sexta-feira, 6 de julho de 2012

O Amador e a Cobradora


Ao pegar o ônibus, o Amador jamais imaginaria encontrar aquela linda guria como cobradora de passagens. Já tinha viajado com mulheres dirigindo a máquina - no geral, mulheres corpulentas, entroncadas, quarentonas - mas, se espantou ao ver aquela loira jovem de compridos cabelos lisos e traços delicados vindo lhe vender o bilhete.

A bem da verdade, não conseguia entender por qual motivo uma moça daquelas fazia aquele trabalho, de certa forma, grosseiro. Parecia que a cena não se encaixava. A seus olhos, era uma imagem torta, sem simetria. Era como se a vida estivesse sendo demasiada suja para com uma jovem tão bonita. Talvez a beleza simbolizava ao Amador inteligência, e ele não via naquela profissão nenhum aspecto dessa qualidade sofisticada. Ele pensava na ideia de ela ter de tratar com tantos tipos corriqueiros que embarcam nos ônibus; tanta gente rude e mal cheirosa; tantas crianças a vomitar durante a viagem... Logo ela, tão meiga...

Ela veio em sua direção. É de se reiterar aqui que só faltou ao Amador esfregar os olhos ainda em dúvida num pensamento tipo "mas não é que é, mesmo!". Chegou perto, puxou da cintura o bloco de bilhetes e a caneta, olhou para o Amador e o atendeu. Pode ser que fosse pelo assombro da situação, mas o Amador teve a impressão de até ver um tímido sorriso no canto da boca da moça.

O Amador, além de amar, também era um sonhador. Seu coração estava sempre vazio. Quiçá por isso amasse tanto. Logo que a cobradora se retirou, já ficou imaginando futuros mirabolantes com a possibilidade de poder amar àquela figura tão admirável que aparecera em sua vida. Mas passava por sua cabeça a dúvida sobre o que poderia existir entre os dois. Questionava-se que tipo de sentimentos aquela dama poderia ter por ele; que tipo de momentos os dois poderiam passar juntos. Se ela estava naquela profissão, sendo ela tão bonita, podendo estar, pelo menos, atendendo numa loja de roupas, num ambiente limpo, por que se submetia a tal provação? Ora, passou-lhe pelas ideias que fosse burra. Correu por sua mente a realidade de que fosse apenas bonita de rosto, de seios, de cintura, bunda, pernas... Que fosse só uma dessas tremendas gostosas...

Mas e o sorriso no canto da boca? Aquele sorriso não poderia ser desperdiçado. O Amador, sempre tão solitário, não estava em posição de desprezar aquele sorriso. Constatou que, mesmo sendo estúpida, usufruiria-lhe o sexo. Pegar naquelas carnes não seria de nenhum mau gosto. Poderia saciar seu desejo primitivo de "possuir" uma mulher. Em devaneios animais, ali, sentado na poltrona do ônibus, deleitou-se com filmes obscenos em sua agora depravada mente, em que ele e ela eram os protagonistas. Seu poder de imaginação era tamanho, que ele podia sentir até o cheiro do corpo dela próximo ao seu. De repente, uma freiada brusca! O Amador voltou à realidade. Era um dia frio, e logo ele esfriou. Voltou a sentir vontade de amar. Novamente recordava de seu eu. Não lhe seria tão prazeroso apenas desfrutar do físico daquela guria. Ele queria a sua essência. Ele queria o eu dela. Aí sim estaria a se satisfazer. 

Quando o ônibus chegou à rodoviária, viu-na pela última vez. Observou a linda jovem com um suspiro, daqueles de quem se conforma com o retorno à sua realidade, que no caso dele era de que o Amador só amava amar...

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