domingo, 16 de dezembro de 2012

Cachorro Abandonado

Foi a indagação de uma amiga sobre eu ter de fazer uma escolha racional e, de certa forma, fria, na ocasião de eu estar, em vontade, querendo empregar a emoção, que me evocou da memória um episódio em que estava andando às margens do lago São Bernardo, em São Chico, absorto no vórtice em que se encontrava minha cabeça esculhambada, e me surpreendi com um cão de porte pequeno passando por mim - muito bonito, por sinal - um tanto apressado.

Era só um cachorro, um cachorro que me cruzava, que me olhava vez que outra, e que de repente, tive a leve impressão de que tentava se evidenciar de uma forma ou de outra, como que se exibindo para mim. No mesmo instante, já fiquei intrigado com a hipótese de o bicho estar se doando a mim por não ter mais a ninguém.

"Isso é uma coisa que me incomoda!", comentei com ela. Pois não é que o animal corria de um lado a outro, com um sorriso encabulado na cara (sim, ele sorria visivelmente), depois voltava e me acompanhava, parceiro, disposto a abraçar minha jornada, avante, impetuoso. Tamanha era sua perseverança que, notando minha displicência discreta, saiu em arrancada como um pé-de-vento, e se atirou lago a dentro, nadando um pouco na água gelada, e voltando ao seco, drenando-se num chacoalho antes de vir em minha direção orgulhoso como quem diz "pronto, está provado, não há mais dúvidas quanto a minha lealdade...".

"Por quê? Por quê?!", comentava eu comigo. Não, eu não queria que aquilo acontecesse! Eu correria junto daquele desmoralizado parente dos lobos. Me sentaria ali, passando-lhe a mão sobre os pelos, afagaria o ente tão puro e gentil que naquela hora se apresentava como que voluntário para a aventura da vida. Mas não era possível. Ele não poderia me seguir. Só quem pode, ou precisa me seguir, sou eu. E um drama bem doloroso se instalou em minha caminhada. Queria lhe retribuir a doçura com que me considerava... Como foi triste... Como foi triste, todavia, o desfecho de tudo. Como me chateou a previsão do que iria se concluir. Tudo terminaria com minha reação insegura, confusa, e com cara de ingrata, que no fim acabou por se concretizar. O expulsei da minha presença, fiz barulhos vocais e falei em tom de desprezo, para que a vibração da minha voz ficasse bem clara aos seus apurados ouvidos, e o cão se desse por convencido de que eu era uma péssima escolha como parceiro. De princípio, o infeliz acabava voltando, porém fui sendo cada vez mais rude em minhas investidas, até que o desafortunado cachorro sumiu.

Juro, sem fazer dramalhão, que chorei por dentro. Juro, também, que minhas pernas estavam fracas quando das minhas covardias daquele dia. Pode ser que tivesse dono, uma família alegre à sua espera, crianças saudosas de suas bagunças. Besteira... Só conversa fiada para abrandar minha consciência condenada como bandida. Me importava minha atitude repugnante. Pensava na nobreza dele ao notar em mim confiança e procurar minha companhia, tendo a outros tão aparentemente mais brilhantes que eu para acompanhar. E eu fui cruel. Mas eu não tinha escolha. Aquele não era o tempo certo. Sei que muitos me aconselhariam universos de possibilidades a fazer. Entretanto, não havia o que fazer. Não havia o que eu fazer, pelo menos. Às vezes também somos cachorros abandonados. Às vezes carecemos, não de um dono, mas de afagos. Nem todos somos guardiões. Nem sempre temos a força de vontade, o instinto de proteção nas nossas almas. Eu não tive...

Tomei meu rumo, mas a garganta doía com o caroço da auto-repulsa. Que peso, quando segui adiante. "Quantas vezes ainda terei de presenciar isso?", perguntei à minha amiga. Mas o que mais temo, é que o costume se derrame em mim, e a frieza se instale como natural... Porém ali, éramos dois seres no mesmo nível, aos olhos da vida, eu e aquele cão. A diferença é que eu sabia disso, ele...

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Além da Capa


Ahh, eles são tão superficiais... 
Eles são muito superficiais
Eles só enxergam a casca
Eles não percebem 
Não podem perceber
Que mesmo dentro do caroço
Há um miolo...

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Príapo Deus


Quando da volta vitorioso em batalhas
Vem Dionísio, das Índias, arfante
Deita-se nu, sob helenas malhas
Em lençóis olímpicos de deusa amante

Do coito quente radiado em divino
Entre seios e fluidos da filha de Zeus
Aos olhos de Cronos, nasce menino
Viril e fértil um esdrúxulo deus

Príapo cresce, e consigo, a tara
De touro bufante, sempre rijo membro
Másculo músculo, pétrea vara
Nem lhe amiúda, o frio de Dezembro

Anda Príapo a exibir o sexo
Batendo, esfregando, encostando o falo
Em ninfas, mulheres, pretende-se anexo
Com gancho carnoso, então duro calo

Por entre as pernas, a lança em riste
Príapo deus, nem se encabula
Mesmo diante sua mãe, Afrodite
O deus safado, por ela ejacula

Às frias águas do Helesponto
Manda-lhe a mãe, a libido acalmar
Tesão de macho, explodindo em confronto
A pila de Príapo quase a estourar

Libertino deus, de glande latente
Nem o Helesponto abranda o fervor
E o povo dali, antes contente
Repudia o almíscar de macho, odor

Todos os homens querem-lhe embora
Mesmo às mulheres, Príapo assusta
Ofende o pudor, acariciando a tora
Envernizada, roliça, haste robusta

Filho mimado, da mãe tem o colo
A qual, irada, apela à pestilência
Leva-se o deus, no Estreito, a tiracolo
Suportando seu cheiro e sua indecência

Príapo deus, aos Homens, discrepa
Príapo deus, nem bom nem mau
Em tantas raparigas, goza e trepa
Em tantos rapazes, lhes mete o pau

Ao Dia do Músico


No Dia do Músico, me lembrei da entrevista dada ao Jornal do Almoço pelo cantor e compositor Alceu Valença, que se apresentou dia 21/11/12 em Porto Alegre, e refleti se no Brasil de hoje, haveria espaço para a consagração de excelentes musicistas tais como o cabeludo nordestino que arrepia os pelos do braço de qualquer bom apreciador de belas obras, com suas canções épicas, sofisticadamente confusas, e poesias místicas e apocalípticas... Tenho minhas dúvidas. O Brasil (o país da brasileirada) é atualmente território da mídia, da indústria, do pragmatismo, do negócio, do dinheiro, do capitalismo desenfreado... da manipulação cultural. O Brasil não é país de grande aceitação de artes mais profundas que "tchu tchá tchás", haja vista os astros admirados hoje, tipos como Michel Teló, Luan Santana, Gusttavo Lima (isso mesmo, com dois "Ts"), Chimbinha e Joelma, e toda uma gama de ídolos para "Neymares". Em tempos como esses, Alceu Valença passaria fome, se dependesse de seu talento. Quanta ironia, quando o que o senso comum pensa é na equivalência entre fama e qualidade artística. Se Alceu Valença começasse sua jornada pelos palcos nacionais hoje, teria de dividir suas habilidades musicais entre algum bico aqui e acolá, uma esmola em qualquer esquina, ou, com "jeitinho brasileiro", alguma maracutaia (a nossa cara) para que pudesse comer todos os dias e, quiçá, fumar um maço de cigarros (luxo atrevido). É, o Brasil tá dominado, tá tudo dominado. Eu, metido a músico que sou, vivo matando cachorro a grito. A coisa tá russa. A coisa é na raça, no amor. O músico de hoje está sujeito a ser "zé ninguém" pelo resto da vida, ou por boa parte dela. No entanto, é encantador ainda encontrar resistência ao dinheiro é à fama evidentemente passageira que seduz e estupra talentos em nome da movimentação financeira dos tubarões do país. Meus companheiros de Tocata y Fuga e eu, e tantos outros que passamos a conhecer nas pequenas andanças da nossa estrada artística, talvez sejamos "Alceus Valenças" numa época escura e cheia de concorrentes inferiores ao medíocre, mas somos persistentes enquanto sonhadores - remanescentes dos amantes da música, fãs de Alceu Valença...

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Dias da Consciência

Racismo não deve ser esquecido, discriminação racial é um problema arcaico incrivelmente permanente nos dias de hoje, mas foi-se o tempo de se achar os negros coitados... Negros, orientais, ciganos, indígenas, homossexuais, brancos, todos são capazes, inteligentes, fortes, fracos, felizes, tristes, sofrem, riem - todos são humanos. Mês, semana, dia, hora da consciência negra: balela antiquada; demagogia de heroísmo em apartamento. Todos os dias deveriam ser "Dias da Consciência", simples mas admirável; simples, mas humano. Porque são os humanos quem têm consciência, e os humanos têm de entenderem-se como os tais. Os negros não são doentes, necessitados de campanhas e doações. Doentes são as pessoas (brancas e/ou negras) que são apegadas à ilusão cretina de que humanos são incapazes, exatamente por serem humanos. A doença são os conceitos, pois também há moléstia da parte daquele que agride o discriminador; o agressor também é doente. É que o que precisa ser eliminado não é o racista, mas o racismo...

