domingo, 23 de setembro de 2012

A Velha


Falei com a Velha, e a Velha escutou
A Velha deve ser mesmo sábia
Falei sobre um monte de coisas
E ela ali, com um olhar de sei-lá
Ouvindo o que eu tinha para dizer
Numa paciência de santo, de Buda
Numa paciência com cara de respeito
A Velha nada dizia, só observava
Mas era um olhar... de aconchego
Que me imbuía desabafos
Um pouco de piadas, também
Um tanto de vergonhas, de coragens
Bastantes tristezas e alguma outra coisa
Tal qualquer angústia vaidosa
Que só à Velha eu diria
A Velha que me deu confiança a falar
E eu já tinha visto a Velha
Mas nunca lhe dera atenção
E agora era a Velha que me escutava
Sem dizer qualquer palavra
O inverso de mim
Despejando-lhe vocábulos em muitas frases
Sobre amor e egoísmo
Sobre projeções e esperanças... planos
Frustrações escritas em poemas
Gargalhadas transcritas em canções
A Velha... me ouvindo gabar de belas rimas
Me ouvindo lamentar poemas inacabados
Poemas até a metade, até duas, três linhas
Poemas faltando duas palavras
Poemas sem rima e sem talento
A cabeça vazia em momentos inteiros
Cheia em períodos parciais
Cheia de fumaças e licores
Amores, risos, dores, gozos... gozadas
Que bom que a Velha surgiu
Por sorte a Velha será sempre nova
Acho que é o desejo da Velha
Parece que é o que seu olhar dizia
A Velha, agora melhor amiga
Mesmo que seja só na lembrança
Na minha memória falha
Sobre a qual também disse à Velha
Cuja imagem ainda está aqui
Velha Dona Própria Inconsciência...

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