segunda-feira, 19 de julho de 2010

Os Escravos e as Drogas

Aqueles dois eram completamente diferentes. A não ser pela altura: ambos eram de estatura baixa, ele era apenas alguns centímetros maior que ela.
Eram de mundos bastante distintos. Ela tinha um caso com um homem bem mais velho, e rico. Esse homem veio a morrer algumas semanas depois de os dois se encontrarem. O velho não tinha filhos, portanto, ela herdou parte de sua fortuna.
Ela já era acostumada com a vida abastada. Ganhara um carro "zero" do rico falecido, e vivia pendurada de ouros. Frequentava a alta sociedade, bons restaurantes, viagens... E sem falar que era uma mulher linda!
Ele, era o oposto. O legítimo "chinelão". Apreciava Rock antigo, rodas de violão, fumava cigarro (com e sem filtro), e, nos fins de semana, exagerava na bebida. Qualquer bebida. Lia Voltaire, Platão, Aleister Crowley, e à noite gostava de assistir aos comentários do Arnaldo Jabor.
Ao contrário dela, ele não tinha o estereótipo de beleza. Como já foi dito antes, era baixote. E, para piorar, o porte físico era "pele e osso".
Talvez, por possuir esses gostos, e por ser o que era, o cara constantemente revoltava-se com o sistema no qual era obrigado a viver.
Ela já era mais acomodada, por conta das vantagens sociais (e biotípicas) que desfrutava.

Mesmo assim, com tudo isso, os dois se encontraram. E por mais incrível que possa parecer, a atração que um sentiu pelo outro foi recíproca.
Não se sabe se ela andava carente por causa de alguma possível doença do ancião aristocrata (o que talvez viria a matá-lo). Mas foi o aparente desejo dela por ele (antes mesmo da morte do velho) que o fez desejá-la ainda mais.

Passados os climas fúnebres, iniciaram uma relação, tímida, porém com proposta positiva. No início, saíam apenas os dois. Ela pagava a conta no restaurante - ou no bar - e ele tinha excelente conversa.
E, apesar de querer evitar relações (por achar fútil e detestar conveniências) com o círculo amistoso dela, um dia ela o apresentou a seus amigos. Nesse dia, eram poucos, por isso o incômodo não foi tanto assim. Conversavam um papo esquisito aos ouvidos dele: falavam de pessoas desconhecidas, lugares estranhos; tinham uma visão das coisas tão absurdamente diferente da sua, que é difícil descrever. Não tocavam em certos assuntos (principalmente o que se dizia respeito à desigualdade social e necessidades biológicas humanas), bebiam moderadamente e não faziam uso de outros entorpecentes - não os baratos, pelo menos e, tampouco, abertamente.
Ela, por outro lado, não incomodou-se tanto com a ideia de conhecer a turma dele. Certamente que estranhou também aquela galera. Palavrões estavam sempre presentes no falar de cada indivíduo. Sob o olhar comum, vestiam-se mal. Todos cantavam juntos o que o violonista tocava, mas a maioria era desafinada. Conversavam sobre tudo: política, futebol, religião. Eram "filósofos marginais". Abusavam de bebidas e narcóticos. Mas, poucos daquele meio tinham algum conhecimento aprofundado, ou visão esclarecida. Essas eram suas tribos. Esses eram seus universos.

Certo dia, ela foi convidada para uma festa. E de lambuja estava ele no convite. Ele não gostou muito da ideia. O evento parecia de extrema gala. Mas a pedido dela, foi.
Vestiu-se a seu modo. Não estava em farrapos. Todavia, negou-se a usar paletó e gravata borboleta. Deu preferência a uma bela jaqueta de couro.
Ela parecia uma nobre italiana (do tipo Médici), ou uma elfa dos contos de J. R. R. Tolkien.

A festa era em um clube frequentado pela alta sociedade. E, foi quando chegaram lá, que então "caiu a ficha" dele. Ali estavam os patrões, que exploravam os analfabetos; os políticos, que desempregavam aqueles que não haviam sido seus cabos eleitorais; os malditos militares, que agrediam os homossexuais e os hippies; os religiosos, eternos algozes.
Todos os homens tinham a mesma aparência, como se fossem uma série de brinquedos, ou um bando de pinguins. Muito estranho para ele...

É surpreendente como uma coisa começa e - não necessariamente termina - se abala. Os dois gostavam-se muito, mas um simples fato mexeu com a sua relação.
Aquele ambiente deixou um bolo no estômago dele. Entretanto, ocorreu que dois conhecidos seus estavam há alguns metros da entrada do clube. Eram "seres imperfeitos" ao olhar dos almofadinhas.
Sem qualquer vergonha, deixou ela cumprimentar seu equivalentes e foi ter com aquela dupla de "podres". Apertou-lhes as mãos e provou de seu trago vagabundo.
De longe ela lhe fez sinal de que iria entrar e que o esperava lá dentro.
Lá dentro, ela percebia a demora dele e foi até a rua encontrá-lo. Flagrou-o fazendo uso de um "pó mágico" com o qual os outros dois se divertiam.
Ela reprimiu-o por aquela atitude, pois usar tal tipo de substância era uma espécie de tabu (e a companhia dele não parecia das melhores). E disse-lhe que aquilo que ele consumia era uma droga que levava ao vício
.
Ele tinha consciência disso. Mas olhou para seus pobres camaradas e depois para a burguesia hipócrita, e falou para ela:
_ "Talvez se, pelo menos, a maioria desses aí não fosse escrava da droga da qual estão matando a vontade nesse clube, esses meus amigos não necessitassem tanto de remediar suas dores com tais vícios".

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