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Obediência não é Respeito

A confusão entre obediência e respeito é muito grande. E o engraçado é assemelhar antônimos. Quando um filho obedece ao pai, é pelo medo do tapa, do castigo. Mas vem a respeitar, quando o genitor lhe causa admiração, segurança. Na escola, o aluno obedece, pois está sob a ameaça da nota vermelha, da represália por meio da reprovação, todavia, tende ao respeito quando o meste lhe atenua o incômodo do não saber, através da elucidação. Quando se fala em leis, daí então, tem-se um aglomerado de obedientes, que as seguem pela tensão causada por conta do temor à punição. Porém, quantos as respeitam por si próprios, compreendendo-as como um acordo a evitar abusos de uns para com os outros? Obediência não é respeito, não. Obediência é submissão, é imposição feita de alguém que está "acima", por algum motivo, sobre, obviamente, um que não dispõe de certa ferramenta (arma) tal qual o opressor. Obediência é um desrespeito. César venceu Pompeu porque seu exército lhe tinha respeito. Suas tropas eram bem menores que as de seu oponente, no entanto, os soldados lhe admiravam, ao passo que Pompeu impunha o medo a seus guerreiros, lhes determinava a obediência, lutavam com pavor do inimigo e do comandante. A obediência é corrupta, mal caráter. Ela é a sobreposição da imbecilidade à ignorância. O respeitoso é, em verdade, um desobediente, e o respeitado, desobedecido por si, além. Os respeitáveis são aqueles a quem ninguém obedece, pois, já o são, exatamente porque estão libertos da tosca necessidade de serem obedecidos. Como são dignos de respeito, respeitam. Entendem a satisfação que é o respeitar, propriamente dito. O captam como a sua essência intrínseca de espontaneidade, como algo vindo de dentro e exposto como uma vontade do impulso, da naturalidade de querer respeitar. Já o obedecer, é como uma estaca fincada pela mão do externo. É pontiagudo e dolorido, quando não soca como uma marreta, e desacorda o sujeito, de seus sentidos. Obedecer é horrível, é nauseante, é ultrajante. Agora, respeitar é uma delícia. Deveria-se provar, pra se ver o quanto é bom. Faz-se questão de respeitar. O indivíduo sente-se respeitado por si mesmo. Alivia o que de tenso, coça. Esvazia o que está na hora de sair. Obedecer é um lixo, mas respeitar chega a dar um tesão...

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Quer casar comigo?


Ó, que legal
Pedra, aro, metal
De amor, arremedo
Pele, carne, osso: um dedo
Brinca aqui, finge acolá
Vale tudo ao fantasiar
Chama-se todos, se vai dizer
Que paixão infinita, vai ser
Amor de verdade, não precisa
É normal que ela seja indecisa
Se vestido e fraque for vestuário
A paixão, então, fará 'niversário
Faz-se comida, espera-se o bolo
Ninguém admite que é tolo
Sorrisos e risos
Nos dentes os frisos
O amor se desdobra
Até pela pela sogra
Que tal ser feliz
Pra isso, chamariz
Vão-se todos pro céu
Começando a um anel

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Cuidado com o Cuidado

O brabo é quando se pensa estar fazendo o bem, sendo extremamente cruel. É aquele papinho de "mal necessário"... Os maus não fazem maldade porque querem cometer o mal. Pelo contrário, pensam que estão fazendo o bem! Ou alguém tem dúvida de que Hitler viesse querer para si o título de maior monstro da humanidade? O cara não chegou lá e exterminou 6 milhões de judeus para ser condecorado o homem mais mau do mundo. É o que acontece com tipos que vivem aqui, do nosso lado, sacrificando pessoas como que sentissem-se no dever de "curá-las" de suas moléstias. Pagando de guardiões das integridades alheias. Olhando para si, e enxergando uma máscara de sofrimento pela dor "precisa" que inflige ao outro, sem se tocar que por de trás da socapa, existe realmente uma dúvida e um sentimento de culpa pela crueldade que se sucede. E nós mesmos podemos ser assim. Bancando os heróis, com medo. Brincando de sermos os paladinos, mas sofrendo com a vergonha embutida de estar fazendo tudo errado, e não ter o direito de zelar por ninguém. Cuidado com o zelo. É urgente que se tome cautela, quando de seu emprego. Ele pode virar cárcere, tortura, punição, e execução. Ele pode sair da fantasia de herói, e transitar para a realidade de carrasco!

terça-feira, 16 de outubro de 2012

O Amor é um Inferno


O amor... O amor é uma maldição, uma praga. Talvez seria melhor que fôssemos frios tal qual os animais, e somente procriássemos para perpetuar a espécie. A gente tem sempre só um amor, e é logo aquele que fica pulando de amor em amor, nos abandonando, ou ameaçando abandonar. Então temos que ficar sempre atentos, dormindo com um olho fechado e outro aberto, na espreita, cuidando para não perder o amor. 

O amor é um inferno, que nos queima e nos derrete. Estamos sempre pensando em amor. E quem não está amando, espera por amar. Mas a única garantia que se pode expectar é a decepção. Então ficamos ali, reféns do imprevisível, que tão visível é. Tomara Freud estiver certo, e o amor seja apenas a representação que nossa mente faz daquilo que imaginamos ser perfeito. Pois, dessa forma, podemos ter esperança de inventarem um remédio que nos cure da doença do amor.

O amor, um sentimento simbolizado por uma palavra que já está bastante deturpada a beirar o ridículo, é o que nos motiva mas atormenta. Nos causa euforia no momento de sua prática, vicia a gente, mas vai embora a qualquer hora, ou de repente, nem aparece mais. Queremos o prazer de amar, mas por que que temos que ser escravos desse demônio? Ter de bajular o amor, acariciá-lo, agradá-lo, porém a medida tem que ser exata, pois ele pode parecer grudento, apelativo e nauseabundo...

Viver o amor é ter sempre o coração na mão. É dormir todas as noites ao lado da incerteza. E para não ficarmos loucos, acalmamos nossas mentes, para que seja possível ter um sono sossegado. Para que os pesadelos não ultrapassem o reino de Morfeu. Mas aí, vai-se embora de novo, o amor. Dessa vez, ofendido, indignado, irritado, acusando-nos de displicência, e cobrando-nos por estarmos ausentes.

O amor é o monstro que alimentamos do próprio peito, e deixamos viver na gente como um parasita, responsável pela mais dolorosa peste que nos assola...

domingo, 14 de outubro de 2012

Engasgo

Quando entra aquele farelinho de erva mate na boca do pulmão, a respiração causando o desconforto, até o olho dói, e nem força se tem para pigarrear. É um momento de sofrimento quase sem igual. Ninguém pode ajudar o cara. Quase o cara não pode se ajudar. Dependendo, não existe raciocínio nessa hora. São os impulsos nervosos que estão encarregados de fazer o serviço. À vítima só resta sentir a lágrima escorrendo até o maxilar. Mas não se pode desistir fácil. Com bastante concentração, é possível, sim, obter um mínimo de controle sobre a tragédia. Afinal, é só um farelo de planta moída, aspirado ao sorver o chimarrão; não é um naco de carne que entala, do tipo que um outro precisa encaixar-se violentamente por trás do indivíduo pressionando-lhe o abdome para desentalá-lo, como as crianças fazem - para ver disparando veloz como um tiro de canhão - com uma garrafa de plástico lacrada por uma rolha. O cérebro é um monstro dominável, se houver determinação. Com muito sofrimento, puxa-se violentamente o ar, a escória vegetal possivelmente invade o pulmão, mas sai logo depois, numa tosse barulhenta e forte, que vem acompanhada de assovio, voz gutural e, no pior dos casos, uma golfada a qual pode desencadear o desperdício da última refeição. Depois, tudo é bonança. Seca-se as lágrimas, engole-se o choro, e a respiração vai voltando devagar a ser aquela ação prazerosa... Com força de vontade, é possível adquirir o controle daquilo que mais pode vir a ser prejudicial na vida de cada um: os próprios impulsos...

