terça-feira, 18 de setembro de 2012

O Suicida e as Reações

As crises esporádicas de rebeldia do Suicida se davam porque o mesmo sentia-se jogado às traças. Em seu pensamento, era como se tivesse a ninguém, abandonado por aqueles que um dia haviam sido seus próximos; largado pelos que outrora foram seus amores. Descartado dessa forma, o Suicida estava um farrapo, ambulando em andrajos, nem mais banho tomava com frequência, a cabeleira sempre desgrenhada, e uns dentes que precisavam ser extraídos continuavam ali e entortavam dia após dia sua arcada dentária -  mas ele não ia a um odontólogo.

Em suas reflexões, sem dizer a ninguém, o Suicida sabia que era um inútil ante a maioria das coisas da vida. Ele era um cara daqueles que não sabia "se virar". O Suicida precisava ser cuidado, e chegou a ser, num passado saudoso, mas por reviravoltas da existência, as pessoas se cansaram dele que, apesar da magreza, virara um fardo pesado por seus hábitos esquisitos.

Todos queriam que o Suicida agisse em determinadas situações, o que complicava a coisa, pois o infeliz não sabia nem tentar. Seu espírito ficava inerte de fronte às ocasiões, numa impotência inevitável, e a reação mais natural era a vontade de se esconder sob as cobertas, apagar a luz, e padecer sozinho ali, numa ilusão de estar protegido. Entretanto, ele não expressava para quem quer que fosse sua consciência de não prestar para nada, porque percebia que era exatamente o pensamento dos outros sobre ele mesmo. E numa reação de auto-defesa, não dava o braço a torcer. Ao contrário, praguejava, gesticulava, agredia a todos com blefes venenosos, convencido de que não se arrependeria após o fim da turbulência. Mas depois do estouro, um remorso tomava conta dele, pois, ainda que fosse um inválido, tinha noção da violência de suas palavras.

A solidão do Suicida o consumia ao passar cada minuto. Tinha vontade de chorar, numa sensação esperançosa de aliviar a cabeça, que se mostrava prestes a explodir, saturada de tristezas. Contudo, não saía uma lágrima - a não ser que estivesse bêbado. Não bastasse o desamparo pela incompreensão, via-se sem rumo e expectativa. Parecia incapaz de se adaptar ao meio, não conseguia participar do jogo da tribo, era como se fosse um aborto do Universo, um legítimo peixe fora d'água. E apesar do desprezo que tinha de si como integrante do mundo, era vaidoso quanto ao papel que desempenhava no meio, o qual ninguém entendia. Então, numa última tentativa - se nada mais desse certo - de deixar seu tempero na vida sua e dos demais, seria o professor de todos dando uma lição dura com uma última ação de sua caneta e o seu derradeiro suicídio...

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