quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Uma civilização muito mais avançada que a nossa - esta última, letrada nos Direitos, delicada ao tomar chá, erudita em política imutável e raça dos enviados de Deus (que graças a Deus são enviados por Ele para guiar nossas pessoas de bem) - estacionou sua espaçonave em uma coordenada sob a qual ficava um colosso de terra circundado, de um lado, por um oceano, e de outro, por também uma imensa área de chão habitada por povos e países que falavam um mesmo idioma, mas que diferia este da língua que na primeira era proferida, para lhes observar dos inquilinos os comportamentos, os costumes e os modos com que geriam sua ocupação daquela parte do planeta, antes de se apropriar de seu mundo e seus recursos ainda especiais.

Acontecia nessa descomunal nação uma divisão ideológica/partidária/filosófica de seu povo oriunda de um ponto cujos fatores, vistos de um panorama bastante superficial, foram desencadeados quando da eleição de um líder que vociferara em sua guerra democrática rumo ao patamar do senhorio que lhe era, por voto, de direito, a revolução social e política que os pobres e historicamente explorados daquele trecho de mundo contemplavam em sonhos e promessas de demagogos típicos de sua espécie. Ainda que, de início, seu governo tenha libertado seu público com o poder de se alimentar dos vícios produzidos e oferecidos pelos altos cleros civis dessa sociedade, essa civilização tão superior originária sabe-se lá de que canto do vasto universo percebeu logo que essa generosa patrulha da honestidade caíra na sombra da ganância e no lambuzo do poder. (Ficou claro, para essa civilização, o gosto deles pelo controle sobre seus semelhantes, e sobre tudo.) As alianças com antigos inimigos poderosos desembaçavam o horizonte de manutenção ininterrupta da colocação desse chefe e seu panteão no manche da máquina dessa sociedade. Logo, tantas rapinas alçaram voo revelando suas envergaduras sujas no céu aparentemente sem nuvens. Heróis foram julgados e enjaulados; mártires investigados e acusados; e das covas espalhadas pelos quatro cantos da região, reações radicais buscavam o extremo oposto de tudo aquilo que se alicerçou naquele conjunto.

Em contraponto, seguindo um dever auto-infligido de defender a qualquer custo o seu pontífice, outra multidão bradou ilegalidades e ilicitudes daqueles outros por abominarem a maneira com a qual a religião fanática liderada pelo tal senhor direcionava o formigueiro. Isso resultou num maniqueísmo que deixava os seus visitantes siderais espantados. Pelo lado dos que se opunham ao capitão salvador, sujeitos burlescos, palhaços sinistros, ascendiam em seus paladares por promessas de resgate à moral das pessoas de bem; por votos de estabelecimento de uma ordem, brindavam a lei através da violência. Aí que se elevou do charco um intitulado antagonista-mor da corrupção. Dizendo-se paladino da honestidade, não se contentava em facear os corruptíveis, como também se via na obrigação de perseguir quem não acompanhava o rebanho, mesmo que de qualquer forma não se fosse lobo. E àqueles que cometiam o delito, lhes reservava tão somente mutilação e morte.

Os viajantes cósmicos - a vomitar seus plasmas pelos poros, na falta de bocas -, nauseabundos, olhavam-se incrédulos com o que viam. Aquela gente, sob a carga do medo do que há adiante, sufocada pelo pavor do que tem ao redor, confinava-se atada a escassos postes cravados ou numa lavoura de cegos ou numa horta de brutos. Enquanto uns destruíam sua própria morada e agrediam sua própria vizinhança alegando ser isso necessário, os outros alertavam sobre os danos disso tudo amontoando seu lixo no quintal dos fundos, longe da vista da vizinhança - digna de, no máximo, um "oi".

A civilização muito mais avançada avançou ainda mais quando desistiu de apoderar-se daquele planeta, e foi embora apressada universo a dentro tendo a chance de não se nivelar àqueles hóspedes confusos, pranteando deixar-lhes aquele magnífico lar, mas se prontificando a alertar a quem quer que encontrassem pelo caminho: "nem passem por lá..."

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O Ópio

Fidel Castro = Papa
Che Guevara = Cristo/Mártir
Karl Marx = Deus

Forte é a irônica semelhança entre a obra de Marx e a Bíblia, as quais muitos interpretaram como puderam/quiseram, e suas filosofias postas em prática só deram em merda...