sábado, 13 de outubro de 2012

Felicidade tem Limite

O quê?! Tu tens a audácia de querer ser feliz integralmente, em minha casa?! Que ousadia é essa de pensares que podes viver rindo aqui?! Pouco ou nada me interessa se não gastas do meu dinheiro para te embebedares; não quero saber de tantos sorrisos no meu lar. É uma falta de respeito cogitares ser alegre todo o tempo, de baixo do meu teto! Quantas vezes tenho que te deixar claro que não admito esse tipo de coisa na minha casa?! Regozijo? Vai procurar na casa das tuas putas! Não quero saber de divertimentos incessantes onde sou eu quem paga as contas de água e de luz! E não me vens argumentar que não quebras nem sujas nada. Por que tu teimas em querer ser feliz o tempo inteiro?! Por que tu não és como todo mundo, que aceita o desgaste cotidiano numa boa?! Por que tu não és como todo mundo, que acata passiva e religiosamente a dureza da vida?! Que atrevimento da tua parte querer se negar a isso, logo na minha residência, onde sou eu que ponho comida na mesa. Não queres dores e calos? Arruma tuas coisas e vai-te embora! Era só o que me faltava, um cara-de-pau que nem tu, entender que pudesse haver jeito de farrear na minha casa, alegando que não agride nem maltrata ninguém. Em quantas ocasões te deixei claro que festas se fazem vez que outra, e de forma contida. Tu extrapolas! Queres chegar ao máximo de gozo possível! Não tem cabimento. Ninguém é assim, cara! Aprende isso! Ficas aí, com essas manias de músicas e de artes, livros e comédias, cervejas e fumaças, enquanto os batalhadores do dia a dia suam para dar de comer aos filhos. Não, não onde moro! Aqui é uma casa de respeito, sofrimento e sacrifício, como manda Nosso Senhor Jesus Cristo - que Deus O tenha, amém.

Metaleiros, Punks e Roqueiros

Hoje em dia até os metaleiros são bonzinhos, os punks são politicamente corretos, e os roqueiros são contra as drogas. Os metaleiros estão cansados de Satanás, os punks se desgastaram de gritar, e os roqueiros aderiram às saladas. Os metaleiros se engajaram na causa animal, os punks são contra o voto nulo, e os roqueiros vão à academia. Os metaleiros assistem a desenhos japoneses, os punks frequentam saraus, e os roqueiros jogam futebol todas as terças. Os metaleiros passam horas no vídeo game, os punks escutam Radio Head, e os roqueiros assistem novelas. Os metaleiros são fãs de seriados americanos, os punks dão palestras em igrejas, e os roqueiros chupam balas "7 belo". Os metaleiros jogam RPG, os punks passam batom, e os roqueiros pedem leite no bar. Os metaleiros cantam rap, os punks usam gravata, e os roqueiros cortaram o cabelo e fazem topetinho com gel. Os metaleiros querem ser papais, os punks trabalham, e os roqueiros não trabalham, mas procuram emprego. Os metaleiros são riquinhos, os punks moram com a vovó, e os roqueiros criam York Shires para vender... Ou seja: os metaleiros são nerds, os punks andam com meninas, e os roqueiros são cabeças ocas. Isso não é preconceito, é conceito. É uma paz mundial - só o que faltava...

terça-feira, 9 de outubro de 2012

A Gangue

Ai que das vezes em que fui fuzilado, amaldiçoado, perseguido e represado, decidi ler Qorpo-Santo para não estar sozinho; para me sentir em casa, protegido. Dissabores e podridão quanto me levaram a Quintana, Bukowski, Nietzsche, e toda uma leva de gentes condenadas a párias sem perdão. O difícil estar por aí dos leprosos sociais mendigando o que não se recebe sem bengaladas nas têmporas. Quando por isso me junto às cobras velhas citadas e mais umas outras. A convite de Voltaire e do Marquês de Sade, a comungar dos manjares intelectuais e artísticos antes das cicutas que outrora trouxeram alívio aos porcos muito pertinentes. Me abraço à militância com esses velhos mestres, como que numa horda unida para também agredir, sem ter outra escolha - no caso de ser atacado. Eu que me vejo a ser punido por ser aberração do tempo, então mordo acompanhado por matilha. Por entre os gênios da História, que passaram a pão e água nas mãos dos bonitinhos feitores uniformizados, andaram Morus a anarquizar; Maquiavel a maquinar; e Gregório de Matos - o Boca do Inferno - a resmungar. E ando sem companhia nas vielas do relógio, que não a presença desses mortos que nunca morrem, frustrado, sim, infeliz, também - e obviamente - , enxergando só crendices em contraponto à lógica, sentindo o cheiro da burrice que limita todos ao comum... Ainda rindo das abobrinhas acerca de mim mesmo, como que sem conhecerem-se a si, sabem da minha pessoa e não sabem nem quem são as próprias mães. E me dizem, como disseram a Kant, que não gostam de mim pelo que sou, e respondo que sei mas não me alardo, enquanto todos dão importância ao que digo, embora me odeiem. Então me perco em elucubrações, solitário na escrivaninha, acompanhado pela nata da humanidade, homens todos do século passado para trás, homens todos imunes ao tempo, sábios sentadinhos nas prateleiras, sussurrando aos meus tímpanos palavras incontáveis mas preciosas, dividindo comigo o que não dividem com o resto, unindo-se a mim, numa gangue imbatível e destemida, incentivando-me a me agarrar na solidão tão mais querida e agradável que as más companhias as quais não me tragam nem com cachimbo nem com filtro.

Só se Ofende, Quem se Ofende


Ué, era só o que faltava... Publiquei um texto há algum tempo (até bem antigo, escrito à mão durante uma viagem de ônibus), contando um ocorrido com um conhecido, e as pessoas leram, tiraram suas próprias conclusões, e algumas tomaram para si como ofensas. Não citei o nome de ninguém, nem apelido, nem codinome... Nada. Nada que identificasse especificamente qualquer um. Os únicos pseudônimos aos quais me referi foram os que particularmente esse amigo costuma chamar a um determinado indivíduo (que também teve sua identidade preservada). Casualidades parecidas, às vezes acontecem. Mas vamos com calma. Para o bom entendedor, meia palavra não basta, não! Para o bom entendedor, aquilo que ele acredita não significa que necessariamente seja. Nossos sentidos muitas vezes nos enganam. E a razão, também. Espero estar errado quanto à minha ideia de que uma certa pessoa veio a se convencer ferrenhamente de que eu estava a falar dela. Não quero acreditar que a mesma se manifestou publicamente num tom de assumir-se ser a personagem da trama! Tomara ela não esteja se identificando com as pessoas da paródia em questão. Mas quem se identificar, que procure não se expôr. Tadinha, tão queridinha... Confesso que me senti um tanto mal por isso. Mas quem se assemelhar, jamais poderá ameaçar a minha integridade! As pessoas subjetivam o que observam, concluem absurdos, e reagem com medidas extremamente reprováveis. 

Não é a primeira vez que me incomodo por causa do que escrevo. O que está acontecendo: os sujeitos se ofendem com expressões sem direcionamento específico, e tornam-se agressivos com palavras (se der sorte) e/ou com violência física. No meu caso, temo mesmo, a segunda opção. Vocábulos não me perturbam. Se me identifico com algo que escrevem e não venho a concordar, replico com humor e risadas. Só que na nossa sociedade, parece que o humor continua proibido. O sarcasmo está sendo perseguido implacavelmente, resultando no banimento de pessoas espirituosas, as quais dão vida à própria vida. Tem sido comum vermos o ostracismo daqueles que riem da própria tristeza; risos esses que são confundidos com o deboche ao sofrimento de outrem. Mas são as coisas da vida. Às vezes temos que arriscar o couro. 

Francamente, não estou arrependido de ter publicado esse texto. Estou chateado por tê-lo apresentado onde o público não é apto a lê-lo. Estou um tanto irritado com a minha ingenuidade de pensar que as pessoas (em sua maioria) estão prontas a depararem com certas ocasiões. Haja vista que existem coisas que irão desagradar a todos, isso não quer dizer que não devam ser ditas. Quem vestir carapuças, é porque realmente é miolo mole. Por isso, já deixo avisado que continuarei escrevendo e divulgando. Ironia e escracho, são coisas que sucedem. Admiro o pensamento de que humor permanente é sinônimo de inteligência extrema. E quando se manifestarem, cuidem para não se mostrarem tão patéticos quanto o Agnaldo Timóteo chorando na votação municipal...

Um Amigo me Contou...




Um amigo me contou de uma ocasião em que foi ao aniversário de um amigo dele, o qual não visitava havia algum tempo. Como fazia quase um ano inteiro que não se viam, meu amigo chegou um tanto encabulado na festa. Disse que não tinha um centavo no bolso, esquecera-se de aparar a barba, projetava uma espinha enorme na testa, e uma dor de barriga o incomodava desde de que atravessara portão de casa.

A família de seu amigo - e de sua esposa - estava presente. Até as mulheres eram grandalhonas (uma delas lhe cumprimentou com dois beijinhos dando-lhe "caradas" violentas em suas bochechas), por isso, ele ficou um pouco desconsertado durante a primeira hora da comemoração. Não queria parecer abusado, então, de início, bebeu pouco por não visitar a geladeira frequentemente. 

