sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O Vilão e a Catástrofe

Passando pelos canais de TV, houve um que o Vilão estacou e se ateve. O Vilão chegara a um ponto que era impossível não ficar alerta a seu respeito. No seu anseio por dinâmica na vida, passara a devanear com situações calamitosas que atingissem a sociedade. E não somente a grande massa social na qual vivia. Que acontecessem nos pequenos grupos, dentro dessa sociedade. Concebendo pensamentos um tanto maquiavélicos, nem sua família era poupada: lhe ocorria de vez em quando a morte de um parente em seu pensamento... só para ver a movimentação de seu pessoal. Não que realmente desejasse essas coisas, mas sentia o regozijo de imaginá-las.

Então não é de se surpreender que a emissora de televisão que lhe chamou atenção transmitia ao vivo uma notícia aterradora: no centro da maior cidade do país, um vazamento de gás ameaçava causar uma grande explosão subterrânea, e consequentemente ocorrer uma considerável tragédia.

As ruas afetadas começaram a ser evacuadas imediatamente, e quando disso, o Vilão deu um sorriso de canto de boca. Pois ele achou interessante a possibilidade de um estouro realmente estremecer o concreto. Não haveria pessoas ali; ninguém iria se ferir; todos estariam a salvo. Era só para ver as estruturas chacoalhando.

À medida que o temor ia crescendo na voz do apresentador do programa, também ascendia a impaciência do Vilão. Nada acontecia! "Que demora!". Decidiu então fazer um rodízio por todos os pobres canais de sua televisão aberta, na esperança de voltar àquele e deleitar-se com o caos entre os "Homens de Deus".

Até que não foi tão ruim pois, numa das emissoras, era noticiada a internação do vice-presidente do país, num hospital, em estado regular. Pela cabeça do Vilão não podia passar outro pensamento que: "Tomara que morra!". Parece que era suficiente para saciar a malevolência do Vilão, não é? Não, isso era cotidiano. Isso o Vilão almejava o tempo inteiro. Sem sentir remorso algum, já era com naturalidade que o Vilão torcia pela desgraça dos políticos. 

O Vilão voltou ao canal de origem, com pressa, receoso de ter perdido o espetáculo. Entretanto, nada de magnífico tinha se passado. A única novidade era que, segundo o âncora, os agentes encarregados de resolver o problema empenhavam-se em convencer os transeuntes curiosos de se afastar o máximo que desse da área de perigo - o que não ocorria.

Pois bem, era o momento em que o Vilão bradava em seu íntimo que aquela gente futriqueira fosse pelos ares com todo o resto. Ora, sua sede, semelhante à do Vilão em ver o circo pegar fogo, cegava seu raciocínio, o que poderia ser a única coisa a lhe preservar a vida num momento como esse. O Vilão estava em casa, esparramado na poltrona, a milhares de quilômetros de distância do perigo. Ele teria motivos para rir. Aquela turba, não. Iriam virar pó antes que pudessem contemplar qualquer show de fogos.

Mas o povo não explodiu, nem nada mais além da decepção do Vilão ao vir o tempo a passar, o marasmo dominar a reportagem, e depois de um momento, surgir a informação de que tudo estava sob controle por parte dos responsáveis pela segurança.

Restou ao Vilão ficar sereno, pensar na vida (ou na morte) e no tédio característico do cotidiano, pulando de canal em canal, com o controle remoto quase caindo da mão de tanto desleixo, e refletir sobre sua existenciazinha que rumava cada vez mais, e inevitavelmente, pelo caminho medíocre da passividade chata comum entre as pessoas ao seu redor. Contudo, de repente (sentidos em alerta!), o coração palpitou de esperança ao ouvir a voz de um outro apresentador noticiando o estado grave de saúde, não de um político, mas de uma velha assombração da TV, com oitenta e tantos anos, agora com o pé na cova... e o sorriso de canto de boca novamente na cara do Vilão expressando de forma evidente seu êxtase interior foi automático: "Agora vai!".

Nenhum comentário:

Postar um comentário