domingo, 14 de outubro de 2012

Engasgo

Quando entra aquele farelinho de erva mate na boca do pulmão, a respiração causando o desconforto, até o olho dói, e nem força se tem para pigarrear. É um momento de sofrimento quase sem igual. Ninguém pode ajudar o cara. Quase o cara não pode se ajudar. Dependendo, não existe raciocínio nessa hora. São os impulsos nervosos que estão encarregados de fazer o serviço. À vítima só resta sentir a lágrima escorrendo até o maxilar. Mas não se pode desistir fácil. Com bastante concentração, é possível, sim, obter um mínimo de controle sobre a tragédia. Afinal, é só um farelo de planta moída, aspirado ao sorver o chimarrão; não é um naco de carne que entala, do tipo que um outro precisa encaixar-se violentamente por trás do indivíduo pressionando-lhe o abdome para desentalá-lo, como as crianças fazem - para ver disparando veloz como um tiro de canhão - com uma garrafa de plástico lacrada por uma rolha. O cérebro é um monstro dominável, se houver determinação. Com muito sofrimento, puxa-se violentamente o ar, a escória vegetal possivelmente invade o pulmão, mas sai logo depois, numa tosse barulhenta e forte, que vem acompanhada de assovio, voz gutural e, no pior dos casos, uma golfada a qual pode desencadear o desperdício da última refeição. Depois, tudo é bonança. Seca-se as lágrimas, engole-se o choro, e a respiração vai voltando devagar a ser aquela ação prazerosa... Com força de vontade, é possível adquirir o controle daquilo que mais pode vir a ser prejudicial na vida de cada um: os próprios impulsos...

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