Ele começou a se sentir mal, numa angústia sem explicação, não conseguia entender o motivo de seu pequeno sofrimento, então, passou a ser mais cara-de-pau e pedir que lhe buscassem cerveja, para aliviar a ansiedade. De repente, notou que seu amigo e a mulher dele saíram de casa e foram até a rua. Meu camarada não quis olhar para baixo da sacada - pois estavam no 5º ou 6º andar de um prédio - porque não tinha curiosidade de saber o que aquele casal havia ido fazer na calçada. 

O tempo foi passando e nada de os dois voltarem à confraternização. No peito de meu amigo, a tensão não cedia. O papo rolava entre os presentas na varanda, mas ele nem mais prestava atenção, de tão nervoso. Ele continuava incomodado com algo indescritível, e estava tão ansioso, que ironicamente até sua dor de barriga passou. Me contou, depois, que não fazia ideia do quê lhe perturbava. Até que resolveu olhar para baixo e tentar descobrir o que se passava na rua. Disse que um gelo em seu estômago o fez corar quando percebeu que uma ex-namorada sua - a que mais lhe marcara - estava lá falando com seus amigos, acompanhada de seu novo namoradinho, o qual meu amigo costumava chamar de "barata tonta com miopia exageradamente denunciante", ou algo do tipo. Ele não quis olhar por muito tempo, evitando qualquer saudade e sofrimento, mas, contou que uma coisa o impressionou. Relatou ter ficado embasbacado que a guria continuava gorda e com aspecto de fedorenta, tipo com cara de encardida. Quando ela estava com ele (e eu bem me lembro disso), não costumava ter problemas com a aparência da tal. Pelo contrário, dizia-lhe muito bonita. Eu, particularmente, achava-a bem gostosa, e por conta disso, falei para ele que não dissesse aquilo dela. Quanta grosseria irônica. Dizer com um riso sarcástico que a mulher fede. Com uma represália amistosa, lembrei-lhe do bicho feio que era, no que ele riu, respondendo: "Que homem não é?".

O casal de amigos voltou, sozinho, pois, nas palavras de meu colega, de certo sua ex e seu namorado mosca-morta (outro apelido) não quiseram ver sua cara insuportável. Mas seu amigo trazia na mão direita uma garrafa de um belo uísque com o qual fora presenteado por aqueles dois. Já estava fincado bem bêbado - me assegurou - que não passava outra coisa em sua mente, daquele momento em diante, que não fosse provar uma(s) dose(s) do fino trago. Queria ter o prazer de gigolear a antiga amante novamente, fato que ocorreu durante todo o seu romance com a dita. 

Não aconteceu de tomar o uísque venenoso, mas foi atrevido em pedir. A noite rolou divertida, e ele se sentia mais tranquilo ao pensar que não tinha perdido grande coisa para o "surfista calhorda" (mais uma alcunha): "A moça estava um caco...". Bebeu todas, e foi cambaleando para casa. Mas estava de certa forma radiante, e antes de pegar o rumo de casa, passou em um outro amigo para contar-lhe a respeito, mas o mesmo não lhe atendeu, depois de berros. Disse que achou que o cara estava drogado, enfim... Foi para casa e agradeceu (sei-lá a quem, ou a o quê) por ter se livrado de um "bagulho", tomou mais uma cerveja que tinha na geladeira, e dormiu sossegado...

Esse meu amigo é um verdadeiro nojo, um jaguara que nada vale... De qualquer forma, o admiro, pois o desgraçado sempre dá um jeito de, pelo menos, se convencer que é feliz...

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Nós, os Sapos

Não venham com essa cafonice de príncipes, a onda agora somos nós, os sapos... Estamos disponíveis para diálogos. E nosso alvo não são necessariamente as pererecas. Queremos tudo o que uma princesa pode proporcionar. Também aceitamos rainhas, condessas, duquesas, fadas e bruxas... Um recado para as vampiras: nem pensem em nos sugar, somos bastante venenosos. Somos exigentes quanto ao recheio - não mais nos satisfazemos comendo moscas...

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Para Sempre


Desse amor conquistado
Amor de duras penas
Sofrido e chorado... saudoso
Mesmo antes do início
Findado num eterno para sempre

Fomos choros de alegria
Amor meu, eu teu naquela hora
No tempo, fantasia, imaginar de tudo
Até a dor era bonita
Tu, tão bonita a me amar

Teu carinho tão caro
E eu paupérrimo a ganhá-lo
Inseguro, fraco e medroso
A te beijar com o que tinha
Só tinha amor naquelas horas

Quantos risos dei de ti
Da graça que te achava
Quantos risos deste a mim
Por graça que te ornava
Desse amor que só me lembra

Tanto amor tinhas por mim
Que o queria para mim, apenas
Tua atenção me era valorosa
Teu respeito me valorizava
Então o medo me assombrava

Meu ciúme era loucura
Temia até o passado
O coração se machucava
A razão te machucava
E tu buscavas ainda a cura

Inferioridade e angústia
Me tomaram a desespero
Mas teu colo tão querido
Aconchegava minha cabeça
Oca, por de certo

Saudades do teu sorriso
Supremo ante a idiotice
Do meu ego imbecil
O descontrole de um eterno tolo
Que hoje é só lamento

Sem contar as ilusões
De viver outros amores
E quis tanto a solidão
Tanto a "liberdade"
E agora te queria mais ainda

O desgaste da insistência 
A paciência quase infinita
Os vícios então implacáveis
Foram decisivos quanto a nós
Implicaram-te a decidir

Quantas foram minhas gabolices 
Fingindo para mim, ter força
Todas as risadas de escárnio
Dignas de nojo e desprezo
Por quem pensa que é melhor

Nem os sorrisos haviam mais
Os carinhos já eram raros
Da minha parte, fazia tempo
E os últimos suspiros de amor
Foram sob delicados lençóis

Tu tinhas que ser feliz
E não serias dessa maneira
Deitando ao lado de um adversário
Que de tanto amor, invejava-te
De tanto amar-te, irava-se

Foi quando virei inútil
Descartado inevitavelmente
Substituído por um mais apto
De natureza mais vencedora
Contrária à minha face decadente

Me encontrei em pesadelos
Em ansiedades noturnas
Vaguei pelos pântanos da loucura
Numa tristeza inédita
Por estares feliz sem minha felicidade

Dei-me o direito de sentir traído
Largado pelo meu apoio
Abandonado pela minha vida
E despertava em revolta
Esperando a catástrofe mover o mundo

Quantas vezes amaldiçoei-te 
Ensaiei em mente o que diria
A quem considerava hedionda
Se encontrasse adiante
Nas andanças por aí

Mas a dor já foi passando
Eu melhorando ao aprender
Dando tantas gargalhadas
Ironizando e escrachando 
Tão feliz, que o triste é lindo

Esquecer acho que não vou
Às vezes tenho alguma raiva
Mas hoje te daria um abração
Só que amanhã, já te odeio, de novo
Mas amar... amo-te sempre...

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Violência em Prol de Nada


A questão não é fazer campanhas contra a violência infantil. A questão é existirem manifestos contra a violência. Pouco adianta proteger as crianças, se seus pais continuam batendo e/ou apanhando. O que é preciso fazer é dar oportunidades às pessoas de não serem brutas, desde cedo. Não adianta colocar as crianças numa redoma de vidro, pois o vidro é transparente, e através dele, os filhos observam os adultos resolvendo seus problemas no tapa. 

É incrível - ou deveria ser - que ainda hoje exista no senso comum a ideia da beleza dos murros. Vez que outra, vê-se nas redes sociais a naturalidade de alguns ao postarem incentivos ao animalismo, em tom de humor. Quantos já divulgaram frases do tipo "ainda bem que não tenho uma arma, senão...", ou "tem gente, que só uma metralhadora resolve...". São esses mesmos que, próximos à data comemorativa dedicada às crianças (deixemos bem claro), espalham mensagens de amor e tolerância aos pequenos. Mas quando um pivete comete uma banalidade, caem de pau em cima do guri, exigindo que o mesmo seja punido como um adulto. O delinquentezinho deve ter ouvido sobre não maltratar as criancinhas. No entanto, viu nos adultos (e nas novelas) como se deve resolver delicadas questões.

Violência não tem graça. Nem com criança, nem com mulher, nem com velho, nem com homem... Nem com nada. O cachorro morde, o cavalo coiceia, o touro chifra, porque não conhecem palavras. Se as resoluções não acontecerem por meio de diálogos, as crianças protegidas na infância estarão arrancando dentes umas das outras quando forem adultas pois, quem não se deve agredir são as crianças, os alvos dos protestos contra violência...

