terça-feira, 9 de outubro de 2012

A Gangue

Ai que das vezes em que fui fuzilado, amaldiçoado, perseguido e represado, decidi ler Qorpo-Santo para não estar sozinho; para me sentir em casa, protegido. Dissabores e podridão quanto me levaram a Quintana, Bukowski, Nietzsche, e toda uma leva de gentes condenadas a párias sem perdão. O difícil estar por aí dos leprosos sociais mendigando o que não se recebe sem bengaladas nas têmporas. Quando por isso me junto às cobras velhas citadas e mais umas outras. A convite de Voltaire e do Marquês de Sade, a comungar dos manjares intelectuais e artísticos antes das cicutas que outrora trouxeram alívio aos porcos muito pertinentes. Me abraço à militância com esses velhos mestres, como que numa horda unida para também agredir, sem ter outra escolha - no caso de ser atacado. Eu que me vejo a ser punido por ser aberração do tempo, então mordo acompanhado por matilha. Por entre os gênios da História, que passaram a pão e água nas mãos dos bonitinhos feitores uniformizados, andaram Morus a anarquizar; Maquiavel a maquinar; e Gregório de Matos - o Boca do Inferno - a resmungar. E ando sem companhia nas vielas do relógio, que não a presença desses mortos que nunca morrem, frustrado, sim, infeliz, também - e obviamente - , enxergando só crendices em contraponto à lógica, sentindo o cheiro da burrice que limita todos ao comum... Ainda rindo das abobrinhas acerca de mim mesmo, como que sem conhecerem-se a si, sabem da minha pessoa e não sabem nem quem são as próprias mães. E me dizem, como disseram a Kant, que não gostam de mim pelo que sou, e respondo que sei mas não me alardo, enquanto todos dão importância ao que digo, embora me odeiem. Então me perco em elucubrações, solitário na escrivaninha, acompanhado pela nata da humanidade, homens todos do século passado para trás, homens todos imunes ao tempo, sábios sentadinhos nas prateleiras, sussurrando aos meus tímpanos palavras incontáveis mas preciosas, dividindo comigo o que não dividem com o resto, unindo-se a mim, numa gangue imbatível e destemida, incentivando-me a me agarrar na solidão tão mais querida e agradável que as más companhias as quais não me tragam nem com cachimbo nem com filtro.

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