quinta-feira, 10 de novembro de 2011

De um Amante Glacial

Ai esse calor... Calor horroroso; sensação insuportável de impotência. Essa temperatura sólida como um cobertor imposto pela natureza indiferente. Um mormaço que torna os indivíduos desonrados por não terem reação. Esse calor, senhor o qual torna as vítimas, escravos... A decadência existencial representada num bafo ininterrupto... Os cães vomitando as próprias línguas; os gatos esticados em lajotas sob a sombra. Mas nada, nada adianta. Até a sombra queima nesse calor; mesmo a noite é castigante. A nudez é inútil. A água que cai no corpo é quente. Se é fácil levantar cedo da cama, há adiante um dia complicadamente infernal a se suportar. Banho de rio ou de piscina, nada supera. O suor escorre debaixo d'água. Hajam perfumes para mascarar a cara humana que é revelada sem tais artifícios...
Ai que saudades do Inverno... Amável conforto romântico que os ventos gelados proporcionam, aproximando os amantes um do outro. Estação que limita o sol a apenas nos agradar. E quando o frio se aspresenta rigoroso, mantas, toucas, luvas e casacões acariciam os elementos, dando-lhes beleza e erudição. Os mesmos cães e gatos mostram-se pomposos e felpudos. O fogo na lareira, o cheiro da madeira queimando - madeira queimando, não seres vivos! E a comida é mais saborosa quando feita no fogão à lenha. O apetite é reforçado; come-se com mais prazer. Bebe-se com mais prazer, e a ressaca do dia seguinte não é tão sofrida. Ai Inverno, que não podes permanecer por aqui o ano inteiro. Que ao menos tu respingues teus prazeres na face severa do Verão, mostrando-lhe que estamos subjugados a ele apenas momentaneamente, e que tu voltarás inevitavelmente, nobre e fausto como o teu antagonista não o pode ser...

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