenho implicância com "você"
"Você" me soa tão vulgar
É um tanto alienígena, "você"

Só de pensar em "você"...
Trisneto de "vossa mercê"
Esse, tão velho, e esquecido
Tão nem mais usado

Descendente de "vossemecê", o impopular
Então genitor de "vosmecê"
(Alcunhado e esculachado por "vassuncê") 
Eis "você"

A mim, "você" não serve
Eu pouco uso "você"
Com um pai que nem "vancê"
Só podia sair "você"

"Tu"?
Mais familiar
Popular do outro lado do Atlântico
E aqui, confuso

"Tuas" ações ditas corretamente
Parecem metidas à besta (ainda que tão bonitas)
E faladas tal qual "você"
Tão banais quanto "você"

Nesse pandemônio trivial
Que me tira o sono quando escrevo e falo
"Vocês" são apenas coadjuvantes 
Que brilham no espetáculo do que mais me intriga:
"Eu"...

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Amnésia


Noite passada
Andei por não sei onde
Comprei vinho sei lá de quem
Não sei se bebi tudo
Conversei com não faço ideia alguém
Assuntos que desconheço a lembrança

Amnésia
Esquecer é para fins de semana

Ontem escutei sabe-se lá que música
Sabe-se lá a quê volume
Comi algo que nem imagino
Nem imagino se comi, mesmo
Fiz perguntas
Que se me perguntarem
Nem sei quais foram
Não vou falar de respostas

A única pista da noite: uma tampa de garrafa
No bolso da calça
Mas a garrafa, nunca vi na vida
Nem o vinho
Ignoro se era vinho
Suco não era... acho

Esquecer é para fins de semana

quarta-feira, 20 de março de 2013

Só as Melhores

Pancrácio tinha dúvidas quanto a comer muitas mulheres na sua socialmente necessária carreira vital de homem sexualmente bem-sucedido pois, era astuto, ambicioso, atrevido, era exigente e só queria as melhores, e essas são só meia-dúzia. Não ocuparia qualquer vagina, nem lhe apeteceria, e ainda faria feio diante da moça porque, se não sentisse paixão adoidada, perderia o tesão, e viraria piada nas bocas gastas por palavras idiotas e falos quaisquer... Era meio arrogante, o sujeitinho, e só se dignava competir com no máximo também meia-dúzia de eruditos adversários, do contrário pulava fora da briga antes de ela começar, e rebaixava a ninfeta (o objeto de disputa) à mera biscate com cabeça de vagina. Pancrácio se negava a divisões e comunitarismos, sua caridade e benevolência se limitavam a não esculachar essa miséria de gente vazia; a ser educado com as ralés, bem vestidas ou não, educação essa sempre regada a cinismo e deboche contido. O cara considerava nobre deixar a lavagem para os porcos, mas não lhes dizia nada desse calão, e ainda era esperançoso de que algumas meramente "comíveis" pudessem ser esculpidas pelos dedos de um hábil artesão. Ele não gostava de filosofar - ou não queria, quanto ao assunto - então preferia não arriscar deixando nas mãos da vida, assim, tomava para si a bronca... O certo é que, de tão raras as mulheres de seu gosto - as mulheres de bom-gosto -, o homem apelava à sua imaginação fecunda, uma imaginação que trabalhava bem, ia a pontos distantes e voltava para ali no mesmo segundo, deixando-o por vezes aéreo e remoto, decerto nos braços de uma dessas mulheres melhores, ou mesmo de duas, essas damas altivas, que tal ele escolhem com critério, contudo mais minuciosamente ainda pelas opções serem escandalosamente mais escassas, mas evitava qualquer boca de vulva poetisa... Não, provavelmente Pancrácio não comeria muitas mulheres ao longo da vida...

quinta-feira, 14 de março de 2013

O Sol da Casa Nascente


Longe de mim, ser o habitante solitário de seus pensamentos
Sempre vai ter aquele hóspede inoportuno
Impertinente, me importunando
Fedendo, impregnando o ar...
Sempre vai ter aquele piolho chato
Talvez não na sua cabeça, mas na minha
Transitando em minha barba, sobrancelha
Comichando em baixo do meu nariz
Fedendo, fodendo minha paciência e auto-estima...
Seus convidados são sempre de tão mal gosto
Dedo podre, esse seu
Também, essa unha de puta pobre...
Esses pensamentos apertados, miúdos, calorentos
Nem espaço há por aí
Ter de ficar lado a lado com a bagaceira
E eu ainda pedindo pra entrar nesse pardieiro
Nesse muquifo empoeirado
Vou entrar de vassoura na mão
É isso!
Vou passear por meus pensamentos
Achar a vassoura e espanar essa baderna
Exterminar ácaro por ácaro...

