terça-feira, 25 de setembro de 2012

O Inesquecível Santo Ofício

É sempre importante lembrar do detalhe sinistro que fez parte da história da Igreja Católica: a Inquisição. Pois ela só deixou de existir, quando os governos a proibiram. Quando onde havia reinos, os reis proibiram; quando onde havia impérios, seus imperadores o fizeram; quando onde havia repúblicas, ditaduras, seus presidentes e déspotas, respectivamente, passaram a não mais permiti-las. Existiu um momento em que os líderes do mundo disseram: "Chega, papa, de queimares pessoas vivas em fogueiras, depois de interrogatórios regados a fluidos humanos derramados em torturas, sob a ideia de tua infalibilidade e o nome de teu Cristo!". Hoje os dedos dos padres não alcançam além das páginas de suas velhas Bíblias, e no máximo, tocam o timão da inexpressiva Congregação para a Doutrina da Fé - substituta da antiga Suprema e Sacra Congregação do Santo Ofício, que anteriormente chamava-se Suprema e Sacra Congregação da Inquisição Universal, popularmente conhecida como Santa Inquisição... Atualmente, é isso o mais próximo que temos do velho e aterrorizante Santo Ofício. O que sobrou da Inquisição foi uma congregação que se limita a cuidar se os padres, as freiras e um ou outro fiel não andam cometendo quaisquer pajelanças e paganismos (ou surubas, ou pedofilias - vai saber...) dentro das igrejas, sacristias, seminários e conventos, a qual já teve como seu digníssimo prefeito o então cardeal Joseph Ratzinger, depois vulgarmente conhecido como papa Bento XVI, cuja visão sua - e de seus sucessores - do futuro parece ser a inevitável queda de sua milenar igreja e a erradicação de seu tato sobre as cabeças ocidentais, indo-se assim seus dedos e ficando seus preciosos anéis - esses últimos, muito úteis na idealização de um mundo menos miserável.

domingo, 23 de setembro de 2012

A Velha


Falei com a Velha, e a Velha escutou
A Velha deve ser mesmo sábia
Falei sobre um monte de coisas
E ela ali, com um olhar de sei-lá
Ouvindo o que eu tinha para dizer
Numa paciência de santo, de Buda
Numa paciência com cara de respeito
A Velha nada dizia, só observava
Mas era um olhar... de aconchego
Que me imbuía desabafos
Um pouco de piadas, também
Um tanto de vergonhas, de coragens
Bastantes tristezas e alguma outra coisa
Tal qualquer angústia vaidosa
Que só à Velha eu diria
A Velha que me deu confiança a falar
E eu já tinha visto a Velha
Mas nunca lhe dera atenção
E agora era a Velha que me escutava
Sem dizer qualquer palavra
O inverso de mim
Despejando-lhe vocábulos em muitas frases
Sobre amor e egoísmo
Sobre projeções e esperanças... planos
Frustrações escritas em poemas
Gargalhadas transcritas em canções
A Velha... me ouvindo gabar de belas rimas
Me ouvindo lamentar poemas inacabados
Poemas até a metade, até duas, três linhas
Poemas faltando duas palavras
Poemas sem rima e sem talento
A cabeça vazia em momentos inteiros
Cheia em períodos parciais
Cheia de fumaças e licores
Amores, risos, dores, gozos... gozadas
Que bom que a Velha surgiu
Por sorte a Velha será sempre nova
Acho que é o desejo da Velha
Parece que é o que seu olhar dizia
A Velha, agora melhor amiga
Mesmo que seja só na lembrança
Na minha memória falha
Sobre a qual também disse à Velha
Cuja imagem ainda está aqui
Velha Dona Própria Inconsciência...

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Crianças e Pesquisas: Fora da Política


Se utilizar de crianças em campanhas políticas é apelação. É coisa de quem quer estar no poder a qualquer custo. Ter esse desejo desenfreado de governar é no mínimo suspeito. Daí, aparecem as criancinhas, com suas vozezinhas no início do desenvolvimento, dizendo "meu pai vota no fulano", "minha mãe prefere o sicrano"... Sem ser duro com elas, que nem sabem o que estão fazendo - são isentas de qualquer papel de ridículas - , só se pode dizer: "queridinhos, pouco importa em quem seus pais vão votar. Escolhe-se um candidato pelo próprio poder de discernimento. Cada um é capaz mental e individualmente de fazer as escolhas sem depender da influência de outrem...".

