quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Príapo Deus


Quando da volta vitorioso em batalhas
Vem Dionísio, das Índias, arfante
Deita-se nu, sob helenas malhas
Em lençóis olímpicos de deusa amante

Do coito quente radiado em divino
Entre seios e fluidos da filha de Zeus
Aos olhos de Cronos, nasce menino
Viril e fértil um esdrúxulo deus

Príapo cresce, e consigo, a tara
De touro bufante, sempre rijo membro
Másculo músculo, pétrea vara
Nem lhe amiúda, o frio de Dezembro

Anda Príapo a exibir o sexo
Batendo, esfregando, encostando o falo
Em ninfas, mulheres, pretende-se anexo
Com gancho carnoso, então duro calo

Por entre as pernas, a lança em riste
Príapo deus, nem se encabula
Mesmo diante sua mãe, Afrodite
O deus safado, por ela ejacula

Às frias águas do Helesponto
Manda-lhe a mãe, a libido acalmar
Tesão de macho, explodindo em confronto
A pila de Príapo quase a estourar

Libertino deus, de glande latente
Nem o Helesponto abranda o fervor
E o povo dali, antes contente
Repudia o almíscar de macho, odor

Todos os homens querem-lhe embora
Mesmo às mulheres, Príapo assusta
Ofende o pudor, acariciando a tora
Envernizada, roliça, haste robusta

Filho mimado, da mãe tem o colo
A qual, irada, apela à pestilência
Leva-se o deus, no Estreito, a tiracolo
Suportando seu cheiro e sua indecência

Príapo deus, aos Homens, discrepa
Príapo deus, nem bom nem mau
Em tantas raparigas, goza e trepa
Em tantos rapazes, lhes mete o pau

Ao Dia do Músico


No Dia do Músico, me lembrei da entrevista dada ao Jornal do Almoço pelo cantor e compositor Alceu Valença, que se apresentou dia 21/11/12 em Porto Alegre, e refleti se no Brasil de hoje, haveria espaço para a consagração de excelentes musicistas tais como o cabeludo nordestino que arrepia os pelos do braço de qualquer bom apreciador de belas obras, com suas canções épicas, sofisticadamente confusas, e poesias místicas e apocalípticas... Tenho minhas dúvidas. O Brasil (o país da brasileirada) é atualmente território da mídia, da indústria, do pragmatismo, do negócio, do dinheiro, do capitalismo desenfreado... da manipulação cultural. O Brasil não é país de grande aceitação de artes mais profundas que "tchu tchá tchás", haja vista os astros admirados hoje, tipos como Michel Teló, Luan Santana, Gusttavo Lima (isso mesmo, com dois "Ts"), Chimbinha e Joelma, e toda uma gama de ídolos para "Neymares". Em tempos como esses, Alceu Valença passaria fome, se dependesse de seu talento. Quanta ironia, quando o que o senso comum pensa é na equivalência entre fama e qualidade artística. Se Alceu Valença começasse sua jornada pelos palcos nacionais hoje, teria de dividir suas habilidades musicais entre algum bico aqui e acolá, uma esmola em qualquer esquina, ou, com "jeitinho brasileiro", alguma maracutaia (a nossa cara) para que pudesse comer todos os dias e, quiçá, fumar um maço de cigarros (luxo atrevido). É, o Brasil tá dominado, tá tudo dominado. Eu, metido a músico que sou, vivo matando cachorro a grito. A coisa tá russa. A coisa é na raça, no amor. O músico de hoje está sujeito a ser "zé ninguém" pelo resto da vida, ou por boa parte dela. No entanto, é encantador ainda encontrar resistência ao dinheiro é à fama evidentemente passageira que seduz e estupra talentos em nome da movimentação financeira dos tubarões do país. Meus companheiros de Tocata y Fuga e eu, e tantos outros que passamos a conhecer nas pequenas andanças da nossa estrada artística, talvez sejamos "Alceus Valenças" numa época escura e cheia de concorrentes inferiores ao medíocre, mas somos persistentes enquanto sonhadores - remanescentes dos amantes da música, fãs de Alceu Valença...

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Dias da Consciência

Racismo não deve ser esquecido, discriminação racial é um problema arcaico incrivelmente permanente nos dias de hoje, mas foi-se o tempo de se achar os negros coitados... Negros, orientais, ciganos, indígenas, homossexuais, brancos, todos são capazes, inteligentes, fortes, fracos, felizes, tristes, sofrem, riem - todos são humanos. Mês, semana, dia, hora da consciência negra: balela antiquada; demagogia de heroísmo em apartamento. Todos os dias deveriam ser "Dias da Consciência", simples mas admirável; simples, mas humano. Porque são os humanos quem têm consciência, e os humanos têm de entenderem-se como os tais. Os negros não são doentes, necessitados de campanhas e doações. Doentes são as pessoas (brancas e/ou negras) que são apegadas à ilusão cretina de que humanos são incapazes, exatamente por serem humanos. A doença são os conceitos, pois também há moléstia da parte daquele que agride o discriminador; o agressor também é doente. É que o que precisa ser eliminado não é o racista, mas o racismo...