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Carnívoros "Greenpeace"


Eu não sou vegetariano, pelo contrário, sou bem carnívoro. Admito que aprecio demasiadamente carnes de todos os tipos: bovinos, ovinos, aves, peixes, moluscos... Inclusive, tenho apreço mesmo pelas carnes mal-passadas (pingando). Mas, ainda assim, sou contra o maltrato aos animais. 

As "campanhas" vegetarianas vêm tratando o consumo de carne pelos seres humanos como algo não natural. O Homem é carnívoro porque há algo na carne do qual ele necessita para sua saúde. A humanidade não come madeira, pois sua biologia não carece. Do contrário, teríamos algo a mais em comum com os cupins. 

O fato de eu apreciar e comer carne não significa que seja indiferente ao bem estar dos animais. Sou veementemente avesso ao seu sofrimento. Eu como o material de seus corpos já abatidos, porém não os torturo. E com certeza me negaria a alimentar-me da carne de um bicho antes torturado. A questão de se os abatedouros submetem os animais a suplícios não tem a ver com aqueles que comem carne. Tem a ver com as ditas autoridades. Elas são quem tem o dever de fiscalizar se isso acontece.

Os animais, de qualquer maneira, morrem. E onde não há amadorismo e displicência, eles são muito bem tratados até o momento de seu abate (ora, até sua carne perde qualidade quando de seu sofrimento). E perecem de forma tranquila, mesmo se comparada sua morte por abatimento, com seu falecimento natural - de velhice, com a falência dos órgãos, pouco a pouco. A maior parte das brutalidades acontecem com bichos que nem estão no nosso cardápio, mas nas ruas, nos circos, nas exposições fúteis de mascotes - com as apurações de raças - , na confecção de cosméticos, e nesses rodeios patifes...

De qualquer forma, ainda acho nobre a luta daqueles que se abstêm de carne e optam por vegetais para evitar o martírio dos animais - ainda que muitos se alimentem de vegetais os quais tubérculos, são raízes, que, depois de retirarem-nos da terra, acabam por causar a morte de seres vivos, porque, sim, os vegetais são seres vivos, tanto quanto os humanos. 

Pode ser que minhas palavras pareçam um tanto frias, em se tratando desse assunto. Mas é preciso deixar claro que não necessariamente deve-se abandonar os hábitos carnívoros para se alegar contrário ao maltrato aos animais. Eu sou contra qualquer tipo de sofrimento - mesmo que façam parte de minha alimentação - quanto aos animais, os vegetais, e os seres humanos, que para mim não passam de animais à sua maneira...

terça-feira, 25 de setembro de 2012

O Inesquecível Santo Ofício

É sempre importante lembrar do detalhe sinistro que fez parte da história da Igreja Católica: a Inquisição. Pois ela só deixou de existir, quando os governos a proibiram. Quando onde havia reinos, os reis proibiram; quando onde havia impérios, seus imperadores o fizeram; quando onde havia repúblicas, ditaduras, seus presidentes e déspotas, respectivamente, passaram a não mais permiti-las. Existiu um momento em que os líderes do mundo disseram: "Chega, papa, de queimares pessoas vivas em fogueiras, depois de interrogatórios regados a fluidos humanos derramados em torturas, sob a ideia de tua infalibilidade e o nome de teu Cristo!". Hoje os dedos dos padres não alcançam além das páginas de suas velhas Bíblias, e no máximo, tocam o timão da inexpressiva Congregação para a Doutrina da Fé - substituta da antiga Suprema e Sacra Congregação do Santo Ofício, que anteriormente chamava-se Suprema e Sacra Congregação da Inquisição Universal, popularmente conhecida como Santa Inquisição... Atualmente, é isso o mais próximo que temos do velho e aterrorizante Santo Ofício. O que sobrou da Inquisição foi uma congregação que se limita a cuidar se os padres, as freiras e um ou outro fiel não andam cometendo quaisquer pajelanças e paganismos (ou surubas, ou pedofilias - vai saber...) dentro das igrejas, sacristias, seminários e conventos, a qual já teve como seu digníssimo prefeito o então cardeal Joseph Ratzinger, depois vulgarmente conhecido como papa Bento XVI, cuja visão sua - e de seus sucessores - do futuro parece ser a inevitável queda de sua milenar igreja e a erradicação de seu tato sobre as cabeças ocidentais, indo-se assim seus dedos e ficando seus preciosos anéis - esses últimos, muito úteis na idealização de um mundo menos miserável.

domingo, 23 de setembro de 2012

A Velha


Falei com a Velha, e a Velha escutou
A Velha deve ser mesmo sábia
Falei sobre um monte de coisas
E ela ali, com um olhar de sei-lá
Ouvindo o que eu tinha para dizer
Numa paciência de santo, de Buda
Numa paciência com cara de respeito
A Velha nada dizia, só observava
Mas era um olhar... de aconchego
Que me imbuía desabafos
Um pouco de piadas, também
Um tanto de vergonhas, de coragens
Bastantes tristezas e alguma outra coisa
Tal qualquer angústia vaidosa
Que só à Velha eu diria
A Velha que me deu confiança a falar
E eu já tinha visto a Velha
Mas nunca lhe dera atenção
E agora era a Velha que me escutava
Sem dizer qualquer palavra
O inverso de mim
Despejando-lhe vocábulos em muitas frases
Sobre amor e egoísmo
Sobre projeções e esperanças... planos
Frustrações escritas em poemas
Gargalhadas transcritas em canções
A Velha... me ouvindo gabar de belas rimas
Me ouvindo lamentar poemas inacabados
Poemas até a metade, até duas, três linhas
Poemas faltando duas palavras
Poemas sem rima e sem talento
A cabeça vazia em momentos inteiros
Cheia em períodos parciais
Cheia de fumaças e licores
Amores, risos, dores, gozos... gozadas
Que bom que a Velha surgiu
Por sorte a Velha será sempre nova
Acho que é o desejo da Velha
Parece que é o que seu olhar dizia
A Velha, agora melhor amiga
Mesmo que seja só na lembrança
Na minha memória falha
Sobre a qual também disse à Velha
Cuja imagem ainda está aqui
Velha Dona Própria Inconsciência...

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Crianças e Pesquisas: Fora da Política


Se utilizar de crianças em campanhas políticas é apelação. É coisa de quem quer estar no poder a qualquer custo. Ter esse desejo desenfreado de governar é no mínimo suspeito. Daí, aparecem as criancinhas, com suas vozezinhas no início do desenvolvimento, dizendo "meu pai vota no fulano", "minha mãe prefere o sicrano"... Sem ser duro com elas, que nem sabem o que estão fazendo - são isentas de qualquer papel de ridículas - , só se pode dizer: "queridinhos, pouco importa em quem seus pais vão votar. Escolhe-se um candidato pelo próprio poder de discernimento. Cada um é capaz mental e individualmente de fazer as escolhas sem depender da influência de outrem...".

Aproveitando o tema, uma coisa intrigante em períodos de eleição é a utilidade democraticamente positiva das pesquisas de voto. Qual é a necessidade delas, que não seja a mesma que a dos pedidos dessas crianças? A resposta só pode ser: manipular as faculdades dos pobres de mente. Controlar o poder de voto dos indivíduos que não ousam pensar por si. É o errôneo conceito de que democracia significa seguir o que o rebanho - que pensa sob as escolhas de um pastor - decide. O conceito das "maria-vai-com-as-outras". Isso também pode ser entendido como tirania: a Ditadura da Massa. Democracia é a defesa do direito individual sobre si. Pensando dessa forma, logicamente cada um é impedido de exercer sua liberdade até ultrapassar a liberdade alheia. Assim, da mesma maneira que ninguém pode me impedir de fazer de mim o que quiser, eu estou automaticamente proibido de violar o direito de autonomia de outrem. Pode parecer um tanto egoísta, mas naturalmente isso resulta num acordo comunitário...

Uns dirão que as pesquisas de voto servem para informar o eleitor de como está o andar da carruagem. Ora, pra quê saber? O que importa é o resultado. Sabemos que ao longo da história da democracia, a vontade da maioria não necessariamente significou a melhor escolha. Houveram tempos na Grécia Clássica em que foram os Tiranos os libertadores dos cidadãos, pois os eleitores faziam demasiadas más escolhas. Pouco ou nada interessa quem está em 1º, 2º ou 3º lugar; o cidadão escolhe pela proposta, não pela porcentagem. Isso não é como no futebol, que o clube com mais torcedores seduz por isso mesmo quem ainda está em cima do muro, por conta da vaga ilusão de se estar protegido em meio à maioria. A massa escolhendo o pior, dá prejuízo. É óbvio.

