quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Canários de Cuba

Os admiradores de Cuba nos mostram, periodicamente, um dado interessante e realmente louvável acerca de um aspecto das condições de vida de seus habitantes. Cento e quarenta e poucos milhões de crianças morrem de desnutrição em todo o mundo, e nenhuma é cubana. Pois bem, a ração lhes é dada. De fome aquela gente não morre. Como um canário, o povo de estimação de Fidel Castro recebe alimentação, água, cuidados médicos e uma moradia, um lugar onde se deve viver. Porém, assim como o pássaro canoro, em Cuba a população deve cantar conforme a música. Suas vozes devem ser afinadas e agradáveis aos ouvidos de seu mestre, pois, nada mais justo que agraciar aquele que lhes dá o alpiste de cada dia, com aquilo que ele deseja ouvir. Então os cubanos pulam, cantarolam felizes, voam de poleiro em poleiro, tudo isso dentro dos limites de sua pequena e enferrujada gaiola. Entretanto, semelhante ao canário estragado, aqueles de voz estridente e de música sem harmonia têm seu bico cortado, ou são eliminados de várias formas para que não influenciem a canção dos demais. Mas esses são poucos. A maioria se mostra feliz, com sorrisos suspeitos no rosto, bajulando, se submetendo e agradecendo ao seu bondoso dono que, além de tudo isso que generosamente ele lhes dá, ainda lhes priva de ter conhecimento dos fatos tenebrosos do mundo de fora... Mas a pergunta que não quer calar é: se a gaiola for aberta, o canário irá voltar?

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Um Cara Maduro

Vou parar de sair à noite. Vou virar um cara maduro. Vou parar de pensar em festas, em diversão, não vou mais gostar de me divertir... Já tá na hora de parar com a cervejada em dias de semana; tá na hora de dar um tempo pra folia. É hora de pensar no trabalho, nas responsabilidades, em obter o sucesso financeiro... É hora de batalhar para comprar um carro e, depois de muito suor derramado, construir minha casinha pois, é o momento de arrumar uma namorada para noivar, casar, pôr uma aliança no dedo e planejar uma vida para criar os filhos. Não vou mais me juntar aos amigos durantes as tardes quase todos os dias para trocar ideias filosóficas, falar sobre poesias, dar gargalhadas. Não. Não vou mais ser um sonhador. Quero ser um cara maduro. Vou pôr os "pés no chão"... Meu objetivo será o foco na profissão, investir a vida na carreira. Isso sim é importante. Chega de me deleitar com a música, que me proporciona sensações extasiantes: é devaneio! Vou cortar o meu cabelo, já tá na hora! Já ta mais que na hora de eu me vestir como “homenzinho”. O tempo de pensar num mundo melhor passou. De agora em diante, irei me conformar que a vida é desgastante, sofrida. Não vou mais protestar contra opressões e ordens arbitrárias. O certo é engolir os sapos, o certo é se submeter. É assim que funciona! "Sempre foi desse jeito". Vou aprender a detestar o ócio, o qual me deixa prazerosamente confortável. Vou deixar de ser um vagabundo, para ser um homem decente, para ser um cara maduro. Não mais vou sonhar, almejar, querer, imaginar... Me privarei de apreciar as artes. Vou sair do mundo-da-lua. Serei um cara sério e respeitável, trabalhador. Vou abrir mão de tudo o que me faz bem. Todo mundo faz desse jeito. E, me inspirando nas pessoas, vou fazer como todo mundo faz: vou fingir que sou feliz... Vou ser um cara maduro...

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Ilustres Filhos

Lendo sobre a polêmica acerca da mudança do nome da Avenida Presidente Castelo Branco, em Porto Alegre, lembrei-me de uma vez que entrei na prefeitura de Taquara e (não me vem à memória o que eu fazia lá) me sentei próximo à entrada do gabinete do prefeito. Não tendo o que fazer, sem companhia, olhando pra o teto e para as paredes, percebi um quadro pintado à mão, de uma figura pomposa e severa. Logo abaixo da moldura, uma plaqueta de metal identificava o dito cujo. Dizia assim: “Gal. Adalberto Pereira dos Santos, Vice-Presidente da República, ilustre filho de Taquara”.

Aqueles que não têm conhecimento de quem foi, olham pra aquele retrato e provavelmente sentem orgulho de serem conterrâneos de uma personalidade política tão importante da história do país. O que eles ignoram é que Adalberto Pereira dos Santos foi um dos líderes e responsáveis por um dos piores períodos da república brasileira: ele foi o Vice-Ditador do mandato de Ernesto Geisel (1974 – 1979).

O que me chamou a atenção foi o fato de estarmos em uma época na qual se fala tanto em Democracia, as ditaduras estão tão fora de moda, a liberdade de expressão é tão amplamente almejada, e na cidade de Taquara, quase de fronte à porta do prefeito, uma homenagem a um déspota... Por aqui, me parece que basta apenas ter estado no poder e já se é digno de honrarias. Tanto faz se o sujeito foi um tirano facínora, perseguidor de intelectuais e artistas contrários a ele, carrasco do próprio povo... Isso parece não ter importância.

Fico imaginando percorrer, um dia, a cidade de Braunau am Inn, no norte da Áustria, e visitando sua prefeitura, encontrar em frente à sala de seu prefeito uma pintura identificada por uma plaqueta de bronze: “Adolf Hitler, Füher do III Reich, ilustre filho da cidade”... Aqui no Brasil, em Porto Alegre, o vereador Pedro Ruas propõe a mudança do nome da Avenida Presidente Castelo Branco para Avenida da Legalidade, homenageando logo um movimento heróico protagonizado pelo então governador do estado Leonel Brizola, que atrasou por cerca de três anos o golpe militar e a subida dos crápulas ao poder e consequentemente o sofrimento da população. Quem sabe aqui em Taquara devamos tirar o quadro do ditador e, caso não se encontre um único tipo a ser homenageado na cidade, deixemos sem quadro algum. A parede é mais bonita que aquela carranca.

Francamente, na minha opinião, a maioria daqueles quadros de prefeitos taquarenses não estaria ali. Mas isso é canja pra uma outra oportunidade....

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Adeus ao Otimista...

E eu sendo otimista
Agarrando-me em fantasias
Projetando futuros vagos
Esperando sorrisos impossíveis

É melhor fingir pra mim mesmo
Viver entre meus elfos
Dançar com minhas fadas
Chorar junto aos poetas

Existir no meu cosmo
Onde Homens são Homens
Cavalos são cavalos
E mulheres amam homens,
não cavalos

Quero entrar em meu autismo
E quando o fizer, não sair mais
Quem me der um último adeus
Lembrarei pra sempre, em meu éter