Aproveitando o tema, uma coisa intrigante em períodos de eleição é a utilidade democraticamente positiva das pesquisas de voto. Qual é a necessidade delas, que não seja a mesma que a dos pedidos dessas crianças? A resposta só pode ser: manipular as faculdades dos pobres de mente. Controlar o poder de voto dos indivíduos que não ousam pensar por si. É o errôneo conceito de que democracia significa seguir o que o rebanho - que pensa sob as escolhas de um pastor - decide. O conceito das "maria-vai-com-as-outras". Isso também pode ser entendido como tirania: a Ditadura da Massa. Democracia é a defesa do direito individual sobre si. Pensando dessa forma, logicamente cada um é impedido de exercer sua liberdade até ultrapassar a liberdade alheia. Assim, da mesma maneira que ninguém pode me impedir de fazer de mim o que quiser, eu estou automaticamente proibido de violar o direito de autonomia de outrem. Pode parecer um tanto egoísta, mas naturalmente isso resulta num acordo comunitário...

Uns dirão que as pesquisas de voto servem para informar o eleitor de como está o andar da carruagem. Ora, pra quê saber? O que importa é o resultado. Sabemos que ao longo da história da democracia, a vontade da maioria não necessariamente significou a melhor escolha. Houveram tempos na Grécia Clássica em que foram os Tiranos os libertadores dos cidadãos, pois os eleitores faziam demasiadas más escolhas. Pouco ou nada interessa quem está em 1º, 2º ou 3º lugar; o cidadão escolhe pela proposta, não pela porcentagem. Isso não é como no futebol, que o clube com mais torcedores seduz por isso mesmo quem ainda está em cima do muro, por conta da vaga ilusão de se estar protegido em meio à maioria. A massa escolhendo o pior, dá prejuízo. É óbvio.

As pesquisas atiçam o comportamento primitivo que temos de seguir o bando. Mas talvez o que vem a diferir os seres humanos das hienas e dos cavalos, além da estrutura física e biológica, seja o controle das opções próprias que na nossa espécie cada indivíduo é capaz de ter. Logo, vamos deixar as crianças de fora disso. Não sejamos egoístas e corruptos ao ponto de transformá-las em marionetes desde cedo. E outra: deixemos de ser tolos e achar as coisas bonitinhas só porque vêm das vozes finas dos nossos filhos e dos filhos dos outros...

Julgueis e Sede Julgados


Jesus aconselhou-nos a não julgar para não sermos julgados. Não entendo. Como isso?! Qual era a intenção dele em nos orientar dessa forma? Eu já digo que sim, é preciso julgar. Julgar é pesar. Julgar é analisar, ponderar. Eu digo julgueis, julgueis e sede julgados. Sem julgamento, só há veredicto. Será possível chegar a conclusões sem medir pontos de vista e conceitos? Onde não há julgamentos, só existem verdades. Quem não julga é prisioneiro da verdade, e como consequência, só prevalecem a condenação ou a absolvição.

Quando não há julgamento, só há tirania. Determinar culpados ou inocentes é uma arbitrariedade um tanto despótica e vaidosa. Por que Jesus não queria que fizéssemos julgamentos? Para que restasse a apenas ele o direito disso? Não duvido. Ele se dizia ser a Verdade. Sem julgamentos, a palavra dele se torna incontestável. Sem julgamentos, não se pode evitar obedecer e servir. Mas pior que o julgamento de cada um, é o veredicto individual. É a conclusão relativa. E cada um pode entender como quiser ou como puder até mesmo o próprio Jesus. O que o torna também alvo de veredictos pessoais, restando a ele nossa mesma condição natural de réus sem sentença...

terça-feira, 18 de setembro de 2012

O Suicida e as Reações

As crises esporádicas de rebeldia do Suicida se davam porque o mesmo sentia-se jogado às traças. Em seu pensamento, era como se tivesse a ninguém, abandonado por aqueles que um dia haviam sido seus próximos; largado pelos que outrora foram seus amores. Descartado dessa forma, o Suicida estava um farrapo, ambulando em andrajos, nem mais banho tomava com frequência, a cabeleira sempre desgrenhada, e uns dentes que precisavam ser extraídos continuavam ali e entortavam dia após dia sua arcada dentária -  mas ele não ia a um odontólogo.