As pesquisas atiçam o comportamento primitivo que temos de seguir o bando. Mas talvez o que vem a diferir os seres humanos das hienas e dos cavalos, além da estrutura física e biológica, seja o controle das opções próprias que na nossa espécie cada indivíduo é capaz de ter. Logo, vamos deixar as crianças de fora disso. Não sejamos egoístas e corruptos ao ponto de transformá-las em marionetes desde cedo. E outra: deixemos de ser tolos e achar as coisas bonitinhas só porque vêm das vozes finas dos nossos filhos e dos filhos dos outros...

Julgueis e Sede Julgados


Jesus aconselhou-nos a não julgar para não sermos julgados. Não entendo. Como isso?! Qual era a intenção dele em nos orientar dessa forma? Eu já digo que sim, é preciso julgar. Julgar é pesar. Julgar é analisar, ponderar. Eu digo julgueis, julgueis e sede julgados. Sem julgamento, só há veredicto. Será possível chegar a conclusões sem medir pontos de vista e conceitos? Onde não há julgamentos, só existem verdades. Quem não julga é prisioneiro da verdade, e como consequência, só prevalecem a condenação ou a absolvição.

Quando não há julgamento, só há tirania. Determinar culpados ou inocentes é uma arbitrariedade um tanto despótica e vaidosa. Por que Jesus não queria que fizéssemos julgamentos? Para que restasse a apenas ele o direito disso? Não duvido. Ele se dizia ser a Verdade. Sem julgamentos, a palavra dele se torna incontestável. Sem julgamentos, não se pode evitar obedecer e servir. Mas pior que o julgamento de cada um, é o veredicto individual. É a conclusão relativa. E cada um pode entender como quiser ou como puder até mesmo o próprio Jesus. O que o torna também alvo de veredictos pessoais, restando a ele nossa mesma condição natural de réus sem sentença...

terça-feira, 18 de setembro de 2012

O Suicida e as Reações

As crises esporádicas de rebeldia do Suicida se davam porque o mesmo sentia-se jogado às traças. Em seu pensamento, era como se tivesse a ninguém, abandonado por aqueles que um dia haviam sido seus próximos; largado pelos que outrora foram seus amores. Descartado dessa forma, o Suicida estava um farrapo, ambulando em andrajos, nem mais banho tomava com frequência, a cabeleira sempre desgrenhada, e uns dentes que precisavam ser extraídos continuavam ali e entortavam dia após dia sua arcada dentária -  mas ele não ia a um odontólogo.

Em suas reflexões, sem dizer a ninguém, o Suicida sabia que era um inútil ante a maioria das coisas da vida. Ele era um cara daqueles que não sabia "se virar". O Suicida precisava ser cuidado, e chegou a ser, num passado saudoso, mas por reviravoltas da existência, as pessoas se cansaram dele que, apesar da magreza, virara um fardo pesado por seus hábitos esquisitos.

Todos queriam que o Suicida agisse em determinadas situações, o que complicava a coisa, pois o infeliz não sabia nem tentar. Seu espírito ficava inerte de fronte às ocasiões, numa impotência inevitável, e a reação mais natural era a vontade de se esconder sob as cobertas, apagar a luz, e padecer sozinho ali, numa ilusão de estar protegido. Entretanto, ele não expressava para quem quer que fosse sua consciência de não prestar para nada, porque percebia que era exatamente o pensamento dos outros sobre ele mesmo. E numa reação de auto-defesa, não dava o braço a torcer. Ao contrário, praguejava, gesticulava, agredia a todos com blefes venenosos, convencido de que não se arrependeria após o fim da turbulência. Mas depois do estouro, um remorso tomava conta dele, pois, ainda que fosse um inválido, tinha noção da violência de suas palavras.

A solidão do Suicida o consumia ao passar cada minuto. Tinha vontade de chorar, numa sensação esperançosa de aliviar a cabeça, que se mostrava prestes a explodir, saturada de tristezas. Contudo, não saía uma lágrima - a não ser que estivesse bêbado. Não bastasse o desamparo pela incompreensão, via-se sem rumo e expectativa. Parecia incapaz de se adaptar ao meio, não conseguia participar do jogo da tribo, era como se fosse um aborto do Universo, um legítimo peixe fora d'água. E apesar do desprezo que tinha de si como integrante do mundo, era vaidoso quanto ao papel que desempenhava no meio, o qual ninguém entendia. Então, numa última tentativa - se nada mais desse certo - de deixar seu tempero na vida sua e dos demais, seria o professor de todos dando uma lição dura com uma última ação de sua caneta e o seu derradeiro suicídio...

Lugar de Criança é Longe da Escola


Tenho saudades de ser professor. Gostaria muito de voltar a sê-lo. Me fazia bem estar com a gurizada, com a esperança do futuro. Mas acho que dificilmente me animarei a lecionar novamente. Sendo professor, tinha de encarar um dragão por dia - ou vários. Sem citar o famoso salário ofensivo, tinha de enfrentar o monstro do Sistema Educacional, com suas defeituosas burocracias, suas metodologias deformadas como aberrações docentes; tinha que me deparar com o que eu jamais imaginaria protestar contra quando da minha decisão em fazer parte da classe pedagoga: a Escola. Pois o que tenho para falar a respeito da minha experiência como professor é que a Escola não é um lugar de esclarecimento. 

Nos noticiários é comum vermos alunos depredando suas escolas, vandalizando-as, ateando fogo nas mesmas, agredindo professores... Isso não mais me surpreende. Entristece, mas é previsível. Eles odeiam estar na Escola. Eu também odiava, porque antes de ser professor, eu fui aluno, e detestava a ideia de ter que passar quatro ou cinco horas por dia trancado numa câmara de concreto ou madeira, sentado numa cadeira dura, em fila, podendo me levantar vez que outra para ir ao banheiro, sem poder ver a luz do sol, e tendo que ouvir uma conversa que não me dizia respeito saída da boca de uma pessoa que não fazia ideia do que se passava no meu mundo. Eu ia, porque era obrigado; porque meus pais mandavam; e meus pais mandavam, porque a Lei mandava. E quando eu fui professor, percebia que não era diferente com meus alunos.

Eu tentei agir de forma diferente na sala de aula. Minha ideia era dar liberdade à gurizada, porém liberdade é uma coisa proibida na Escola. Eu me indignava ao observar o corpo docente castrando, sufocando, abafando logo a natureza curiosa dos jovens. Faz parte da essência da humanidade a busca pelo conhecimento. Era exatamente isso que eu notava em meus alunos. Era evidente o gosto deles por saber das coisas que os rodeavam; por conhecer e entender os motivos dos acontecimentos em suas vidas. No entanto, como eu era professor de História, tinha de lhes informar sobre a Mesopotâmia. Tinha de lhes fazer aprender sobre Assurbanipal, sobre a teoria das Formas, de Platão; tinha de contar e fazer entender sobre coisas as quais ainda não lhes eram de mínima importância. Eles mal sabiam sobre a própria cidade em que moravam. Não sabiam sobre seu prefeito, o Governador do Estado, o Presidente da República. Eles não sabiam sobre o seu bairro, sobre o seu idioma. Eles não conheciam sua própria história...

Tive muitos problemas quanto aos alunos. Haviam dias que só podiam ser classificados como infernais. Então eu mesmo passava por ter atitudes desprezíveis para com eles. Quantas vezes explodi, gritei, ofendi, ameacei, humilhei por me sentir numa sinuca de bico? Pois não me sentia no direito de mandar neles. Achava que por maior que fosse minha capacitação, ainda assim nunca se pode saber o suficiente para obrigar quem quer que seja a fazer o que não gosta. Daí, entrava na sala de professores e os via lá, com aquelas caras de bunda, fofoqueando sobre os alunos, falando mal de seu caráter, sentindo-se injustiçados quando das vezes em que aprontavam para eles. Os alunos têm os professores como seus verdugos, como os inimigos a serem batidos. Por mais que se seja uma cara sorridente e bem humorado, os discentes têm sempre o pé atrás. Estão o tempo todo desconfiados, uma vez que têm medo dos professores. E, de certo, deveriam ter. Lembro-me muito bem da fala de uma pedagoga coordenadora dizendo a mim que eu não deveria ser amigo dos alunos. Que era claro a sua ideia da superioridade do professor na hierarquia escolar. E sem ousadia para dizer, só me permiti pensar que talvez fosse esse o motivo de a sociedade ter tantos delinquentes; rebeldes que não sabem rebelar, apenas ferir. Mas vez que outra, me atrevia a falar que "a culpa não é deles, é de nossa incompetência". Todavia, eles preferiam tapar os ouvidos. Se iludiam que era mais fácil. Talvez fosse mais fácil só reclamar.

