domingo, 16 de dezembro de 2012

Cachorro Abandonado

Foi a indagação de uma amiga sobre eu ter de fazer uma escolha racional e, de certa forma, fria, na ocasião de eu estar, em vontade, querendo empregar a emoção, que me evocou da memória um episódio em que estava andando às margens do lago São Bernardo, em São Chico, absorto no vórtice em que se encontrava minha cabeça esculhambada, e me surpreendi com um cão de porte pequeno passando por mim - muito bonito, por sinal - um tanto apressado.

Era só um cachorro, um cachorro que me cruzava, que me olhava vez que outra, e que de repente, tive a leve impressão de que tentava se evidenciar de uma forma ou de outra, como que se exibindo para mim. No mesmo instante, já fiquei intrigado com a hipótese de o bicho estar se doando a mim por não ter mais a ninguém.

"Isso é uma coisa que me incomoda!", comentei com ela. Pois não é que o animal corria de um lado a outro, com um sorriso encabulado na cara (sim, ele sorria visivelmente), depois voltava e me acompanhava, parceiro, disposto a abraçar minha jornada, avante, impetuoso. Tamanha era sua perseverança que, notando minha displicência discreta, saiu em arrancada como um pé-de-vento, e se atirou lago a dentro, nadando um pouco na água gelada, e voltando ao seco, drenando-se num chacoalho antes de vir em minha direção orgulhoso como quem diz "pronto, está provado, não há mais dúvidas quanto a minha lealdade...".

"Por quê? Por quê?!", comentava eu comigo. Não, eu não queria que aquilo acontecesse! Eu correria junto daquele desmoralizado parente dos lobos. Me sentaria ali, passando-lhe a mão sobre os pelos, afagaria o ente tão puro e gentil que naquela hora se apresentava como que voluntário para a aventura da vida. Mas não era possível. Ele não poderia me seguir. Só quem pode, ou precisa me seguir, sou eu. E um drama bem doloroso se instalou em minha caminhada. Queria lhe retribuir a doçura com que me considerava... Como foi triste... Como foi triste, todavia, o desfecho de tudo. Como me chateou a previsão do que iria se concluir. Tudo terminaria com minha reação insegura, confusa, e com cara de ingrata, que no fim acabou por se concretizar. O expulsei da minha presença, fiz barulhos vocais e falei em tom de desprezo, para que a vibração da minha voz ficasse bem clara aos seus apurados ouvidos, e o cão se desse por convencido de que eu era uma péssima escolha como parceiro. De princípio, o infeliz acabava voltando, porém fui sendo cada vez mais rude em minhas investidas, até que o desafortunado cachorro sumiu.

Juro, sem fazer dramalhão, que chorei por dentro. Juro, também, que minhas pernas estavam fracas quando das minhas covardias daquele dia. Pode ser que tivesse dono, uma família alegre à sua espera, crianças saudosas de suas bagunças. Besteira... Só conversa fiada para abrandar minha consciência condenada como bandida. Me importava minha atitude repugnante. Pensava na nobreza dele ao notar em mim confiança e procurar minha companhia, tendo a outros tão aparentemente mais brilhantes que eu para acompanhar. E eu fui cruel. Mas eu não tinha escolha. Aquele não era o tempo certo. Sei que muitos me aconselhariam universos de possibilidades a fazer. Entretanto, não havia o que fazer. Não havia o que eu fazer, pelo menos. Às vezes também somos cachorros abandonados. Às vezes carecemos, não de um dono, mas de afagos. Nem todos somos guardiões. Nem sempre temos a força de vontade, o instinto de proteção nas nossas almas. Eu não tive...

Tomei meu rumo, mas a garganta doía com o caroço da auto-repulsa. Que peso, quando segui adiante. "Quantas vezes ainda terei de presenciar isso?", perguntei à minha amiga. Mas o que mais temo, é que o costume se derrame em mim, e a frieza se instale como natural... Porém ali, éramos dois seres no mesmo nível, aos olhos da vida, eu e aquele cão. A diferença é que eu sabia disso, ele...

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