segunda-feira, 4 de março de 2013

Capas e Fardas

Se pode condenar os atos... mas pode-se punir o Homem? O Homem é tábula-rasa, ainda que pareça ser também um ser "a priori". Porque mesmo que estando impulsionado inconscientemente a atitudes vistas conceitualmente como repugnantes, ele não escolheu ser repugnante, ou pelo menos não intenciona sê-lo. É possível ser inimigo do Homem? Penso que apenas de suas ideias. O Homem está na tentativa, no jogo do erro e do acerto; do erro e do erro; porém dificilmente do acerto e do acerto. O Homem está em aprendizado, em rota de colisão com as consequências. O Homem nunca sai ileso, ele sabe que existem preços a pagar. Castigar o Homem é inútil. Ele nem entende a pena. Eu não entendo sentenças. Como espíritos alheios, as teorias, ideologias e filosofias é que me ameaçam. Os Homens são receptáculos dessas entidades. Não é a eles propriamente que eu devo sufocar. Os Homens não são livros, coroas, capas e fardas. Nessa batalha cósmica, o oponente nunca é pessoal. Não é a ele, em si, que eu odeio. Então eu cuspo no padre, mas nunca no homem por de baixo da batina...

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Agora Ainda

Não consigo me aquietar com lembranças, fotografias de verões, canções que recordam momentos, conversas sobre o passado que não volta mais... Não consigo me conformar com nostalgia, com momentos isolados, férias, não consigo ficar com os sorrisos apenas na memória... Não consigo... Não consigo estar alegre com saudades, deixar no passado o que ficou de bom, ou esperar que se repita só no futuro... Quase não consigo conter as lágrimas por não mais vivenciar ou ter de esperar viver ainda, e nada de viver agora - e não viver agora o tempo todo. Não consigo ser feliz a trilhas sonoras de ocasiões, sempre dolorosas ainda que remontem a gargalhadas - ou até por isso mesmo. Gosto da sonoplastia da vida, do ruído do Presente, do eco do agora. Não consigo morrer com o que passou, só o que me agrada é viver... Aquele eu de antes ainda está aqui, o antes é que sempre me abandona...

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Bom mesmo deve ser ser louco


Bom mesmo deve ser ser louco
Ficar por aí, num quarto, numa sala 
Na mente
Poder transformar um corredor de hospício
Numa estação de trem
Tornar uma enfermeira em prostituta
Ou em vovó
Ver um médico virar garçom 
Um psiquiatra, um palhaço
Um psicólogo, um palhaço
A seringa se metamorfoseando em canudinho
Os coquetéis químicos, gostosas champanhas
As baratas, gatinhos
As ratazanas, cães de guarda
Lavagens intestinais a ser massagens internas
E os choques elétricos como montanhas russas
Assim como os quartos acolchoados
Parques de diversão
E então, vai-se ao pátio
E vê-se a Europa, ou a Índia
Interagir com os companheiros de insanidade
Mestres oradores, heróis, paladinos, Napoleões, vilões
Vilões admiráveis, vilões detestáveis
Vilões ameaçadoramente geniais... Neros
E quando da lobotomia, revoluções homéricas
"Comadres" e penicos sendo elmos reluzentes
Grécias repelidas, Helenas conquistadas
Deuses de um lado, homens de outro
Mulheres em baixo, mulheres em cima, de lado
Almofadas viram mulheres
Colchões desposados como noivas
E a morfina que rende o corpo
Lá num canto inatingível da mente
Liberta o espírito
Tudo é loucura, mas tudo é sentido
É vivido
É... Bom mesmo deve ser ser louco

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Poema não Escrito


Há dias não escrevo um poema
Que se há de fazer, então?
Simplesmente escrever?
A caneta na mão, o Aurélio na mesa
Palavras complicadas (só para aparecer)
Jargões diversos...

Sentido? Dispensáveis
Alguma coisa tem que ter concordância
Mas dane-se o que a coisa quer dizer
Qualquer filosofia é profunda
E qualquer profundidade é maluquice

E se eu mandasse um 
"Morena branca, do peito ardente
Que a mão em garra, arranha a nuca
Morde o lábio, as coxas quentes
Doidivanas, puta, gata maluca"

Não, não estou inspirado
Deve ser porque ando meio feliz
Não tão funesto como de costume
Também não tão radiante 
Só relaxado, vadio

Alguma coisa tem que estar doendo em mim
Se eu quiser produzir algo que preste
Ou só o que faltava 
Ficar à mercê de alguma iluminação etérea
Alguma musa...

Não, é sem escrever essa noite
Vou fumar e deitar e talvez leia um pouco
Seriam os mais belos poemas
Aqueles que ficaram calados?
Uns não saíram ao além-boca
Porque eram simplesmente indizíveis...