Em suas reflexões, sem dizer a ninguém, o Suicida sabia que era um inútil ante a maioria das coisas da vida. Ele era um cara daqueles que não sabia "se virar". O Suicida precisava ser cuidado, e chegou a ser, num passado saudoso, mas por reviravoltas da existência, as pessoas se cansaram dele que, apesar da magreza, virara um fardo pesado por seus hábitos esquisitos.

Todos queriam que o Suicida agisse em determinadas situações, o que complicava a coisa, pois o infeliz não sabia nem tentar. Seu espírito ficava inerte de fronte às ocasiões, numa impotência inevitável, e a reação mais natural era a vontade de se esconder sob as cobertas, apagar a luz, e padecer sozinho ali, numa ilusão de estar protegido. Entretanto, ele não expressava para quem quer que fosse sua consciência de não prestar para nada, porque percebia que era exatamente o pensamento dos outros sobre ele mesmo. E numa reação de auto-defesa, não dava o braço a torcer. Ao contrário, praguejava, gesticulava, agredia a todos com blefes venenosos, convencido de que não se arrependeria após o fim da turbulência. Mas depois do estouro, um remorso tomava conta dele, pois, ainda que fosse um inválido, tinha noção da violência de suas palavras.

A solidão do Suicida o consumia ao passar cada minuto. Tinha vontade de chorar, numa sensação esperançosa de aliviar a cabeça, que se mostrava prestes a explodir, saturada de tristezas. Contudo, não saía uma lágrima - a não ser que estivesse bêbado. Não bastasse o desamparo pela incompreensão, via-se sem rumo e expectativa. Parecia incapaz de se adaptar ao meio, não conseguia participar do jogo da tribo, era como se fosse um aborto do Universo, um legítimo peixe fora d'água. E apesar do desprezo que tinha de si como integrante do mundo, era vaidoso quanto ao papel que desempenhava no meio, o qual ninguém entendia. Então, numa última tentativa - se nada mais desse certo - de deixar seu tempero na vida sua e dos demais, seria o professor de todos dando uma lição dura com uma última ação de sua caneta e o seu derradeiro suicídio...

Lugar de Criança é Longe da Escola


Tenho saudades de ser professor. Gostaria muito de voltar a sê-lo. Me fazia bem estar com a gurizada, com a esperança do futuro. Mas acho que dificilmente me animarei a lecionar novamente. Sendo professor, tinha de encarar um dragão por dia - ou vários. Sem citar o famoso salário ofensivo, tinha de enfrentar o monstro do Sistema Educacional, com suas defeituosas burocracias, suas metodologias deformadas como aberrações docentes; tinha que me deparar com o que eu jamais imaginaria protestar contra quando da minha decisão em fazer parte da classe pedagoga: a Escola. Pois o que tenho para falar a respeito da minha experiência como professor é que a Escola não é um lugar de esclarecimento. 

Nos noticiários é comum vermos alunos depredando suas escolas, vandalizando-as, ateando fogo nas mesmas, agredindo professores... Isso não mais me surpreende. Entristece, mas é previsível. Eles odeiam estar na Escola. Eu também odiava, porque antes de ser professor, eu fui aluno, e detestava a ideia de ter que passar quatro ou cinco horas por dia trancado numa câmara de concreto ou madeira, sentado numa cadeira dura, em fila, podendo me levantar vez que outra para ir ao banheiro, sem poder ver a luz do sol, e tendo que ouvir uma conversa que não me dizia respeito saída da boca de uma pessoa que não fazia ideia do que se passava no meu mundo. Eu ia, porque era obrigado; porque meus pais mandavam; e meus pais mandavam, porque a Lei mandava. E quando eu fui professor, percebia que não era diferente com meus alunos.

Eu tentei agir de forma diferente na sala de aula. Minha ideia era dar liberdade à gurizada, porém liberdade é uma coisa proibida na Escola. Eu me indignava ao observar o corpo docente castrando, sufocando, abafando logo a natureza curiosa dos jovens. Faz parte da essência da humanidade a busca pelo conhecimento. Era exatamente isso que eu notava em meus alunos. Era evidente o gosto deles por saber das coisas que os rodeavam; por conhecer e entender os motivos dos acontecimentos em suas vidas. No entanto, como eu era professor de História, tinha de lhes informar sobre a Mesopotâmia. Tinha de lhes fazer aprender sobre Assurbanipal, sobre a teoria das Formas, de Platão; tinha de contar e fazer entender sobre coisas as quais ainda não lhes eram de mínima importância. Eles mal sabiam sobre a própria cidade em que moravam. Não sabiam sobre seu prefeito, o Governador do Estado, o Presidente da República. Eles não sabiam sobre o seu bairro, sobre o seu idioma. Eles não conheciam sua própria história...

