segunda-feira, 12 de março de 2012

Mulheres e Fêmeas

Mulheres são raras
Fêmeas, há mais
Sujeitas de taras
Cios de animais

Mulheres: espertas
Atentas a si
Por mente, cobertas
Egos, ali

Fêmeas efêmeras
De tempo que corre
Carnes às têmperas
Amores de porres

Mulheres deusas
Ninfas de prazer
Auras acesas
Em todos, poder

Às fêmeas, piedade
Os machos a usufruir
Às mulheres, vaidade
Aos homens, possuir

sexta-feira, 2 de março de 2012

Da Mão do Mendigo

Pela primeira vez na vida, o tocador de lira passou uma noite ao relento. O tirano o expulsara de seu palácio, pois temia que o bardo fosse-lhe mais inteligente e perspicaz. As pessoas, em sua maioria, admiravam-no, mas o tirano chamava-lhe de vagabundo e imprestável. Ora, o músico não obedecia a ninguém que não a ele mesmo.

Na cidade escura, o tocador de lira procurava um lugar para se esconder do frio e dos saqueadores. Seu instrumento ficara na casa do tirano, e nem música ele poderia executar para passar o tempo. A noite gelava mais a cada minuto, e sua comprida túnica de mangas largas começava a se mostrar ineficaz ao clima.

Como não conseguia dormir, vez por outra caminhava pela cidade para espairecer, e foi numa dessas, que topou com um mendigo falastrão.
- Mestre bardo! - ouviu à distância. - Vem! Bebe comigo o pouco que ainda tenho de vinho!

O velho barbudo o conhecera, e o trovador foi lá ter com aquele tipo (ainda que preferisse a solidão). Sua fome era tamanha, que não tinha vontade de beber. O mendigo puxou de uma bolsa velha e surrada um saco com fumo e um cachimbo rústico que, com prática, acendeu e passou ao jovem.

O bardo gostava de fumar cachimbo, mas àquela hora, não lhe apetecia muito, ainda que acabasse dando algumas baforadas.

Caminhou com o velho durante certo percurso, porém sua mente limitava-se a lembrar de comida. Não queria perguntar ao mendigo se tinha algum mantimento em sua bolsa, então esforçou-se a esquecer sua fome. Andaram por várias ruelas da vila, conversando acerca de vários assuntos, todavia só quem falava era o mendicante. Em certo ponto, pararam. Sentaram-se à beira de uma calçada e, como que o velho fosse leitor de pensamentos, sacou de seu alforje um pequeno embrulho contendo pequenos pedaços de carne seca. Ofereceu ao tocador que, sem titubear, pegou dois e os saboreou tal um bárbaro faminto. O trovador teria comido toda aquela carne, tamanha sua sofreguidão, mas sabia que o velho necessitava mais dela.

Agradeceu e disse estar satisfeito (mesmo quando lhe era oferecido mais). O bardo continuou faminto, mas agora podia apreciar com mais prazer a saborosa fumaça daquele cachimbo. Mais uma vez, o mendigo tacou fogo no fumo e estendeu ao jovem que começou a ouvir um cantarolar um tanto desafinado do velho desdentado. As palavras saíam confusas, mas a balada parecia falar sobre um sábio que tentava fugir da paranoia; um homem que queria ter medo sem o ter.

Quando o velho terminou, lamentou não poder ter seguido a busca por seu sonho. O mendigo desejou, em outros tempos, ter sido um músico "tão bom quanto o era aquele jovem ao seu lado naquele momento". Coversaram sobre outros assuntos, e o trovador percebeu que aquele homem com poucos dentes era uma inteligência posta no lixo. O pedinte levantou-se e se despediu do bardo, com água nos olhos...

A noite do tocador de lira ainda viria a ser longa, mas com o chegar da aurora, o bardo voltou até o palácio do tirano, recuperou seu instrumento e, descansado e depois de se alimentar, trabalhou numa pequena canção que emocionaria os poucos que a ouvissem:

Do palácio, fui expulso
Quase até que apanhei
Tornar-me-ia tipo avulso
Até andar com nobre rei

A noite era bem fria
Tão gélida quanto o Norte
E meu corpo já dizia:
"É bom que sejas forte"

O Tempo era o inimigo
Mais potente que eu tinha
Mas achei um novo amigo
Daqueles que bebe, fuma e caminha

Já andei entre eruditos
Que amam só o próprio umbigo
Cantei as glórias dos malditos
E em tal dia ouvia um mendigo

Ao longo da jornada
O andarilho percebeu
Que as peripécias da estrada
Venceriam orgulho meu

Percebeu de imediato
Tamanho era meu cansaço
E mostrando a nobreza em ato
De rei, vi nele um traço

Deu a mim grosseiro manto
Pra que eu dormisse aquecido
Apontou a um certo canto
Sendo um catre, parecido

Tão bela fora a intenção
Daquele bêbado sem dentes
Que uma angústia em meu coração
Tornou-se desespero, ainda que contente

Fiquei meio atordoado
Só com a ideia de ser mendigo
Imaginei-me na sarjeta, deitado
"Não posso deixar que aconteça comigo!"

Neguei valiosa oferta
Com delicadeza, certamente
Entreguei-lhe a feia coberta
Mesmo com o sono, inclemente

A fome agora apertava
Até o cachimbo, repelia
Em qualquer comida, eu pensava
Carne de cão, comeria

Como um mago misterioso
Minha mente, pareceu ler
O mendigo caprichoso
Comida haveria de ter?

Abriu uma pequena trouxa
E tinha um pouco de carne, ali
Minha baba escorreu frouxa
Naquela noite, pude então rir

Não comi tudo, mas o faria
Saboreei o quanto pude
O homem mais me oferecia
Mas não podia sê-lo rude

Ele precisaria mais que eu
Eu tantaria voltar ao castelo
Eu era o único amigo seu
Talvez, fosse seu único elo

Pois ao palácio, voltei
E topei com meu inimigo
Perguntou, irritado, por onde andei
E vendo o luxo da casa de um rei
Cheio de desprezo, falei:
"Comi das mãos de um mendigo!"

Desanima

Dá um desânimo,
Desânimo de ver
Esses amores patéticos,
Essas mocinhas cretinas
Jogando-se aos paquidermes...

Essas paixões ridículas,
Fingidas,
Impulsos primatas,
Sentimentos banais.
Toda uma cegueira imunda...

Desanima ter que procurar
"Uma agulha no palheiro".
Desanima, tal feito extenuante.
É tão raro alguém à altura.
E o raro é mais valioso...

Quantos amores no lixo?
Quantos amantes desdenhados?
Mil poetas pranteando;
Descartados românticos artitas;
E só os casais: acasalando...