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Sem Raízes


Eu não tenho raízes
Não sou planta
Não sou dente
Não sou quadrado

Tenho origens
Ou uma origem

De alguma forma
Fui originado
Mas acho mesmo
É que me originei

O que tem raízes
Fica estaqueado
Fincado
Obediente às intempéries
Sem escolha

Se dali tirado
Morre 

Nunca sou tirado
Eu saio
Ou entro

O que tem raízes
É vegetal
O vegetal vegeta
Só muda de terra
Se a mão 
Ou o bico de alguém 
O fizer

Eu não tenho raízes
Não acomodo
Tenho origem
Início, meio...

Porta Fechada


Deixo a porta aberta
pra que não pensem que estou-me masturbando?
Fecho a porta na certa
e que pensem que estou ejaculando...

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Se Enxerga


O cara é imprestável, vagabundo, 
bêbado, chato,
ranzinza, mal humorado,
medroso, vadio, 
parasita, grosseiro... 

Mas tem uma coisa no cara, 
que é muito importante e rara
(quem dera a tivessem mais uns)

O cara se enxerga...

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Terremotos e Incêndios


Quando houve o terremoto no Haiti, em 2010, um bispo, ou cardeal (um desses velhos de dentaduras de ouro), afirmou que a catástrofe ocorreu por conta de uma represália divina às feitiçarias cometidas por aquele povo, quando da colonização francesa na ilha. 2010! Estamos falando do ano de 2010! Não é uma referência aos séculos XIX, XVIII, XVII, e cada vez mais pra trás. É no fim da primeira década do século XXI. Então estamos nos referindo a um decrépito caduco bem cara-de-pau, que determinou o desapontamento de "Deus" e como foi a "Sua" maneira de expressar "Sua" decepção.

Me perguntei o que teriam feito aquelas pessoas mortas no incêndio de Santa Maria. Talvez pactos escabrosos com o demônio; sodomias e "gomorrias"; sexo com animais; baseados enrolados com folhas da Bíblia; falta de pagamento do IPTU... 

Um carinha deu a resposta em rede social - um desses crentes, títeres de pastores: interpelou que quantos desses tiveram convites para ir à igreja na mesma data da tragédia, mas preferiram "se divertir". Sim, assim mesmo, entre aspas... "se divertir". E como quem já tivesse avisado, deu de ombros e anteviu a chegada de muitas dessas almas ao inferno, onde realmente iriam queimar.

Cara, esse "Deus" me dá medo. Mas eu me borro de medo! Embora eu espere pela "Sua" inexistência, isso não significa que o "Magrão" não esteja lá, esfregando as mãos, levemente curvado em seu trono, esperando para me aplicar uma e me olhar chorando como um nenê na lava satânica. Ora, eu não vou à igreja. Não vou mesmo. Muito menos sustento cretinos em altares e púlpitos, comprando indulgências. Sim, porque esse "Deus" vende indulgências. Durante a Renascença, homens - veja bem, homens - questionaram, se rebelaram, foram excomungados, queimados, aconteceu o diabo a quatro com essa gente, por se mostrarem contrários ao comércio de religião. Só que no final das contas, esses heróis de batina se tornaram astutos homens de negócios. E suas religiões rebeldes viraram máquinas de fazer dinheiro, arrecadadoras de dízimos fartos e perdões a juros altos. Pois onde há igreja, há mercado. E "Deus" continua nessas igrejas e, de acordo com seus emissários, condenando quem não frequenta "Sua" casa.

Em Porto Príncipe, os haitianos eram feiticeiros malignos, evocadores de espíritos sombrios, crias de Satã, amantes dos diabos... pelo menos segundo aquele cardeal. Por esse motivo, foram castigados com um terremoto enviado por esse "Deus" ciumento. Mas não paro de me perguntar: que sacrilégio teriam cometido esses duzentos e tantos jovens, mortos em Santa Maria? Alguns espíritos bondosos que habitam esse planetoide rezam pra que esse mesmo "Deus" conforte as famílias pesarosas. Mas que eles não comentem isso com nenhum representante "Dele"... Algum pode se sentir ofendido em "Seu" nome...

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Perdoa-me

Eu te chamei de gentalha
Estava de cabeça quente
Não é o que penso

Pois é certo que
Sou consciente
Da tua condição de...

...Gentinha

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Luta de Gaudérios


A argumentação mais imbecil que li sobre não proibir os rodeios gaúchos foi que eles não são feitos por diversão, mas por tradição. Qual é o sentido disso? Que coisa tão sem pé nem cabeça. Tradição é algo obrigatório? Pelo contrário, tradições e costumes são marcas de um determinado tempo - longo, é possível, mas findável. As tradições terminam, perdem o sentido com o mudar das coisas, passam a existir apenas na lembrança.