Tive muitos problemas quanto aos alunos. Haviam dias que só podiam ser classificados como infernais. Então eu mesmo passava por ter atitudes desprezíveis para com eles. Quantas vezes explodi, gritei, ofendi, ameacei, humilhei por me sentir numa sinuca de bico? Pois não me sentia no direito de mandar neles. Achava que por maior que fosse minha capacitação, ainda assim nunca se pode saber o suficiente para obrigar quem quer que seja a fazer o que não gosta. Daí, entrava na sala de professores e os via lá, com aquelas caras de bunda, fofoqueando sobre os alunos, falando mal de seu caráter, sentindo-se injustiçados quando das vezes em que aprontavam para eles. Os alunos têm os professores como seus verdugos, como os inimigos a serem batidos. Por mais que se seja uma cara sorridente e bem humorado, os discentes têm sempre o pé atrás. Estão o tempo todo desconfiados, uma vez que têm medo dos professores. E, de certo, deveriam ter. Lembro-me muito bem da fala de uma pedagoga coordenadora dizendo a mim que eu não deveria ser amigo dos alunos. Que era claro a sua ideia da superioridade do professor na hierarquia escolar. E sem ousadia para dizer, só me permiti pensar que talvez fosse esse o motivo de a sociedade ter tantos delinquentes; rebeldes que não sabem rebelar, apenas ferir. Mas vez que outra, me atrevia a falar que "a culpa não é deles, é de nossa incompetência". Todavia, eles preferiam tapar os ouvidos. Se iludiam que era mais fácil. Talvez fosse mais fácil só reclamar.

A Escola não serve para ensinar a pensar. Não serve para fazer o indivíduo buscar em si as respostas, conhecer a si. Reclamando do conteúdo a um diretor, o mesmo me disse que eu não estava ali para fazê-los entender os rumos que a História tomou, mas para fazê-los obedecer. E é isso para o que a Escola serve: para que, pelo menos, a maioria saia dali bem adestrado, domado, obediente. Para que os indivíduos saiam dali sem questionar. Por isso, os professores enfileram e aprisionam seus rebanhos no brete escolar. Os amedrontam com suas desrespeitosas aulas de religião. Mas existem uns que não se acomodam. E saem trocando as mãos pelos pés. Esses, os mesmos que não saem da boca dos hipócritas na sala de professores; os perigos da sociedade; os reflexos da Escola. Então ser professor só me ajudou a concluir que lugar de criança é longe da escola...

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Viva os Jovens!


Não sou militante de nenhum partido político e não faço campanhas para quaisquer que sejam os candidatos, mas em Porto Alegre, torço pra Manuela D'Ávila. Tenho que deixar bem claro que não sou comunista, muito menos admirador de totalitarismos genocidas. Mas como o PC do B não pode se utilizar de gulags no Brasil, provavelmente, então, sua ideologia socialista tende a incentivar um equilíbrio social sem torturas e fuzilamentos.

Gosto da Manuela simplesmente porque ela é jovem. Simplesmente porque chega de os velhos governarem os destinos. O mundo é guiado por cabeças grisalhas desde que deixamos de ser Homo habilis; desde antes de passarmos a nos entender como humanos. E o mundo nunca foi lá um daqueles míticos lugares maravilhosos de se viver. Entretanto fala-se muito em renovação, e na hora de se eleger lideranças, lá estão sentados nos tronos populares os decrépitos papa-hóstias com sua vasta experiência no obsoleto.

Penso que precisamos de juventude para que possa existir alguma vida (inteligente) na política capenga da nossa sociedade atrasada. Basta dos conceitos caducos de certo e errado os quais os vovôs e vovós nos adestram desde que nascemos. Aquele papo de que velhice é sinônimo de sabedoria já tá tão antiquado quanto as dentaduras desses anciãos. Os jovens são o futuro. Os velhos tentam manter o mundo no tempo em que eram jovens, o que pode significar um passado distante, e pensamentos medievais.