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

João = Baba O'Riley

O nome do cara é escrito "Neuton". Mas ele disse que a pronúncia é "Níuton", como no inglês "Newton". Tá certo, não gostamos de regras na linguagem, isso é coisa antiquada, inútil, coisa pra um cara como Newton ver - queremos tirar o H mudo, o U dentre o Q e o E e o Q e o I, o Ç etc.. Então meu filho vai se chamar João. João, mesmo, simples (vou manter o til, pra não parecer revolucionário demais). O nome vai ser João, mas a pronúncia vai ser "Baba O'Riley". Baba O'Riley, não interessa! Meu filho vai ter que exigir que a pronúncia certa seja "Baba O'Riley"! Serão muitas vezes? Não! Serão todas! Fui eu, pai do João (leia-se "Baba O'Riley"), que decidi a pronúncia do seu nome.

Dizem que a linguagem é feita pelas pessoas, por quem a fala. Só receio o momento em que a fala for-nos entregue por completo, e a confusão que vai ser quando "melda" for entendido como "mel"...

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Dialética de um Libriano

Às segundas-feiras
Te odeio,
Quero tua varíola

Às sextas-feiras,
Não que te ame,
Mas quero tua cura

Poderá Deus 
Absolver-me no Juízo,
Pela síntese das quartas?

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O Princípio de Vlamik

E ia nascendo um demônio em Vlamik; um monstro lamentável para quem já o tinha visto áureo como homem; para quem já vira em seu rosto um sorriso vivo - um riso de quem vivia!, e amava a vida; sofria-se um melancólico pesar pela escuridão e fumaça negra em que se dirigia seu espírito, enquanto outrora sua essência resplandecera tal a imagem dos deuses nas ideias do homens. Mas de tanto amor que crescera no peito de Vlamik, e de tanta indiferença - ou ignorância - que a isso sucedeu-se, um negrume e amargor lhe poluíram o espectro, ao ponto de homens e mulheres o desprezarem ou temerem-no. Pois Vlamik se deparou com o Amor, certa hora, e ficou-lhe tão próximo - como só poucos o podem - que a Loucura lho tentou, e não só isso, lho agarrou, levando ao jovem sardento o gosto suave do leite antes de o mesmo azedar. Então o Amor, sustentáculo da Praga, fez de Vlamik agente do que é terrível e cômico, e o rapaz de mantos pretos, e branco como um fantasma, passou a rir, com um olhar insano, do caos; e da demência da humanidade, aproveitou-se, criando dentes pontiagudos e sugando a vida das pessoas pelo sangue e pelas palavras. E sua vida não tinha mais fim. Enquanto pudesse secar a outrem, era sempre vivo, mesmo que já podre. E os séculos, ímpios, passavam; sua pele, argenta, mantinha-se firme como sua juventude, mas era antigo como os alicerces do mundo, ao ponto de saber mexer os ventos e fazer subir os enxofres do Inferno. Encantava pássaros, cobras, e vespas, e acariciava sapos e doenças, e então nem paladino nem guardião, da raça que fosse, fazia-lhe frente. Só quem lhe lembrava a humanidade e a delicadeza eram alguns druidas e sacerdotisas milenares do Erin... Mas a maioria dos Sábios lho chamavam desalmado... Quanto a isso, Vlamik, mais uma vez (louco) ria...

sábado, 23 de agosto de 2014

Quimera dos Tempos

Trinta graus no inverno
A vida é a estação do inferno
Está na hora de o mundo acabar

A cabeça emerge do peito
Um coração tem na coxa o leito
Na língua, o escalpo no mar

O sol nasce, a coruja pia
A lua em pináculo, um galo, então, mia!
Orgias de células em gema âmbar

Sobre pirâmides, cruzes
Sob o lodo dos pântanos, luzes
Vida e morte trocando de lar

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Simão Preocupado

Simão, invejoso, leu um poema de um amigo, e achou-o tão bonito e bem escrito, tão distante das superfícies e ao mesmo tempo não tão gelado quanto a profundeza, que, não sorvendo sua amargura, correu a ler um dos seus para se sentir melhor. Mas se conseguiu, Simão nunca disse...