A Escola não serve para ensinar a pensar. Não serve para fazer o indivíduo buscar em si as respostas, conhecer a si. Reclamando do conteúdo a um diretor, o mesmo me disse que eu não estava ali para fazê-los entender os rumos que a História tomou, mas para fazê-los obedecer. E é isso para o que a Escola serve: para que, pelo menos, a maioria saia dali bem adestrado, domado, obediente. Para que os indivíduos saiam dali sem questionar. Por isso, os professores enfileram e aprisionam seus rebanhos no brete escolar. Os amedrontam com suas desrespeitosas aulas de religião. Mas existem uns que não se acomodam. E saem trocando as mãos pelos pés. Esses, os mesmos que não saem da boca dos hipócritas na sala de professores; os perigos da sociedade; os reflexos da Escola. Então ser professor só me ajudou a concluir que lugar de criança é longe da escola...

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Viva os Jovens!


Não sou militante de nenhum partido político e não faço campanhas para quaisquer que sejam os candidatos, mas em Porto Alegre, torço pra Manuela D'Ávila. Tenho que deixar bem claro que não sou comunista, muito menos admirador de totalitarismos genocidas. Mas como o PC do B não pode se utilizar de gulags no Brasil, provavelmente, então, sua ideologia socialista tende a incentivar um equilíbrio social sem torturas e fuzilamentos.

Gosto da Manuela simplesmente porque ela é jovem. Simplesmente porque chega de os velhos governarem os destinos. O mundo é guiado por cabeças grisalhas desde que deixamos de ser Homo habilis; desde antes de passarmos a nos entender como humanos. E o mundo nunca foi lá um daqueles míticos lugares maravilhosos de se viver. Entretanto fala-se muito em renovação, e na hora de se eleger lideranças, lá estão sentados nos tronos populares os decrépitos papa-hóstias com sua vasta experiência no obsoleto.

Penso que precisamos de juventude para que possa existir alguma vida (inteligente) na política capenga da nossa sociedade atrasada. Basta dos conceitos caducos de certo e errado os quais os vovôs e vovós nos adestram desde que nascemos. Aquele papo de que velhice é sinônimo de sabedoria já tá tão antiquado quanto as dentaduras desses anciãos. Os jovens são o futuro. Os velhos tentam manter o mundo no tempo em que eram jovens, o que pode significar um passado distante, e pensamentos medievais.

Manuela D'Ávila parece ter vigor. Ela exprime a vitalidade necessária para fazer com que se tornem apenas lembranças os pensamentos e atitudes anti-diluvianos dos fósseis calvos que lideram a massa. Pois os dinossauros, como já foi dito antes, ficam mantendo o passado no presente, evitando assim que haja um futuro...

O Vilão e a Catástrofe

Passando pelos canais de TV, houve um que o Vilão estacou e se ateve. O Vilão chegara a um ponto que era impossível não ficar alerta a seu respeito. No seu anseio por dinâmica na vida, passara a devanear com situações calamitosas que atingissem a sociedade. E não somente a grande massa social na qual vivia. Que acontecessem nos pequenos grupos, dentro dessa sociedade. Concebendo pensamentos um tanto maquiavélicos, nem sua família era poupada: lhe ocorria de vez em quando a morte de um parente em seu pensamento... só para ver a movimentação de seu pessoal. Não que realmente desejasse essas coisas, mas sentia o regozijo de imaginá-las.

Então não é de se surpreender que a emissora de televisão que lhe chamou atenção transmitia ao vivo uma notícia aterradora: no centro da maior cidade do país, um vazamento de gás ameaçava causar uma grande explosão subterrânea, e consequentemente ocorrer uma considerável tragédia.

As ruas afetadas começaram a ser evacuadas imediatamente, e quando disso, o Vilão deu um sorriso de canto de boca. Pois ele achou interessante a possibilidade de um estouro realmente estremecer o concreto. Não haveria pessoas ali; ninguém iria se ferir; todos estariam a salvo. Era só para ver as estruturas chacoalhando.

À medida que o temor ia crescendo na voz do apresentador do programa, também ascendia a impaciência do Vilão. Nada acontecia! "Que demora!". Decidiu então fazer um rodízio por todos os pobres canais de sua televisão aberta, na esperança de voltar àquele e deleitar-se com o caos entre os "Homens de Deus".

Até que não foi tão ruim pois, numa das emissoras, era noticiada a internação do vice-presidente do país, num hospital, em estado regular. Pela cabeça do Vilão não podia passar outro pensamento que: "Tomara que morra!". Parece que era suficiente para saciar a malevolência do Vilão, não é? Não, isso era cotidiano. Isso o Vilão almejava o tempo inteiro. Sem sentir remorso algum, já era com naturalidade que o Vilão torcia pela desgraça dos políticos. 

O Vilão voltou ao canal de origem, com pressa, receoso de ter perdido o espetáculo. Entretanto, nada de magnífico tinha se passado. A única novidade era que, segundo o âncora, os agentes encarregados de resolver o problema empenhavam-se em convencer os transeuntes curiosos de se afastar o máximo que desse da área de perigo - o que não ocorria.

Pois bem, era o momento em que o Vilão bradava em seu íntimo que aquela gente futriqueira fosse pelos ares com todo o resto. Ora, sua sede, semelhante à do Vilão em ver o circo pegar fogo, cegava seu raciocínio, o que poderia ser a única coisa a lhe preservar a vida num momento como esse. O Vilão estava em casa, esparramado na poltrona, a milhares de quilômetros de distância do perigo. Ele teria motivos para rir. Aquela turba, não. Iriam virar pó antes que pudessem contemplar qualquer show de fogos.

Mas o povo não explodiu, nem nada mais além da decepção do Vilão ao vir o tempo a passar, o marasmo dominar a reportagem, e depois de um momento, surgir a informação de que tudo estava sob controle por parte dos responsáveis pela segurança.

Restou ao Vilão ficar sereno, pensar na vida (ou na morte) e no tédio característico do cotidiano, pulando de canal em canal, com o controle remoto quase caindo da mão de tanto desleixo, e refletir sobre sua existenciazinha que rumava cada vez mais, e inevitavelmente, pelo caminho medíocre da passividade chata comum entre as pessoas ao seu redor. Contudo, de repente (sentidos em alerta!), o coração palpitou de esperança ao ouvir a voz de um outro apresentador noticiando o estado grave de saúde, não de um político, mas de uma velha assombração da TV, com oitenta e tantos anos, agora com o pé na cova... e o sorriso de canto de boca novamente na cara do Vilão expressando de forma evidente seu êxtase interior foi automático: "Agora vai!".

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Mandar em Mim


É mesma a nossa tristeza
Por motivos diferentes
Felicidade é ver beleza
Em controlar a minha mente

Se é amarga a liberdade
Adocicado meu direito
É salgada a tua vaidade
Azedos cárcere e leito

Infelizes somos nós
Cada um quer ser feliz
Entoar gutural voz
Governar o seu nariz

És mais triste por tentares
Tocar Fá quando se é Si
Mente, prédio, mil andares
Sobe e manda só em ti

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Gostosa


Uma mulher não é gostosa apenas nas coxas, na bunda, nos peitos. Uma mulher é gostosa no pescoço, na pele, na cor - na textura da pele - , na carne... Os dedos das mãos, o peito dos pés, a boca... ahhh, a boca... Quando uma boca é bonita... Quando cada parte individual do rosto tem sua sensualidade; o cabelo (cabeleira, cabeluda, escabelada...)... O contorno dos ombros...

Uma mulher que, basta a visão para sentir seu cheiro, seu toque, a vibração, o gosto, isso é uma mulher gostosa. Mas gostosa, mesmo, é a que tem olhar de gostosa (é preciso fritar um pouco de cérebro para descrever). É um olhar enigmático. Beira o sinistro. Ora, chega a dar um gelo no estômago do cidadão, quase que uma falta de ar. Ela assusta, mas, tipo o demônio, atrai hipnoticamente, chupa a atenção do cara, fazendo com que, mesmo por uma fração de segundo, o sujeito se perceba completamente subjugado; submetido à expectativa da surpresa - "preciso entrar ali, tenho que descobrir o que há lá dentro! Alguma coisa há.".

E a impressão que dá é que nem todas nascem ou são pré-dispostas a serem gostosas. Algumas parecem aprender ao longo do tempo. Ou todas têm na sua natureza a gostosura. Mas o que acontece fora das individualidades é determinante, e muitas vezes sem um mínimo de controle. Pode ser que o número de mulheres gostosas fosse bem maior que o vigente, mesmo sem ter que dar uns goles em algo bem forte. Ou é o homem que, embriagado pela sua sanidade idiota, necessita de tais artifícios para notar o simples que torna uma mulher gostosa em sua plenitude: a capacidade de presenciar a gostosura sem ser imaginando o que está sob as calças e dentro dos bolsos...

Peripécias da Rede Bobo de Televisão


Será que a Rede Bobo vai mais uma vez dar um jeito de manipular a cultura e a arte do Brasil? Tá surgindo um novo programinha de música que vai contar com uma turminha da pesada do cenário musical tupiniquim. E na Bobo tudo é dito no diminutivo: "programinha, turminha". Ora, eles gostam de pensamento pequeno: pensamentinho.