Manuela D'Ávila parece ter vigor. Ela exprime a vitalidade necessária para fazer com que se tornem apenas lembranças os pensamentos e atitudes anti-diluvianos dos fósseis calvos que lideram a massa. Pois os dinossauros, como já foi dito antes, ficam mantendo o passado no presente, evitando assim que haja um futuro...

O Vilão e a Catástrofe

Passando pelos canais de TV, houve um que o Vilão estacou e se ateve. O Vilão chegara a um ponto que era impossível não ficar alerta a seu respeito. No seu anseio por dinâmica na vida, passara a devanear com situações calamitosas que atingissem a sociedade. E não somente a grande massa social na qual vivia. Que acontecessem nos pequenos grupos, dentro dessa sociedade. Concebendo pensamentos um tanto maquiavélicos, nem sua família era poupada: lhe ocorria de vez em quando a morte de um parente em seu pensamento... só para ver a movimentação de seu pessoal. Não que realmente desejasse essas coisas, mas sentia o regozijo de imaginá-las.

Então não é de se surpreender que a emissora de televisão que lhe chamou atenção transmitia ao vivo uma notícia aterradora: no centro da maior cidade do país, um vazamento de gás ameaçava causar uma grande explosão subterrânea, e consequentemente ocorrer uma considerável tragédia.

As ruas afetadas começaram a ser evacuadas imediatamente, e quando disso, o Vilão deu um sorriso de canto de boca. Pois ele achou interessante a possibilidade de um estouro realmente estremecer o concreto. Não haveria pessoas ali; ninguém iria se ferir; todos estariam a salvo. Era só para ver as estruturas chacoalhando.

À medida que o temor ia crescendo na voz do apresentador do programa, também ascendia a impaciência do Vilão. Nada acontecia! "Que demora!". Decidiu então fazer um rodízio por todos os pobres canais de sua televisão aberta, na esperança de voltar àquele e deleitar-se com o caos entre os "Homens de Deus".

Até que não foi tão ruim pois, numa das emissoras, era noticiada a internação do vice-presidente do país, num hospital, em estado regular. Pela cabeça do Vilão não podia passar outro pensamento que: "Tomara que morra!". Parece que era suficiente para saciar a malevolência do Vilão, não é? Não, isso era cotidiano. Isso o Vilão almejava o tempo inteiro. Sem sentir remorso algum, já era com naturalidade que o Vilão torcia pela desgraça dos políticos. 

O Vilão voltou ao canal de origem, com pressa, receoso de ter perdido o espetáculo. Entretanto, nada de magnífico tinha se passado. A única novidade era que, segundo o âncora, os agentes encarregados de resolver o problema empenhavam-se em convencer os transeuntes curiosos de se afastar o máximo que desse da área de perigo - o que não ocorria.

Pois bem, era o momento em que o Vilão bradava em seu íntimo que aquela gente futriqueira fosse pelos ares com todo o resto. Ora, sua sede, semelhante à do Vilão em ver o circo pegar fogo, cegava seu raciocínio, o que poderia ser a única coisa a lhe preservar a vida num momento como esse. O Vilão estava em casa, esparramado na poltrona, a milhares de quilômetros de distância do perigo. Ele teria motivos para rir. Aquela turba, não. Iriam virar pó antes que pudessem contemplar qualquer show de fogos.

Mas o povo não explodiu, nem nada mais além da decepção do Vilão ao vir o tempo a passar, o marasmo dominar a reportagem, e depois de um momento, surgir a informação de que tudo estava sob controle por parte dos responsáveis pela segurança.

Restou ao Vilão ficar sereno, pensar na vida (ou na morte) e no tédio característico do cotidiano, pulando de canal em canal, com o controle remoto quase caindo da mão de tanto desleixo, e refletir sobre sua existenciazinha que rumava cada vez mais, e inevitavelmente, pelo caminho medíocre da passividade chata comum entre as pessoas ao seu redor. Contudo, de repente (sentidos em alerta!), o coração palpitou de esperança ao ouvir a voz de um outro apresentador noticiando o estado grave de saúde, não de um político, mas de uma velha assombração da TV, com oitenta e tantos anos, agora com o pé na cova... e o sorriso de canto de boca novamente na cara do Vilão expressando de forma evidente seu êxtase interior foi automático: "Agora vai!".

