sexta-feira, 2 de março de 2012

Da Mão do Mendigo

Pela primeira vez na vida, o tocador de lira passou uma noite ao relento. O tirano o expulsara de seu palácio, pois temia que o bardo fosse-lhe mais inteligente e perspicaz. As pessoas, em sua maioria, admiravam-no, mas o tirano chamava-lhe de vagabundo e imprestável. Ora, o músico não obedecia a ninguém que não a ele mesmo.

Na cidade escura, o tocador de lira procurava um lugar para se esconder do frio e dos saqueadores. Seu instrumento ficara na casa do tirano, e nem música ele poderia executar para passar o tempo. A noite gelava mais a cada minuto, e sua comprida túnica de mangas largas começava a se mostrar ineficaz ao clima.

Como não conseguia dormir, vez por outra caminhava pela cidade para espairecer, e foi numa dessas, que topou com um mendigo falastrão.
- Mestre bardo! - ouviu à distância. - Vem! Bebe comigo o pouco que ainda tenho de vinho!

O velho barbudo o conhecera, e o trovador foi lá ter com aquele tipo (ainda que preferisse a solidão). Sua fome era tamanha, que não tinha vontade de beber. O mendigo puxou de uma bolsa velha e surrada um saco com fumo e um cachimbo rústico que, com prática, acendeu e passou ao jovem.

O bardo gostava de fumar cachimbo, mas àquela hora, não lhe apetecia muito, ainda que acabasse dando algumas baforadas.

Caminhou com o velho durante certo percurso, porém sua mente limitava-se a lembrar de comida. Não queria perguntar ao mendigo se tinha algum mantimento em sua bolsa, então esforçou-se a esquecer sua fome. Andaram por várias ruelas da vila, conversando acerca de vários assuntos, todavia só quem falava era o mendicante. Em certo ponto, pararam. Sentaram-se à beira de uma calçada e, como que o velho fosse leitor de pensamentos, sacou de seu alforje um pequeno embrulho contendo pequenos pedaços de carne seca. Ofereceu ao tocador que, sem titubear, pegou dois e os saboreou tal um bárbaro faminto. O trovador teria comido toda aquela carne, tamanha sua sofreguidão, mas sabia que o velho necessitava mais dela.

Agradeceu e disse estar satisfeito (mesmo quando lhe era oferecido mais). O bardo continuou faminto, mas agora podia apreciar com mais prazer a saborosa fumaça daquele cachimbo. Mais uma vez, o mendigo tacou fogo no fumo e estendeu ao jovem que começou a ouvir um cantarolar um tanto desafinado do velho desdentado. As palavras saíam confusas, mas a balada parecia falar sobre um sábio que tentava fugir da paranoia; um homem que queria ter medo sem o ter.

Quando o velho terminou, lamentou não poder ter seguido a busca por seu sonho. O mendigo desejou, em outros tempos, ter sido um músico "tão bom quanto o era aquele jovem ao seu lado naquele momento". Coversaram sobre outros assuntos, e o trovador percebeu que aquele homem com poucos dentes era uma inteligência posta no lixo. O pedinte levantou-se e se despediu do bardo, com água nos olhos...

A noite do tocador de lira ainda viria a ser longa, mas com o chegar da aurora, o bardo voltou até o palácio do tirano, recuperou seu instrumento e, descansado e depois de se alimentar, trabalhou numa pequena canção que emocionaria os poucos que a ouvissem:

Do palácio, fui expulso
Quase até que apanhei
Tornar-me-ia tipo avulso
Até andar com nobre rei

A noite era bem fria
Tão gélida quanto o Norte
E meu corpo já dizia:
"É bom que sejas forte"

O Tempo era o inimigo
Mais potente que eu tinha
Mas achei um novo amigo
Daqueles que bebe, fuma e caminha

Já andei entre eruditos
Que amam só o próprio umbigo
Cantei as glórias dos malditos
E em tal dia ouvia um mendigo

Ao longo da jornada
O andarilho percebeu
Que as peripécias da estrada
Venceriam orgulho meu

Percebeu de imediato
Tamanho era meu cansaço
E mostrando a nobreza em ato
De rei, vi nele um traço

Deu a mim grosseiro manto
Pra que eu dormisse aquecido
Apontou a um certo canto
Sendo um catre, parecido

Tão bela fora a intenção
Daquele bêbado sem dentes
Que uma angústia em meu coração
Tornou-se desespero, ainda que contente

Fiquei meio atordoado
Só com a ideia de ser mendigo
Imaginei-me na sarjeta, deitado
"Não posso deixar que aconteça comigo!"

Neguei valiosa oferta
Com delicadeza, certamente
Entreguei-lhe a feia coberta
Mesmo com o sono, inclemente

A fome agora apertava
Até o cachimbo, repelia
Em qualquer comida, eu pensava
Carne de cão, comeria

Como um mago misterioso
Minha mente, pareceu ler
O mendigo caprichoso
Comida haveria de ter?

Abriu uma pequena trouxa
E tinha um pouco de carne, ali
Minha baba escorreu frouxa
Naquela noite, pude então rir

Não comi tudo, mas o faria
Saboreei o quanto pude
O homem mais me oferecia
Mas não podia sê-lo rude

Ele precisaria mais que eu
Eu tantaria voltar ao castelo
Eu era o único amigo seu
Talvez, fosse seu único elo

Pois ao palácio, voltei
E topei com meu inimigo
Perguntou, irritado, por onde andei
E vendo o luxo da casa de um rei
Cheio de desprezo, falei:
"Comi das mãos de um mendigo!"

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