Não sei se os rodeios daqui são tão violentos quanto dizem ser os rodeios paulistas, mas que não são nada delicadinhos, não são. Até porque é bem comum a gauderiada vangloriar-se de ser bronca com tudo. Só a doma equina no Rio Grande já é bem feia de se ver. O domador se utiliza do método do "quebra-queixo" ("morde a 'oreia'"). Já vi, através da televisão, os ingleses, por exemplo, adestrando um cavalo. E é uma atividade que beira uma espécie de arte, de tão leve e sutil, em comparação a um gaúcho montado e puxando as rédeas do bicho de forma tão bruta ao ponto de várias vezes machucar a boca do animal. E na Inglaterra, os cavalos não são mais chucros que os daqui.

Os defensores do mantenimento dessa tradição usam como exemplo de brutalidade um esporte que vem se tornando cada vez mais popular no mundo todo, inclusive aqui por essas bandas: o MMA, ou Luta Livre. Na verdade, eu não sei muito sobre essa competição, pois não me apetece, dada a peculiaridade de sua violência. Porém, não se pode sequer comparar as duas coisas. No MMA, são dois homens - ou duas mulheres (parece já ter a versão feminina do combate) - que, minimamente controladores de si, enfrentam-se por vontade própria, estão ali porque querem, entendem o que está acontecendo, sem contar que são muito bem recompensados para subirem num ringue e espancarem-se mutuamente. Mas ninguém pergunta ao pangaré magro e ainda selvagem - por assim dizer - se quer ele ter uma trança de couro presa fortemente às virilhas, com um homem no lombo lhe fincando esporas, batendo-lhe com um mango - ou chibata - em todas as partes alcançáveis de seu corpo - inclusive a cara - no centro de uma espécie de arena (o tal "rodeio"), ocupada, muitas vezes, por milhares de pessoas gritando, e um locutor igualmente berrando ao microfone como uma matraca incansável. Não adianta perguntar. Será que não sabemos disso? Será que não é possível imaginar a aflição das criaturas? De certo pensar assim é "frescura" ou "boiolagem".

Eu proponho o seguinte: "Luta de Gaudérios". Entram dois guapos no ringue (que não é ringue, é o lugar mencionado acima), pilchados como manda o CTG, faca na guaiaca (só como enfeite, lógico), bombacha, lenço, chapéu de aba larga e barbicacho, chiripá, bota, espora, (bunda de fora... brincadeira), e se estapeiam até que um caia podre e o outro vibre com a glória de vencer um bicho que é quase invencível, um gaúcho! Pode-se até utilizar da história do Rio Grande: um Chimango contra um Maragato! É possível também a versão feminina, prenda contra prenda - não há discriminações... Pensei em várias outras coisas além, do tipo "Tiro de Laço em Xiru", "Tiro de Laço em Xiru Parado", " Corrida de Queras", "Gineteada em Macanudo", "Montaria em Chinoca" etc.

Diferente dos rodeios paulistas e estadunidenses, e das hediondas touradas ibéricas, não é comum ver um gaúcho enfrentando um touro imenso e feroz como o que acontece nos locais recém ditos. O máximo que sucede é uma vaca magra solta à correria, perseguida por pessoas montadas em cavalos de tamanho e força evidentes - a consagrada Raça Crioula - e que muitas vezes é prensada entre dois equinos montados, dessa mesma raça...

Passei boa parte da vida frequentando esses eventos tradicionalistas, principalmente na infância. Fui até dançador de Maçanico do Banhado. Adoro andar a cavalo - apesar de sempre ter sido um medrosão -, adorava percorrer o campo, em montaria, para buscar o gado em época de vacinação, amava ser um gaúcho... e ainda amo, mesmo que seja completamente avesso a patriotismos, nacionalismos e até mesmo regionalismos. Mas do Rio Grande do Sul se pode absorver esse espírito perseverante, impassivo, inconformado, inquieto, e até bravo, mas ao mesmo tempo romântico e doce, culto, erudito, fausto. A beleza e o orgulho do gaúcho estão na sua negação em servir, em jamais se deixar ser lacaio, em gritar na hora necessária, em pelear, como a gente diz. A grandeza do gaúcho está na honestidade como identificação comum, ainda que nós nos entendamos como humanos naturalmente comuns, não obstante as brincadeiras salgadas que fazemos. Entretanto, muitas vezes é a grossura e a truculência que é enaltecida, e esses que cantam a honra do gaúcho rudimentar e violento, de "faca na bota", são menos gaúchos que os mesmos Cavalos Crioulos em que cavalgam...