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Mandar em Mim


É mesma a nossa tristeza
Por motivos diferentes
Felicidade é ver beleza
Em controlar a minha mente

Se é amarga a liberdade
Adocicado meu direito
É salgada a tua vaidade
Azedos cárcere e leito

Infelizes somos nós
Cada um quer ser feliz
Entoar gutural voz
Governar o seu nariz

És mais triste por tentares
Tocar Fá quando se é Si
Mente, prédio, mil andares
Sobe e manda só em ti

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Gostosa


Uma mulher não é gostosa apenas nas coxas, na bunda, nos peitos. Uma mulher é gostosa no pescoço, na pele, na cor - na textura da pele - , na carne... Os dedos das mãos, o peito dos pés, a boca... ahhh, a boca... Quando uma boca é bonita... Quando cada parte individual do rosto tem sua sensualidade; o cabelo (cabeleira, cabeluda, escabelada...)... O contorno dos ombros...

Uma mulher que, basta a visão para sentir seu cheiro, seu toque, a vibração, o gosto, isso é uma mulher gostosa. Mas gostosa, mesmo, é a que tem olhar de gostosa (é preciso fritar um pouco de cérebro para descrever). É um olhar enigmático. Beira o sinistro. Ora, chega a dar um gelo no estômago do cidadão, quase que uma falta de ar. Ela assusta, mas, tipo o demônio, atrai hipnoticamente, chupa a atenção do cara, fazendo com que, mesmo por uma fração de segundo, o sujeito se perceba completamente subjugado; submetido à expectativa da surpresa - "preciso entrar ali, tenho que descobrir o que há lá dentro! Alguma coisa há.".

E a impressão que dá é que nem todas nascem ou são pré-dispostas a serem gostosas. Algumas parecem aprender ao longo do tempo. Ou todas têm na sua natureza a gostosura. Mas o que acontece fora das individualidades é determinante, e muitas vezes sem um mínimo de controle. Pode ser que o número de mulheres gostosas fosse bem maior que o vigente, mesmo sem ter que dar uns goles em algo bem forte. Ou é o homem que, embriagado pela sua sanidade idiota, necessita de tais artifícios para notar o simples que torna uma mulher gostosa em sua plenitude: a capacidade de presenciar a gostosura sem ser imaginando o que está sob as calças e dentro dos bolsos...

Peripécias da Rede Bobo de Televisão


Será que a Rede Bobo vai mais uma vez dar um jeito de manipular a cultura e a arte do Brasil? Tá surgindo um novo programinha de música que vai contar com uma turminha da pesada do cenário musical tupiniquim. E na Bobo tudo é dito no diminutivo: "programinha, turminha". Ora, eles gostam de pensamento pequeno: pensamentinho.

É certo que isso vai influenciar diretamente na bola de massa que constitui seus expectadores. Outra vez, a rede de televisão com maiores poderes divinos do país vai orientar direitinho suas marionetes para o que elas devem gostar. Mas a coisa começa já antes da estreia do troço. O nome do programa é em inglês, consolidando a já velha tradição Bobal de colonização norte-americana (porque nem britânica é) da cultura brasileira. Contudo, é corriqueiro observar o "Império Marinho" frisando acerca do orgulho de ser brasileiro. De certo, um dos motivos de ser vaidoso quanto à pátria é o abraço ao estrangeirismo. Sabe-se lá se temos pátria... Tudo bem que isso seja ligado à globalização, mas aí fica parecendo incoerente falar em orgulho nacional - ficaria melhor orgulho mundial: "Orgulho em ser do mundo".

Mas o Brasil é a Bobo. Aqui, o 4º Poder não é a mídia, mas um daqueles três idealizados por Montesquieu. A Rede Bobo é o 1º Poder, uma vez que é a única mídia, tendo como seus divulgadores, outros canais que lhe falam tanto mal, porém que acabam por agir como filiais suas. Os pauzinhos que ela mexer ditarão o curso do país. E o entretenimento destinado a seus brasileiros fieis é essa arte que os dopa, apresentada por meio de programinhas como esse - de nome anglo-saxão com o devido correspondente em português - que, com seus pastores bem catequizados, doutrinam o gosto da população como o fazendeiro que escolhe o alimento das vacas.

Bobo e você, tudo a ver!