terça-feira, 18 de setembro de 2012

Lugar de Criança é Longe da Escola


Tenho saudades de ser professor. Gostaria muito de voltar a sê-lo. Me fazia bem estar com a gurizada, com a esperança do futuro. Mas acho que dificilmente me animarei a lecionar novamente. Sendo professor, tinha de encarar um dragão por dia - ou vários. Sem citar o famoso salário ofensivo, tinha de enfrentar o monstro do Sistema Educacional, com suas defeituosas burocracias, suas metodologias deformadas como aberrações docentes; tinha que me deparar com o que eu jamais imaginaria protestar contra quando da minha decisão em fazer parte da classe pedagoga: a Escola. Pois o que tenho para falar a respeito da minha experiência como professor é que a Escola não é um lugar de esclarecimento. 

Nos noticiários é comum vermos alunos depredando suas escolas, vandalizando-as, ateando fogo nas mesmas, agredindo professores... Isso não mais me surpreende. Entristece, mas é previsível. Eles odeiam estar na Escola. Eu também odiava, porque antes de ser professor, eu fui aluno, e detestava a ideia de ter que passar quatro ou cinco horas por dia trancado numa câmara de concreto ou madeira, sentado numa cadeira dura, em fila, podendo me levantar vez que outra para ir ao banheiro, sem poder ver a luz do sol, e tendo que ouvir uma conversa que não me dizia respeito saída da boca de uma pessoa que não fazia ideia do que se passava no meu mundo. Eu ia, porque era obrigado; porque meus pais mandavam; e meus pais mandavam, porque a Lei mandava. E quando eu fui professor, percebia que não era diferente com meus alunos.

Eu tentei agir de forma diferente na sala de aula. Minha ideia era dar liberdade à gurizada, porém liberdade é uma coisa proibida na Escola. Eu me indignava ao observar o corpo docente castrando, sufocando, abafando logo a natureza curiosa dos jovens. Faz parte da essência da humanidade a busca pelo conhecimento. Era exatamente isso que eu notava em meus alunos. Era evidente o gosto deles por saber das coisas que os rodeavam; por conhecer e entender os motivos dos acontecimentos em suas vidas. No entanto, como eu era professor de História, tinha de lhes informar sobre a Mesopotâmia. Tinha de lhes fazer aprender sobre Assurbanipal, sobre a teoria das Formas, de Platão; tinha de contar e fazer entender sobre coisas as quais ainda não lhes eram de mínima importância. Eles mal sabiam sobre a própria cidade em que moravam. Não sabiam sobre seu prefeito, o Governador do Estado, o Presidente da República. Eles não sabiam sobre o seu bairro, sobre o seu idioma. Eles não conheciam sua própria história...

Tive muitos problemas quanto aos alunos. Haviam dias que só podiam ser classificados como infernais. Então eu mesmo passava por ter atitudes desprezíveis para com eles. Quantas vezes explodi, gritei, ofendi, ameacei, humilhei por me sentir numa sinuca de bico? Pois não me sentia no direito de mandar neles. Achava que por maior que fosse minha capacitação, ainda assim nunca se pode saber o suficiente para obrigar quem quer que seja a fazer o que não gosta. Daí, entrava na sala de professores e os via lá, com aquelas caras de bunda, fofoqueando sobre os alunos, falando mal de seu caráter, sentindo-se injustiçados quando das vezes em que aprontavam para eles. Os alunos têm os professores como seus verdugos, como os inimigos a serem batidos. Por mais que se seja uma cara sorridente e bem humorado, os discentes têm sempre o pé atrás. Estão o tempo todo desconfiados, uma vez que têm medo dos professores. E, de certo, deveriam ter. Lembro-me muito bem da fala de uma pedagoga coordenadora dizendo a mim que eu não deveria ser amigo dos alunos. Que era claro a sua ideia da superioridade do professor na hierarquia escolar. E sem ousadia para dizer, só me permiti pensar que talvez fosse esse o motivo de a sociedade ter tantos delinquentes; rebeldes que não sabem rebelar, apenas ferir. Mas vez que outra, me atrevia a falar que "a culpa não é deles, é de nossa incompetência". Todavia, eles preferiam tapar os ouvidos. Se iludiam que era mais fácil. Talvez fosse mais fácil só reclamar.

A Escola não serve para ensinar a pensar. Não serve para fazer o indivíduo buscar em si as respostas, conhecer a si. Reclamando do conteúdo a um diretor, o mesmo me disse que eu não estava ali para fazê-los entender os rumos que a História tomou, mas para fazê-los obedecer. E é isso para o que a Escola serve: para que, pelo menos, a maioria saia dali bem adestrado, domado, obediente. Para que os indivíduos saiam dali sem questionar. Por isso, os professores enfileram e aprisionam seus rebanhos no brete escolar. Os amedrontam com suas desrespeitosas aulas de religião. Mas existem uns que não se acomodam. E saem trocando as mãos pelos pés. Esses, os mesmos que não saem da boca dos hipócritas na sala de professores; os perigos da sociedade; os reflexos da Escola. Então ser professor só me ajudou a concluir que lugar de criança é longe da escola...

Nenhum comentário:

Postar um comentário