É certo que isso vai influenciar diretamente na bola de massa que constitui seus expectadores. Outra vez, a rede de televisão com maiores poderes divinos do país vai orientar direitinho suas marionetes para o que elas devem gostar. Mas a coisa começa já antes da estreia do troço. O nome do programa é em inglês, consolidando a já velha tradição Bobal de colonização norte-americana (porque nem britânica é) da cultura brasileira. Contudo, é corriqueiro observar o "Império Marinho" frisando acerca do orgulho de ser brasileiro. De certo, um dos motivos de ser vaidoso quanto à pátria é o abraço ao estrangeirismo. Sabe-se lá se temos pátria... Tudo bem que isso seja ligado à globalização, mas aí fica parecendo incoerente falar em orgulho nacional - ficaria melhor orgulho mundial: "Orgulho em ser do mundo".

Mas o Brasil é a Bobo. Aqui, o 4º Poder não é a mídia, mas um daqueles três idealizados por Montesquieu. A Rede Bobo é o 1º Poder, uma vez que é a única mídia, tendo como seus divulgadores, outros canais que lhe falam tanto mal, porém que acabam por agir como filiais suas. Os pauzinhos que ela mexer ditarão o curso do país. E o entretenimento destinado a seus brasileiros fieis é essa arte que os dopa, apresentada por meio de programinhas como esse - de nome anglo-saxão com o devido correspondente em português - que, com seus pastores bem catequizados, doutrinam o gosto da população como o fazendeiro que escolhe o alimento das vacas.

Bobo e você, tudo a ver!

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Origem noutro algo...


Tudo tem uma origem noutro algo
Como a grossura de personalidade
Que pode nascer da timidez 
Filha do medo
Mestre da valentia
Trapaceira da vida
Usurpadora da morte
Libertadora do eterno...

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Cerração e Dona Florinda

Assistir ao programa do Chaves nunca foi lá meu passatempo preferido. Mas não tendo nada para ver, é o que acaba sobrando. Só que sempre me causa um certo desconforto. Acho que é porque me traz a lembrança duma velha sensação: quando era guri, só assistia o Chaves em dias de chuva, dias nublados, lamacentos. Estava louco pra sair de casa, brincar com a galerinha, subir em árvores, apertar campainhas e sair correndo... Porém tinha de ficar inerte no sofá, vendo TV... E qual o melhor entretenimento? Chaves, claro.

Toda vez que assisto Chaves, vem uma cerração à minha cabeça. Uma neblina toma conta do meu humor. Uma deprê se instala no meu momento. Entretanto, fico ali, olhando, e até dou umas risadas. É então que me toco de que não é só a névoa que me aborrece. Em verdade, não suporto aquela velha autoritária, sem educação, grossa, gritona, violenta, hipócrita, estúpida, feia, muito feia, que atende pela alcunha de Dona Florinda, com seus bobs ridículos naquela cabeça escandalosamente grande! Eu tenho pavor da Dona Florinda! Quem ela pensa que é pra governar aquele cortiço, se intitulando parte da elite social? Aquela bruaca egoísta, que vive humilhando não só o Seu Madruga (o personagem mais coerente e crítico do seriado), mas também sua filha e o próprio Chaves, mimando aquele filho que acaba por se tornar um mau caráter – ainda que sem culpa nenhuma – sob a tutela dessa mãe asquerosa. Ela poderia curar seu insuportável recalque com uma boa noite de sexo. Mas a cretina só tem olhos para aquele pamonha do professor Girafales: um banana de três metros de altura, caretão, conservador e moralista – provavelmente católico – que não é capaz de dar um “pára-te quieto” na sua amada ranheta. Só o que aquele otário-mor faz é passar a mão nos bobs piolhentos da megera, defendendo-a quando é ela a agressora.

Que mensagem positiva temos, quando não dá pra ter esperança de que a monstra baforenta (pois ela tem aspecto de quem tem um péssimo hálito) vai ter bom senso em não esbofetear a cara do vagabundo preferido da minha infância? A gente nem pode esperar que ela pare um pouco, ponha o dedo na caixola, e perceba que é ela o pior exemplo para seu filho. Aí, pois, fico ali, em frente à televisão, borocoxô, numa mistura de sentimentos conflitantes de tristeza pelo dia nublado – mesmo que faça um dia ou uma noite lindos – e revolta e impotência por deparar-me com o injusto regozijo de uma prepotente senhora que sempre sai por cima da carne seca...

Prefiro...


Prefiro o caos, à escravidão
Prefiro o lixo, ao tipo fútil
Prefiro o podre, ao formol
Prefiro feder, a inexistir

Prefiro o homem, à galinha
Prefiro a mulher, ao diamante
Prefiro o Rock, à partitura
Prefiro Deus, à Bíblia

Prefiro a jaula, à ilusão
Prefiro a forca, à afonia
Prefiro a chuva, à fumaça
Prefiro a fumaça, à lucidez

Prefiro a dor, ao sufoco
Prefiro o choro, ao engasgo
Prefiro a árvore, ao machado
Prefiro o corvo, à carniça

Prefiro a nuvem, ao céu
Prefiro a lua, à penumbra
Prefiro a morte, à moléstia
Prefiro a liberdade, à vida

Prefiro a canção, ao hino
Prefiro a voz, à sinfonia
Prefiro a arte, ao maestro
Prefiro a cor, ao pintor

Prefiro o cadáver, ao assassino
Prefiro o pé, ao soco
Prefiro a porta, ao cadeado
Prefiro o ódio , a fingir amar

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O Mostro SIST


De quando em quando, retiro - pra mim mesmo - o que costumo dizer sobre os políticos. Me permito até mesmo pensar que tudo de podre que acontece nesse círculo, não necessariamente é consequência voluntária e/ou indiferente dos indivíduos em si. Liberto-me do triste conceito de corja a que estou acostumado a ter em se tratando desses infames representantes da Sociedade. E me atrevo até a ser otimista pensando que há, sim, aqueles que pretendem fazer a diferença. Todavia, esses nada fazem; nem têm poder algum; são os mais fracos, inúteis, derrotáveis, e por fim, sufocados até a morte de suas vidas públicas.

Muitos dos que adentram o vale sombrio da política, carregando suas instáveis velas para tentar iluminar a penumbra cavernosa que o assombra, têm suas chamas facilmente extintas pelo sopro debochado e leve do tenebroso monstro que habita esse covil. Mas o bicho pernicioso ainda lhes dá uma tocha embebida em neon para que possam andar sem tropeçar no breu e cair no coma da passividade. A maioria infelizmente acata; os demais, vão em queda ao precipício.

Não. Talvez não sejam os políticos que mereçam o cadafalso. O inimigo é a Política. O Sistema é a verdadeira praga assoladora da esperança. Nossa Política é um organismo vivo antigo, que ao longo de sua incontável idade se fortalece e se torna cada vez mais complicado de se erradicar. Nossa forma de cidadania remonta à política romana, a qual sobrepujou a grega, e aliada ao governo dos padres da Idade Média, se concretizou na sujeira portuguesa, essa, herança que desfrutamos hoje. 

Tantos estratagemas, joguetes e artimanhas engastados na tradição política que nos governa, que é aparentemente impossível que o pensamento de seus atores se voltem para apenas o que deveria realmente estar em primeiro plano: o povo. E os indivíduos de boa intenção - calouros sonhadores e autoconfiantes - cheios de ideologias heroicas em prol de um bem comum, passam como que inexistentes em meio aos que são alimentados pelo demônio do costumeiro. Pois esses últimos nutrem o gigante molestador, na infantil ilusão de que alimentam-se a si mesmos. Mas desgastam-se em batalha; estressam-se com os adversários; dormem com um olho fechado e outro aberto; embranquecem e perdem suas cabeleiras; não têm paz...

A quem recorrer? Eu diria que aos artistas - embora esse termo já esteja bastante deturpado. Pois os artistas oferecem o óbvio: a Arte. Nosso sistema político é um espírito obsoleto calcado na velha ideia de uns poucos governarem a todo um resto. O que já está mais do que fora de moda. A onda agora é cada sujeito entender do que realmente precisa. É conhecer os próprios gostos e opiniões, individualmente. É ser governador de si. E a Arte é, a meu ver, o melhor caminho para se chegar a tal condição. Então eu rogo aos artistas, que se manifestem. Que bradem alto para que o maior número de surdos possa ouvir e acordar.

É possível que cada político não passe de um artista sem talento, que, sem perceber, serve ao Sistema como o cão bajula ao dono. Por isso, de quando em quando, retiro - pra mim mesmo - o pensamento asqueroso que tenho dos políticos em si. Mas, de quando em quando, e pra mim mesmo. Então, não contem a ninguém...